Por Lima Barreto (1911)
A nobreza da cidade de Piabanha, nobreza bem documentada por um d’Hozier ignorado, resolvera reunir-se para dar pasto ao aristocrático esporte dos seus maiores. É verdade que não tinham coutadas, nem tapadas nos seus castelos, mas os fidalgos da serra substituíram-nas por um capoeirão de carvoeiro dos arredores. Não houve cão vagabundo, lulus de todos os caniches, que não fossem convenientemente açaimados e a “meute”, fidalga, fidalgos, cavalos, piqueiros, monteiros, veadores e mais trem de caça grossa partiam a montear javardos, lobos, onças e outras feras daqui e da Europa. Obedecidas todas as regras, coube a Neves Cogominho abater o javardo ou o que fosse; e, fincando as esporas, foi esperá-lo na trilha que as trombetas dos monteiros indicavam como sendo da passagem do animal enfurecido. Atirou, desmontou para dar-lhe o tiro da graça; e descobriu então que havia matado um bezerro complacente que uma mascara adrede transformara em onça.
Há nas antigas crônicas de caça narrativas da intromissão de gênios malfazejos para operar tão estranhas transformações; mas, daquela vez, não foram eles e sim a cautela e a prudência dos organizadores da partida para atender à falta absoluta da onça adequada.
Essa proeza de Neves foi notada e ele não a quis repetir para que não houvesse o desencanto. Cogominho era homem sério, cheio de responsabilidades do seu cargo, silencioso, olhava com doçura e segurança, e não lhe parecia bem arriscar-se assim aos dentes das feras — ele que esperava ocupar a presidência para a felicidade do país.
De resto, ganhara corpo, o ventre lhe crescera e junte-se tudo isso ao masolucos, para se ver como ele era impróprio para montar a cavalo e repetir aquela proeza cinegética. Quitério, que tivera notícias dela, não a esquecera no seu artigo e foi a paridade encontrada por ele muito gabada pelos entendidos em psicologia, filosofia, semântica e escrituração por partidas dobradas.
O palacete do senador, inteiramente aberto e iluminado, fulgia no fundo do longo jardim. Perdidos na massa escura dos canteiros, glóbulos elétricos multicores brilhavam amortecidos, abafados.
As pessoas mais chegadas, os chefes políticos e os seus subordinados, os admiradores e os últimos amigos já lá estavam esperando a manifestação.
Erravam pelas salas da casa os nomes mais em evidência na política nacional e seus asseclas. Até o Clodoveu Rodrigues que se julgava um futuro oposicionista, lá estava. Era curioso esse Clodoveu, no físico e no moral. Muito alto e esguio, tinha um semblante triste e pensativo. O seu longo nariz de corte aquilino, não fazia lembrar uma águia, mas uma cegonha, em postura meditativa de estampa, à qual houvessem cortado uma grande porção do bico.
Rico, talvez, solteiro, cheio de dourados e posições, de filigranas e enfeites, temia as aventuras amorosas do seu mundo. Fosse por timidez natural ou medo do comprometimento, o certo é que não se murmurava nada a respeito de sua atividade sentimental. Ia à Citéria cautelosamente...
Na sua concentrada tristeza, havia algum mistério de coração, que não tomava a proporção de um cínico desafio às convenções e aos preceitos, porque o deputado abafava o homem.
A presença de Clodoveu ali causava certa surpresa, pois as suas ligações com o presidente descaído obrigavam-no a ficar na oposição; no entanto, ele passeava de uma sala para outra, lentamente, fleumaticamente, pachorrentamente.
Lá estava também o J. F. Brochado, um curioso tipo de político, como quase todos os da sua raça, seco d’alma, mas, como pouco deles, agitado a fazer praça de honesto, tendo sempre uma cauda de bajuladores, aos quais, nos seus momentos de poder, fazia, indiferentemente contínuos e juizes, deputados e escriturários, engenheiros e carimbadores, conforme fosse o momento, a ocasião, a vaga, sem atender a saber ou o que quer que fosse.
Seguia-o sempre o seu amado secretário, uma múmia peruana, untada de pinturas e a enxergar por uns óculos negros, sombra que não o deixava um único instante. Era poeta de modinhas e orador hilariante.
Havia também o Carlos Salvaterra, senador, homem lido e inteligente, mas escravo da política e escondendo em caprichos de “toqué” a escravatura que pesava na sua consciência.
Seria difícil não encontrar ali Fuas Bandeiras. Ele lá estava com sua careca lustrosa e o seu ar atrevido de pirata argelino, a sugar o seu indefectível charuto. Ele era curto e atarracado como, em geral, os caprinos portugueses.
Alem destes, também lá se encontravam o General César Japuí, um crente do nosso misticismo militar, convencido de que a sua qualidade de general, unicamente ela, dava-lhe capacidades superiores de governo e administrador; o Sarmento Heltz, fino e cauto, que todos naquele meio julgavam precioso e raro como uma raposa polar; o gordo Pieterzoon, o deputado Costale, mais conhecido por Xandu, que andava sempre à cata do emprego de ministro. o general Forfaible, o senador Macieira e outros mais. Muitos tenentes.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)BARRETO, Lima. Numa e a ninfa. Brasília, DF: Ministério da Educação, Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16822 . Acesso em: 29 abr. 2026.