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#Romances#Literatura Brasileira

Recordações do Escrivão Isaías Caminha

Por Lima Barreto (1909)

Depois de nossas relações, era freqüente passearmos juntos. Saiamos às dez horas, tomávamos café e andávamos até às três ou quatro da tarde. A essa hora separávamo-nos em obediência a uma convenção tácita. Tratava-se de jantar e cada um de nós ia arranjar-se. À tarde, encontrávamo-nos e íamos conversar a um café com alguns outros amigos dele, na mor parte desprovidos de dinheiro, com magros e humildes empregos, pretendendo virar a face do mundo para ter almoço e jantar diariamente. Leiva era o chefe, era a inteligência do grupo, pois, além de poeta, tinha todos os preparatórios para o curso de dentista. Eu gostava de notar a adoração pela violência que as suas almas pacificas tinham, e a facilidade com que explicavam tudo e apresentavam remédios. Embora mais moço que eles, várias vezes cheguei a sorrir aos seus entusiasmos. Creio que lhes não faltava inteligência, sinceridade também; o que não encontravam era uma soma de necessidades a que viessem responder e sobre as quais apoiassem as suas furiosas declamações. Insurgiam-se contra o seu estado particular, oriundo talvez mais de suas qualidades de caráter do que de falhas de temperamento. Eram todos honestos, orgulhosos, independentes e isso não leva ninguém à riqueza e à abastança. Leiva era quem mais exagerava nos traços do caráter comum e se encarregava de pintar os sofrimentos da massa humana. Era um grupo de protestantes, detestando a política, dando-se ares de trabalhar para obra maior, a quem as periódicas “revoluções” não serviam. Um ou outro acontecimento vinha-lhes dar a ilusão de que eram guias da opinião. Leiva gabava-se de ter feito duas greves e de ter modificado as opiniões do operariado do Bangu com as suas conferências aplaudidas. Os outros, sem a sua enfibratura, os seus rompantes de atrevimento e a sua ambição oculta, mais sinceros talvez por isso, limitavam-se a falar e a manifestar as suas terríveis opiniões em publicações pouco lidas.

No entanto, Leiva parecia-me mais sincero na sua poesia palaciana e de modista do que nas idéias revolucionárias. Não o julgava perfeitamente hipócrita; era a sua situação que lhe determinava aquelas opiniões; o seu fundo era cético e amoroso das comodidades que a riqueza dá. Cessassem as suas dificuldades, elas desapareceriam e surgiria então o verdadeiro Leiva, indiferente aos destinos da turba, dando uma esmola em dia de mau humor e preocupado com uma ruga no fraque novo que viera do alfaiate.

No café, em certos momentos, quase sem transição, ele passava das objurgatórias mais terríveis a recitar versos, cheios de detalhes de modas e ardendo de admiração pelas coisas de luxo. Havia nisso muito da sua forte mocidade para que eu me lembrasse de Georges Ohnet. Bem parecido, de rosto bem-feito e um nariz clássico e uns bigodes e uns cabelos pretos, tratados com especial carinho de manhã e à tarde, ele tinha a insignificante boniteza dos homens, tanto do agrado das nossas mulheres. Era um namorador temível. No seu quarto, além da mesa e alguns volumes com que preparava as arengas revolucionárias, tinha uma cama de vento, nua e órfã de lençóis e travesseiros com fronhas, uma grande mala cheia de camisas, colarinhos, punhos, gravatas e perfumes. Ganhava noventa mil-réis no Centro dos Varredores, gastava vinte e cinco no quarto e o que sobrava era mais para as coisas de toillette do que para a sua alimentação. Freqüentava os lugares elegantes, ou tidos como tal, e uma noite levou-me ao Parque Fluminense, onde encontrei o Agostinho Marques, o elegante Agostinho, cheio de anéis e alfinetes, que eu não quis reconhecer. Desde que nos demos a conhecer, isso havia perto de um mês, nunca mais o tinha visto; ele, porém, chamou-me amigavelmente. Era o solicitador do doutor Leitão Fróis, ganhava um conto e tanto por mês e pretendia formar-se em Direito precisando de mim, para lhe explicar uns preparatórios. Disse-me isso no momento em que Leiva se deixara absorver por uma dama elegante da nossa vizinhança. Estávamos sentados a uma mesa do botequim, e servíamo-nos de cerveja, a convite de Marques. Quando Leiva se voltou de sua preocupação extra-revolucionária, Agostinho queixou-se dos calos:

— Não há sapateiro que preste no Rio de Janeiro... Mandei fazer essas botinas no Martinelli, dei quarenta e cinco mil-réis e é esta desgraça! Apertam-me como diabo...

O Abelardo tinha opinião um pouco diferente sobre os sapateiros da cidade. Antigamente, mandava fazer as botinas de encomenda; ultimamente, porém, comprava-as feitas. Eram estrangeiras e melhores...

— Mas o Martinelli, “Seu” Abelardo! objetou semi-indignado o solicitador. O cabedal, os aviamentos, tudo vem da Europa; só são cortadas e montadas aqui...

— Ora, continuava Leiva, eu já tive botinas dele e sei tudo isso; mas não vale a pena, é um engano... Olhe, o senhor dá trinta e cinco mil-réis por uma Walk-Over ou Clark e fica mais bem servido do que com ele. E são bonitas... Veja!

(continua...)

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