Por Raul Pompéia (1882)
Neste ponto da narrativa, Emília inclinou a cabeça para o peito. Uns soluços convulsivos, sem lágrimas, subiram-lhe do peito com uma violência atroz e ferveramlhe na garganta, imprimindo fortes estremecimentos a todo o corpo como vascas de dor.
A duquesa, sem poder articular uma palavra, cobriu os olhos com um lenço... Passaram-se alguns momentos.
— Ai meu Deus! — disse Emília com a voz cansada. — Tenho medo de não poder chegar... ao fim... Estou me sentindo muito mal... Faltam-me as forças... é esquisito... parece que estou muito pior...
— Tranqüilize-se, minha filha — disse comovida a duquesa. — Tranqüilizese... não se morre assim...
Um sorriso angélico, que não significava alegria, passou como um relâmpago pelos lábios de Emília...
Já havia acabado a exaltação que a fizera soluçar. Com a serenidade ligeiramente queixosa que revelara no princípio a doente recomeçou:
— Dentro de pouco tempo as coisas se encaminharam por tal forma que a vítima daquele horrendo sonho teve de fugir... fugir de casa corrida de vergonha e de infâmia... Um cartão que tinha gravado um nome poderoso e uma coroa ilustre, encontrado casualmente pela moça, era a sua única esperança. Este cartão continha uns oferecimentos que fariam corar, se o caso não fosse extremo... A pobre fugitiva recorreu àquela imunda salvação... Graças ao cartão... a filha dos proprietários do sítio de ***, a vítima daquele sonho brutal, a mísera criatura, que fugia diante da sua vergonha, fez uma longa viagem e veio ter ao palácio de Santo Cristo...
A duquesa estava como que atordoada, sofria duramente com a narração de Emília...
— ... veio ao palácio de Santo Cristo, porque a coroa do cartão era uma coroa de duque e o nome era o do senhor de Bragantina... porque era este senhor o fidalgo viajante que dera à mocinha do povo que sorrira... porque o gigante feroz do sonho fora ainda o senhor de Bragantina...
— O duque?!...
— Ah! minha boa senhora, ela merece o seu perdão, recorreu ao seu marido porque ia ser mãe. Não tinha direito de afogar um filho em qualquer pântano, suicidando-se... Veio pedir abrigo... Teve um cochilo aí no arrabalde...
“...Passados tempos, contratava-se o seu casamento com um sujeito de ínfima classe... Era a proteção generosa do sr. duque... O tal sujeito recebeu indiferentemente a carga que lhe atiravam e uma criaturinha recém-nascida que a mulher que lhe davam criava com muito afeto e cuja proveniência ordenaram-lhe que não indagasse...
Essa criaturinha, improvisada pelo sr. duque de Bragantina, essa excrescência no lar para um indivíduo que não passava de seu humilde lacaio, essa coisa estranha, essa verruga, era a linda Conceição, que a sra. duquesa conhece e a esposa que se dava ao lacaio era eu!...
— A Conceição — exclamou a duquesa — é, portanto, filha... — Da minha vergonha — murmurou Emília...
A pobre nora de Januário sentiu um desfalecimento profundo. Ao pronunciar a última palavra escorregou pelos travesseiros a que se arrimava e caiu no leito como morta...
A duquesa acudiu assustada. Verificou que fora uma conseqüência da debilidade da enferma...
— Quer ficar deitada, ou deseja que eu a sente como estava?
— Rogo-lhe que me sente — respondeu Emília, com a voz balbuciante. — Tenho ainda a dizer alguma coisa... quero morrer tranqüila... Não peço que mande chamar um padre... porque não chegaria a tempo... E é preciso aproveitar os momentos que me restam... prevenir a desgraça... prevenir a fatalidade...
A duquesa, que se esquecera das primeiras palavras de Emília, por causa da sua curiosa narrativa, lembrou-se de que tudo o que se dissera não passava de preâmbulo ao assunto grave...
— Não quero que se chame um padre — continuava a doente — porque seria perder grandes momentos... sra. duquesa, rogo-lhe que me ouça bem... Sou uma pobre moribunda... Vou confiar-lhe a miserável herança... Recomendo-lhe a minha Conceição, a linda bastardinha inocente... Tenho um filho, o filho do meu infame casamento... É pequenino, mas tem os avós que o adoram... A desamparada é Conceição... É a filha da minha vergonha, mas tem um grande sangue nas veias... Não! não é a filha de um lacaio que aceita por servilismo uma vagabunda sem honra... Nunca admiti que chamassem minha filha, porque eu era a mulher de um miserável... Conceição é a relíquia da minha pureza despedaçada... Eu adorei-a sempre... Agora vou morrer... Não pensava que fosse tão cedo, mas adivinho que não falta muito... Vou deixar a vida... não quero que ela me vá cuspir na cova por eu ter sido a autora da sua desgraça. Aproxime-se bem de mim, sra. duquesa... A voz me vai... faltando de todo... não perca uma palavra...
Sentia-se uma transformação no semblante da moribunda. Percebia-se-lhe nos olhos alguma coisa de fazer calafrios, como se a morte estivesse a espiar por eles.
— Preciso de ar... levante ali a janela...
A duquesa correu à vidraça e suspendeu-a, voltando para junto de Emília.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. As joias da coroa. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17439 . Acesso em: 6 abr. 2026.