Por Raul Pompéia (1882)
O ar impregnado de perfumes campestres entrou em turbilhões, fazendo vacilar a luz da vela que clareava o quarto e agitando os cabelos desgrenhados e secos da moribunda...
— Está bom o fresco — disse Emília sorrindo tristemente...
Depois, com grande espanto da duquesa, perguntou cheia de gravidade:
— Conhece Manuel de Pavia?...
— Conheço este desgraçado.
— Diz bem... um desgraçado... Este homem que foi cúmplice do duque na minha ruína... Ah! eu bem o reconheci... Este homem acaba de comprar ao meu sogro a honra de minha filha para oferecê-la ao duque...
A duquesa apertou a fronte entre as mãos para que não arrebentasse. O coração palpitava-lhe com uma violência mortal...
— Ah! sra. duquesa, é um belo presente para um pai!...
— Perdoe-me, pobre senhora! perdoe-me! — exclamou a duquesa abraçando e cobrindo de lágrimas a moribunda. Desatinava como se fosse enlouquecer...
— Mas o duque!... — exclamou com a voz angustiada, sem saber o que falar.
— O duque — disse a doente —, o duque ignora... O perigo é enorme. Rogolhe que salve minha filha... Ela está em casa de Pavia... Foi hoje... deixei-a ir, porque enquanto o duque estiver ausente... Salve-a... Entrego-lha.
— Ah! meu Deus! meu Deus! —exclamou a duquesa...
Acabava de ver um tremor agitar os olhos de Emília e a cabeça tombar-lhe para os seios, em toda a flacidez da inércia.
A mãe de Conceição lançara o derradeiro olhar ao retalho de noite que se via pela janela aberta e, fitando saudosamente uma estrela, inclinara a cabeça ao peso da morte.
Na estrela que viu por último, deixou escrito um adeus para aqueles que havia quatorze anos não sabiam dela.
CAPÍTULO XIV
A chegada de Conceição casa de Pavia foi uma festa.
Houve tanto prazer que ninguém acreditaria que o chefe daquela família fora preso. É que Manuel de Pavia dissera à mulher coisas tranqüilizadoras...
Cada um cuidava apenas em fazer agrados à companheira de Claudina. As horas correram insensivelmente. Houve um jantar que surpreendeu a Conceição. Iguarias nunca vistas; vinhos nunca sonhados.
Foi notável o interesse com que a mulher de Pavia serviu de bebidas a linda hóspede. Conceição, com a sua rusticidade descerimoniosa, foi provando de tudo que lhe davam.
Ao fim do jantar, sentiu-se presa de uma sonolência estranha. Quis retirar-se. Todos protestaram, dizendo que ela não iria para sua casa, senão no dia seguinte.
Conceição ficou.
Muito cedo começou a família de Pavia a preparar-se para dormir.
Conceição foi conduzida pela dona da casa ao esplêndido aposento que lhe era destinado. Um Éden de perfumes e tapeçaria. Clareava-o brandamente uma pequena lâmpada de porcelana, a desferir luares rosados para os largos espelhos que adornavam o quarto, nos intervalos de luxuosos móveis de toilette. Duas grande janelas, veladas sob alvíssimos panos de renda pendentes de maçanetas douradas, davam passagem às aragens frescas que circulavam por fora. Erguendo-se estas cortinas, viam-se, a entrar pelas janelas, debruçados indiscretamente sobre o peitoril, frondosos ramos de jasmineiros, que alastravam de flores o peitoril e desprendiam aromas, nocivos talvez àquela hora, mas de uma doçura celestial, enervante. Era indescritível a luta silenciosa mas renhida, desses aromas com a perfumaria dos frascos perdidos pelo boudoir.
Conceição, ao entrar, sentiu-se atordoada por aquela orquestra viva de fragrâncias. Morta de sono, como se achava, não levou grande tempo a reparar nos esplendores do ninho que entregavam. Procurou a cama. Era um prodígio de marcenaria que nem de longe recordava o seu leito da casa de Januário. Conceição não gastou um momento de admiração daquelas rosetas de madeira lavrada, daquele precioso cortinado escapando-se de uma elegante cúpula de cetim azul e derramando à farta torrentes de vaporozas gazes por volta da cama...
Depois que a mulher de Pavia despiu-a e adornou-a sedutoramente com uma impalpável camisinha de cambraia cor de neve, a moça deixou-se cair sobre o colchão fofo, que fugia-lhe sob o corpo ao menor movimento, e formava-lhe sempre um berço cavado muito macio, desafiando sonhos etéreos, fazendo-a supor-se balançada numa rede de nuvens entre as estrelas.
Conceição volveu-a durante algum tempo, provando com o corpo a frescura dos lençóis; depois, cedeu ao sono. Mergulhou segundo seu hábito, os braços debaixo do travesseiro e ficou imóvel.
Quando a mulher de Pavia veio ao aposento, trazendo à hóspede uma xícara de chá com biscoitos, achou Conceição dormindo a sono solto...
Não a despertou. Demorou sobre ela um olhar e um sorriso misterioso e foi-se para o seu quarto, tendo o cuidado de deixar aberta, numa saleta contígua ao aposento da hóspede, uma porta por onde se entrava do jardim.
A necessidade desta providência era a visita do senhor de Bragantina, que viria à sua entrevista, sem incomodar os que dormiam em outros aposentos.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. As joias da coroa. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17439 . Acesso em: 6 abr. 2026.