Por Coelho Neto (1890)
Depois de Eva foi içado o Lins porque, com a perna mais rija do que o braço da figura principal de A Barricada, não podia galgar as bordas da cuba. E seguidamente, um a um, com trabalho, aspergiram-se todos com as gotas avaras do reservatório. Refrescados, esperavam pacientemente que Leonor, como de costume, subisse para estender a toalha, mas as horas iam passando lentas sem que a negrinha aparecesse. O Lins foi examinar a chaminé — fumegava, mas era tão tênue o fio de fumo que o poeta, em grande desânimo, atirando-se a uma cadeira, balbuciou:
— Não é possível que tenhamos bife. Pela fumaça calculo o almoço que lá estão cozinhando em dois pratos minguados. E Ruy Vaz suspirou:
— Dona Ana cumpre a palavra: estamos sitiados pela fome. Que havemos de fazer?
— A guarda rende-se, mas não morre à míngua! — exclamou o Neiva.
Vamos depor as armas. Quem há de ser o parlamentar?
— Eu vou! — disse Anselmo.
— Não! — bradaram todos, aclamando Ruy Vaz, por ser o mais prudente e o mais conceituado. Ruy Vaz resignou-se e desceu. Em cima os rapazes ficaram catando migalhas da ceia e, quando o romancista apareceu, avançaram todos perguntando com ansiedade:
— Então?!
— Nada, meus amigos! Inflexível como a espada de Rolando.
— Mulher sem entranhas! — rugiu o Neiva. Nem parece mãe! E agora? Que se há de fazer?
— Vamos a um hotel, propôs Crebillon. — Quotizemo-nos e a caminho para a primeira baiúca que tenha um fogão. O Neiva opôs-se, espichando-se no canapé: "Não saía, estava sem forças. Mandassem vir o almoço, concorria com alguma coisa. Sair, nunca! Preferia acabar como Ugolino roendo o crânio do esqueleto." Correu a espórtula e Crebillon teve de entrar com a maior parte, sendo ainda, por um capricho da sorte, obrigado a ir ao primeiro hotel da vizinhança encomendar o repasto.
Amélia e a "sabina" encarregaram-se de arranjar a mesa e, à falta de toalha, estenderam um lençol de linho que o Toledo desencafuou das profundezas da canastra.
Quando o almoço apareceu, numa lata, à cabeça de um negro, romperam as exclamações e Crebillon eleito, por unanimidade, presidente da mesa, ocupou a cabeceira. Foi durante o almoço que ele, indignado com o procedimento da viúva, mulher de maus bofes, propôs organizar uma "república" modelo, em prédio de aparência, em bairro nobre, com todo o conforto e uma adega. Adiantaria o dinheiro para a instalação e tomaria a seu cargo a administração. Como o negro portador do almoço tinha uma fisionomia simpática e sisuda, Ruy Vaz lembrou baixinho ao futuro presidente da república ideal:
— Quem sabe se não temos neste africano grave um excelente cozinheiro...? Crebillon lançou um olhar perscrutador ao negro, que, de pé, os braços caídos ao longo do corpo, acompanhava o almoço prestando-se gentilmente a ir rapar os pratos no mirante para que servissem a outras iguarias:
— Sabes cozinhar, rapaz? O negro, timidamente, sussurrou: Que arranjava, menos mal, um bife e ovos e fazia canjas. A sua especialidade, porém, era o vatapá.
— Muito bem. Queres ser o nosso cozinheiro? O africano sorriu, torcendo as franjas do pano que lhe servia de rodilha. Quanto queres ganhar? Crebillon falava num tom cheio de tanta soberania que o negro não se achou com coragem de impor preço: deu de ombros, confiado na generosidade do seu futuro patrão.
— Bem, ficas desde já ao nosso serviço. Como te chamas?
— João de Deus.
— João de Deus! O nome é místico, disse Anselmo; talvez nos ponha em boas relações com a Providência. E, de pé, com solenidade:
— João de Deus, toma: bebe à tua fortuna! E passou-lhe um copo de vinho que o negro engoliu avidamente. Terminado o almoço os ossos foram todos atirados à área, o que provocou um rugido de Dona Ana. À tarde saíram, ficando de guarda à casa o fidelíssimo africano.
Enquanto Crebillon procurava a sonhada casa de aparência, em bairro nobre, a vida foi um suplício no segundo andar. Nem a vassoura, ao menos. Dona Ana mandava para sacudir a poeira do soalho e, como a bolsa não tinia, todo um longo dia escoou sem que os três fizessem passar alguma coisa pela boca, a não ser o fumo dos cigarros. Só o esqueleto, livre da contingência da fome, não suspirava. O próprio João de Deus, não farejando almoço pediu licença para ir fazer uns carretos que havia tratado e saiu.
— Ah! Não torna mais! — suspirou Anselmo quando viu o negro desaparecer, com a rodilha e uma fome de náufrago; mas enganou-se porque, à noite, cedo, lá estava ele, farto e fiel.
Para que não desconfiasse da abstinência Ruy Vaz levou-o ao mirante e, misteriosamente, fez uma preleção religiosa, explicando-lhe as razões secretas daquele sistema:
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. A conquista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16594 . Acesso em: 6 abr. 2026.