Por Raul Pompéia (1881)
Alexandre correu à porta do casebre. Pela encosta da pedreira, desabava, rolava, saltava, despenhava uma cachoeira faiscante de pedras e estampidos. O casebre tremia como se tivesse medo. O fracasso cresceu atroador e foi cessando depois no prolongamento surdo dos ecos.
- Que terrível desmoronamento! Exclamou o moço, voltando-se para a mulher ou cousa que ovalha do cavouqueiro dono da casa.
- São as cunhas, disse ela... Isto já não me faz medo como os trovões. No princípio, sim... eu meassustava, mas há tantos anos que vejo isso, sempre que chove,..
E passou a linguaruda a explicar o emprego das cunhas, etc.
Alexandre interrompeu-a:
- Mas, a senhora está aqui há muito tempo?...
O mancebo não deixara escapar a entrada que lhe dera a mulher.
- Oh! Se estou!... Respondeu ela, e...
- Então, conheceu uma linda rapariguinha que...
- A Clarinha das Pedreiras!... Para sinal que aqui mesmo morava... aquele anjinho!...
- Essa mesmo... Que fim levou-a?
- Ah, meu senhor, que saudade!... Aquele anjinho abandonou a gente... Que ingratazinha, valhame Deus!... E eu não dou muito pela sua felicidade agora... Nós a encontramos atirada ai pelas pedreiras, quando ainda tinha uns quatro anos. Já era lindinha; mas estava tão mirrada!... Ainda não falava que se entendesse. Não se sabia quais eram os malvados pais daquela criança desventurada. Trouxemo-la para casa. Tinha fome a pobre!...
Estava sujinha, que chorei de pena!
Pois nós demos de comer, demos de vestir, fizemo-la nossa filha. Eu e o meu homem cuidamos dela como do pequerrucho que nos dera Deus e nos tomara há tempo. Sustentamo-la por mais de dez anos, trabalhando como burros para ela não ter de que chorar. A Clarinha, ela nos dissera chamar-se assim. a Clarinha, em compensação, era uma santa criança. Tinha tanta graça que nós a adorávamos, com perdão de Deus...
E agora, de repente, há uns dois meses desaparece-nos de casa... Tenha compaixão dela Virgem Maria!... Toda a gente aqui das pedreiras se pôs a procurá-la por todos os cantos. Não havia quem não gostasse da Clarinha das Pedreiras, como a conheciam. Sei de muito rapaz que andava caído por ela. O senhor, que pede-me novas da menina por tê-la visto, aposto que já gostava dela. E era um anjo mesmo!... Abandonou a nossa casinha. Procurou-se por ela; o administrador das pedreiras falou ao inspetor do quarteirão. Quando menos a gente esperava, um criado todo bem vestido veio nos dizer que a Sra. D. Clarinha não queria mais viver conosco, e ia se casar com um moço rico que por aí anda... Deus queira que ela seja bem feliz, a pobrezinha; mas... eu não digo nada...
Esta breve história, interrompida várias vezes pelo rumor de um desmoronamento lá fora, não surpreendeu a Alexandre, porém abalou-o profundamente.
Diante dos olhos dançavam-lhe as recordações de um moleque fetal, uma camélia vermelha e um rapagão bem trajado, com seu chicote de cabo de prata.
A chuva cessara.
Ele despediu-se da boa mulher, agradecendo o abrigo que lhe dera contra as fúrias do temporal e as informações sobre a sua estrelinha, e saiu para a estrada.
A lua, nascida durante a tormenta, estava a brilhar sobre o firmamento limpo. Espalmava-se em toda a largura de uma boa gargalhada.
Raul Pompéia
COMÉRCIO DE FLORES
Flores! Quem quer as flores?
Todas as noites ali, principalmente às invernosas, quando são mais belas às flores, todas as noites à porta do teatro.
A alegria passava. Cavalheiros brilhantes de alvos peitilhos, pontuados de pedras rútilas, senhoras sérias, coradas de sangue feliz e rico, as beldades desordeiras, de uma em uma picando o passo com os finíssimos borzeguins feéricos, deixando na areia do átrio vestígios mínimos como os pés das corças, outras em atropelo, tossindo risos de bacante, permutando palavras confusas de estranhos idiomas, confusas e quentes como um hálito de alcova, como o rápido fulgor das cabeleiras louras que se agitavam na passagem, felizes e louras como a madureza dos trigos e a opulência das messes.
Quando a chuva caía, eram ainda alegres.
- Flores! Quem quer as flores?
Como são belas as flores quando chove!...
E elas passavam, as mulheres louras, confortadas nas mantilhas espessas, veludosas, que lembravam as friorentas ovelhas despidas.
- Quem quer as flores?
Todas rápidas a fugir do inverno que lhe não compravam um ramalhete. Entretanto, a pequenina mostrava, no tabuleiro de folha de dous fundos, que lindas cousas! As violetas, perpetuamente murchas como o sorriso dos pobres, mas que vão tão bem à mão das luvas claras, com o segredo artístico dos contrastes... Quando não: tinha, para os menos contemplativos, as rubras rosas como gargalhadas presas, vivas, rorejadas da chuva, luzindo ao gás como de um orvalho de topázios, bebendo a frescura d'água, no tabuleiro verde de flandres, vivas, à noite, como se guardassem nas pétalas todo o esplendor de um dia.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. 14 de julho na roça. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7632 . Acesso em: 6 abr. 2026.