Por Raul Pompéia (1888)
Durante a primeira quinzena de colégio, o pensamento de um feriado e regresso à família inebriou-me como a ansiedade de um ideal fabuloso. Quando tornei a ver os meus, foi como se os houvesse adquirido de uma ressurreição milagrosa. Entrei em casa desfeito em pranto, dominado pela exuberância de uma alegria mortal. Surpreendia-me a ventura incrível de mirar-me ainda nos olhos queridos, depois da eternidade cruel de duas semanas. Não! A magnanimidade do cataclismo temido favorecera o meu teto. Deus permitira, na largueza pródiga da sua bondade, que eu revisse a nossa casa sobre os alicerces, o nosso tão lembrado teto e a chaminé tranqüila a fumar o esplim infinito das coisas imóveis e elevadas.
Com o tempo habituei-me à feliz probabilidade de achar na mesma os prezados lares, e ousei nos momentos da cisma colegial fundamentar projetos de divertimento sobre a esperança de que, abusando a minha ausência e só para me atormentar o coração, a terra se não havia de abrir e devorar exata e exclusivamente o que me era mais caro.
Não foram, porém, preocupações pueris de temor, nem prospectos de folguedo que levei ao primeiro dia de saída depois da demissão de Santa Rosália.
Vinha buscar-me um criado. Eu, adiante do portador, na minha fardeta de botões dourados, parti do Ateneu, grave e mudo como um diplomata a caminho da conferência. Ia efetivamente ruminando a mais séria das intenções: afrontar uma entrevista franca com meu pai, descrever-lhe corajosamente a minha situação no colégio e obter um auxilio para reagir.
Meu pai acabava de deixar o leito. Nada sabia dos meus últimos insucessos.
Ficou admirado e consternado. Daí o êxito completo da minha entrevista.
Dias depois, no colégio, eu era um pequeno potentado. Derrubei o Sanches; consegui revogação da disciplina das espadas; reconquistei a benevolência de Mânlio; levantei a cerviz! Desembaraçado do arbítrio pretensioso de um vigilante, o trabalho agradou-me. Um conselho de casa afirmou-me que havia a nobre opinião de Aristarco e a opinião ainda melhor da cartilha, mas havia uma terceira — a minha própria, que se não era tão boa, tão abalizada como as outras, tinha a vantagem alta da originalidade. Com uma palavra fez-se um anarquista.
Daí por diante era fatal o conflito entre a independência e a autoridade.
Aristarco tinha de roer. Em compensação, adeus esperanças de ser um dia vigilante! principalmente: adeus indolência feliz dos tempos beatos!
Para a campanha da reação, armazenei uma abastança inextinguível de vaidade e deliberei menosprezar do melhor modo prêmios e aplausos com que se diplomavam os grandes estudantes Habituado à vida do internato, nutria a certeza de conseguir sozinho quanto não pudera com o amparo de um amigo, nem com a ajuda de Deus. No firme propósito de me não fazer exemplar nem me aplicar ao cobrejamento de habilidade a que o papel de modelo obrigava, estabeleci, contudo, a razoável mediocridade sem compromissos, de um novo programa.
Poucos prêmios ganhava dos papeluchos amarelos; em contrapeso facilitava aos poucos que me vinham a emancipação boêmia do cisco. Por esta escala foram ter alguns com o meu nome ao gabinete do diretor. Agravo de desdém que se não perdoaria jamais.
Desenvolveu-se nas alturas uma antipatia por mim, que me lisonjeava como uma das formas da consideração. Chegava eu assim, por trajeto muito diferente do que sonhara, à desejada personificação moral de pequeno homem.
Invejosos da minha altivez, os inimigos fizeram partido. Sanches era o chefe, na cortina; Barbalho era o líder abertamente. Eu sorria vaidoso, levando de vencida a guerrinha, como a espuma à proa de um barco.
Este foi o caráter que mantive, depois de tão várias oscilações. Porque parece que as fisionomias do caráter chegamos por tentativas, semelhante a um estatuário que amoldasse a carne no próprio rosto, segundo a plástica de um ideal; ou porque a individualidade moral a manifestar-se, ensaia primeiro o vestuário no sortimento psicológico das manifestações possíveis.
Reinavam no Ateneu duas perniciosas influências que contrabalançavam eficazmente o porejamento de doutrina a transudar das paredes, nos conceitos de sabedoria decorativa dos quadros, e ainda mesmo a policia das aparições ubíquas e subitâneas do diretor. Coisa difícil de precisar, como a disseminação na sociedade, do principio do mal, elemento primário do dualismo teogônico. O meio, filosofemos, é um ouriço invertido: em vez da explosão divergente dos dardos — uma convergência de pontas ao redor. Através dos embaraços pungentes cumpre descobrir o meato de passagem, ou aceitar a luta desigual da epiderme contra as puas. Em geral, preferese o meato.
As máximas, o diretor, a inspeção dos bedéis, por exemplo, eram três espinhos; as referidas influências eram mais dois. A mocidade ia transigindo do melhor jeito com as bicudas imposições das circunstâncias.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. O Ateneu. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17440 . Acesso em: 6 abr. 2026.