Por Coelho Neto (1890)
Puseram-se à mesa, mas com tão estrondosas gargalhadas que Dona Ana recomeçou os bramidos na escada protestando contra o escândalo, ameaçando com a polícia. Crebillon, torcendo o cavanhaque rutilante, propôs uma descida ao primeiro andar, comprometendo-se a trazer a senhoria e a filha. Era curado, as cobras não lhe faziam mal, podia, sem receio, lidar com a jararaca. Ruy Vaz, afagando as mãos grosseiras da jovem "sabina", prometia-lhe amor eterno e um chapéu. Anselmo fazia uma cena de ciúme com Amélia por causa do comendador, enquanto o Duarte, sempre dado às musas, completava um soneto entre as vitualhas, quando Neiva, Crebillon e Martins desceram solenemente para buscar Dona Ana e Vidinha. Mas a viúva correu a trancar-se na sala de jantar arrastando a mesa para junto da porta, a bradar: que iria para a janela pedir socorro se continuassem. Vidinha soltava agudíssimos gritos invocando santos e João explodia em obscenidades e ameaças. Os três desistiram da empresa e, quando subiram, o Duarte recitava ao Toledo o soneto que concluíra e mais ninguém havia na sala. Pasmaram e Crebillon, assomado, quis dar uma busca na casa quando um grito horrível repercutiu no corredor e a "sabina", lívida e trêmula, com os olhos enormes e as roupas em desordem, apareceu na sala, rolando, sem forças, sobre o canapé. Acudiram com vinho mas a pobre rapariga tremia com os olhos na porta que abria para o corredor, batendo os dentes, num pavor inenarrável.
— Esta mulher viu alguma coisa séria, disse Crebillon sisudamente e o Neiva, com o copo nos lábios da "sabina", enquanto ela bebia, tocando com os dentes um trêmulo no cristal, afirmou:
— Coisa muito séria! Para um susto como este! E indagou: Mas que foi?
Que viu você lá dentro? Não me consta que esta casa seja mal-assombrada. — É! — exclamou ela.
Mas Ruy Vaz entrou indignado:
— Ora, seu Toledo, por mais que eu diga que não deves andar com aquele estafermo de um lugar para outro, é escusado. Aí tens... Não é a primeira peça que me prega o tal arcabouço.
— Que estafermo? Que arcabouço?...
— O esqueleto. Imaginem vocês: um esqueleto, de paletó saco, sentando diante da mesa com ares de quem vai compor um poema macabro. Isto é até profanação...
— Eu não o sentei nem tampouco o vesti.
— Está sentado e de casaco, afirmou a "sabina". Está sentado, muito teso, com as pernas esticadas e os braços na mesa. Parece até que está escrevendo.
— É a mão do finado, disse o Neiva e a "sabina" continuou:
— Eu fui em cima dele no escuro e, tateando, senti a dureza dos ossos, depois uma coisa redonda, lisa, gelada que parecia uma melancia. Desconfiada, pedi ao senhor Ruy Vaz que riscasse um fósforo e, quando ele riscou... Nossa Senhora! Escondi o rosto nas mãos, aterrada. Por que não mandam enterrar aquilo?
É de seu pai?
— Não, senhora, aquilo é a base da ciência.
— Que ciência! Aquilo é osso de defunto. Ainda se fosse de algum parente seu, mas não sendo... Deus me livre de ter uma coisa daquelas no quarto, perto de minha cama. Até era capaz de vir uma noite dormir comigo! Cruzes!
— Isso não, cabocla, disse o Neiva: o esqueleto deu baixa. Àquele é que tu não apanhas. Contenta-te com a carne, filha, não queiras ainda roer os ossos. — Deus me livre de voltar aqui!...
Eram dez horas da manhã, o sol entrava em grandes jorros pela sala quando o Duarte, espreguiçando-se, bocejou alto; vendo, porém, a luz, ergueu-se de um salto do monte de jornais que lhe haviam servido de leito, bradando pelo Martins:
— Levanta-te! São horas! Olha que perdes o trem! Procurou pela sala, que estava numa desordem lamentável. No canapé dormia o Neiva com a cabeça sobre dois grossos relatórios. Crebillon roncava espichado na cadeira de balanço e o Toledo, com a cabeça repousada nos braços, sobre a mesa, parecia de pedra. E o Martins? Havia desaparecido. Teria ele passado a noite em claro para não perder o trem, escapando-se sub-repticiamente à hora? O Duarte alarmou a casa e todos despertaram amarrotados, com escancarados bocejos.
Sendo a descida ao Cranium mais arriscada para as damas do que foi, para os argonautas, o desembarque em Colchos, considerados, com o devido respeito, o pulso masculino da viúva e a fúria que nela tomou a feição ameaçadora de loucura, constituiu-se um corpo de proteção que, em caso de necessidade, reagisse energicamente defendendo as costelas delicadas de Amélia e os delgados braços da "sabina". Por decência, porém, não querendo que se reproduzisse a cena indecorosa do areópago, sem os nobres intuitos que levaram Hipérides a desnudar Frinéia, a falange, que tinha no Lins o seu Tirtéu, ficou à distância enquanto o fragilíssimo sexo desbesuntava as carnes pecadoras.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. A conquista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16594 . Acesso em: 6 abr. 2026.