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#Romances#Literatura Brasileira

O Ateneu

Por Raul Pompéia (1888)

Representavam-se as influências dissolventes por duas espécies de encarnação, fundidas em hibridismo de disparate — a da forma feminina personificada em Ângela, a canarina, ou antes a camareira de D. Ema, e a de um encontro de tábuas humildes, conjuntadas às pressas, por força do prosaísmo incivil de um episódio da economia orgânica.

Falavam assim à imaginação, impressões de relance, um olhar banhado de lascívia, a tempestade galopante das roupas, em desordem de fuga, calculada para efeitos de irritação, um descuido de alças afrouxadas ao corpinho, um propósito de poças d’água em dias de chuva, obrigando a saias curtas e canelas nuas; ora a uma porta em rápida passagem, ora através do parque frondoso; ou ao escritório, por motivo de recados de D. Ema cuja freqüência desesperava o diretor; ou sobre o muro da natação, ou a qualquer canto com os copeiros, em dueto de idílio que se espiava; ou em graçola aventurada aos inspetores, que se babavam.

Os grandes pilheriavam; os pequenos, sérios, olhavam como quem aprende.

Depois, a conspiração dos sarrafos, o favor ao vicio à sombra do pinho alcatroado, a penúria do fumo, a mendicidade das fumaças concedidas por beneplácito de dedicação, a pontinha do bird’s eye de boca em boca, como o chimarrão do Rio Grande, mordida, salivada, saboreada com todo o gosto acre do que se esconde e que é vedado, e a lembrança solitária, devastadora das imagens do mal, distantes, inalcançadas, dança de flores doidas ao vento; a correspondência covarde acolhida num interstício de traves como em asilo de ínfima miséria; as obscenas leituras, e o alvoroço do receio perpétuo, adubo cáustico de prazer mau; a vaidade de iludir, a secreta mofa, o apetite de cupim pela demolição invisível do que está constituído, a urdidura preocupada, extenuante de uma tramazinha de hipocrisias mínimas e complicadas — vivescência vermicular dos estímulos torpes, respirada no ambiente corrompido do retiro, nascida de baixo, de um buraco, propaganda obscura da lama.

E diluía-se pelos semblantes a palidez creme, cavavam-se olhares vítreos das regiões do impaludismo endêmico.

Soavam-me ainda aos ouvidos as prédicas de ascetismo do Barreto. Para ele o mal era fêmea. O Sanches entendia que era macho. Amarrava-lhe um rabo ao cóccix e criava o Satanás bilontra, imoral e alegre. A cauda do demônio do Barreto era de rendas. Na Rua do Ouvidor, faria o Satanás — fanfreluche. Uma coisa horrível, com dois olhos, destinados à perdição dos homens. Saia digna de consideração, só a de padre, que, por sinal, é batina, não é saia. O mais não passava de pretexto da moda parisiense para disfarçar o pé de cabra. Cuidado com Satanás sorriso! um sorriso com duas pernas, um abraço com dois seios, uma pantomima do inferno, faceira e traidora, graciosa e comburente, donde por descuido e por acaso vai-se desprendendo a humanidade, como as cobrinhas pirotécnicas de Faraó. O menor descuido, desgraça eterna!

Contou-me que o porteiro do seminário em que estivera, para não ser despedido, fora intimado a separar-se da própria irmã. Deus, para vir ao mundo, tinha severamente elaborado o mistério excepcional de uma virgindade sem mancha. E, se não fossem as profecias, que não podiam ficar comprometidas, o veículo a Conceição, por amor da insexual pureza, teria sido o carapina José, ou mesmo o velho Zacarias, ainda mais respeitável pela calva.

A teologia do Barreto me calara fundo, e eu resolvera piedoso enxotar quanta imagem de sorriso viesse pousar-me à idéia. Virando a página dos fervores, a teoria ficou-me de resto, do Satanás feminino. Com a pureza a mais, natural da idade, ia zombando de Ângela e pompas adjacentes. Fechado o peito como a paz de Jano, e exteriormente a vaidade me amparava.

Para me prevenir ainda mais, veio uma ocorrência provar pelo fato que o Barreto tinha razão acerca da influência feminina; uma ocorrência que ensangüentou os anais do estabelecimento, entristecendo o diretor, embora afinal se lhe tornasse agradável pelo muito que fez falar do Ateneu.

Tínhamos acabado de jantar e corria como sempre a recreação, que precedia a hora da ginástica. Das bandas da copa, ordinariamente sossegada, chegou-nos subitamente um rumor de algazarra. Era estranho.

O alarido cresceu; uma altercação violenta; depois fragor de luta, o estrondo de uma mesa tombando. Depois gritos de socorro; mais gritos; a voz de Aristarco aguda, dando ordens como em combate. Estávamos atônitos.

De repente vimos assomar à porta, que dominava o pátio sobre a escada de cantaria, um homem coberto de sangue. Um grito de horror escapou a todos. O homem precipitou-se em dois pulos para o recreio. Trazia um ferro na mão gotejando vermelho, uma faca de lamina estreita ou um punhal.

“Matou! matou!” gritavam da copa; “Pega o assassino!”

Sobre os passos do fugitivo vinham diversas pessoas. João Numa, gordinho, lívido e trêmulo, ao descer a escada, rolou, partindo os óculos na pedra.

(continua...)

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