Por Coelho Neto (1890)
— Ouça, Dona Ana. Realizou-se hoje o ensaio geral da minha peça e os rapazes querem fazer-me uma manifestação. Está por demais ruidosa, concordo, mas é natural... Todas as manifestações são, mais ou menos, ruidosas. O caráter da manifestação, quando é sincera, é o ruído. Não se zangue. De repente a tranca caiu com estrondo e uma horda arremessou-se para a escada com luminárias bradando:
"Viva Dona Ana! Viva a dinamite que é o princípio da igualdade humana...! Vivaa!" E uma voz espremida esganiçou: — Vii... mas não concluiu. Ouviu-se o espoucar de uma garrafa nos degraus da escada.
— Desastrado! Como é que abres mão da felicidade? — exclamou o Neiva vendo o Lins estupefato diante dos cacos da garrafa, com os pés num córrego espumante.
— É a primeira vez que o vinho me desce aos pés, disse o poeta lastimosamente. E o bando precipitou-se em tumulto, escada acima.
Era uma invasão. Rompia a marcha Anselmo que fora abrir a porta dando os braços à Amélia e a uma rapariga tímida que atordoada, com um sorriso imbecil nos lábios descorados. Seguiam-se o Neiva, com um grande embrulho; o Lins com uma bojuda garrafa; Duarte com um pão, grande como uma massa de sílex e dois outros, Crebillon, conterrâneo de Anselmo e de Ruy Vaz, ruivo, de cavanhaque flamejante, portador de duas garrafas, e o Martins, ex-colega de Anselmo em S. Paulo, de óculos escuros, com uma valise.
Chegando ao patamar atroaram a casa com um hurra! que fez saltar de um canto, espavorido, o gato venerando de Dona Ana, que se pôs a miar arranhando à porta da sala de jantar.
Ruy Vaz, vendo a corte, saiu-lhe ao encontro para pedir compostura, mas ao darem com ele, os noctâmbulos irromperam em saudações frenéticas, mostrando os presentes e não houve meio de convencê-los de que estavam em um quarteirão pacato, em casa de uma família de hábitos patriarcais, às duas horas da manhã. O Neiva berrava como um energúmeno, comandando a expedição, e foram pelo segundo lance da escada com estridor. Ao alto estava o Toledo enrolado no robe de chambre, com uma vela, alumiando. O Neiva bradou:
— Bravos ao Hamlet! E o Lins levantou um viva ao "Farol da civilização!" Logo que chegaram à sala, depondo os embrulhos, enquanto o Duarte, desfazendo um pacote de velas, distribuía uma iluminação profusa, aproveitando igualmente os cotos que haviam trazido resguardados em mangas de papel, o Lins fazia questão do robe de chambre do Toledo e Amélia punha-se à vontade. Ruy Vaz quis conhecer o motivo daquela manifestação noturna e o Neiva, tomando a palavra, explicou, facundo:
— O Acaso, que é o título com que a Providência passeia incógnita entre os mortais, fez com que nos reuníssemos hoje na Maison Moderne. A Fortuna dispensara-nos vários dons da sua cornucópia abundante e o bom-humor foi o arco de aliança que nos uniu. Tomamos conta da mesa maior, que foi franqueada a quantos apareciam famintos ou sedentos. A sala parecia, mal comparando, um quartel de eleitores em dia de eleição. A cozinha e a adega passaram por nós em procissão pantagruélica. Foi uma festa digna de Sardanapalo. À falta de assuntos para brindes, como fazia parte do grupo o nosso precioso Crebillon, glória do Norte, travamos uma luta como a de Watburgo, tomando por tema o cavanhaque flamejante do valente abolicionista e correram rios de Bourgogne, rolaram catadupas de Champanhe. À meia-noite surgiu o Martins que aí está de guarda-pó no braço e valise à mão, procurando a matalotagem que encomendara, porque vai hoje para o Friul Paulista. Tomamo-lo e a ceia foi por diante. Já empanzinados, lembramo-nos de vocês e houve um clamor geral, um clamor altruísta, digno de Comte: "Pobres homens! Enquanto aqui nos banqueteamos copiosamente, eles dormem sem ceia, num quarteirão obscuro da rua Formosa. Façamos uma carga e parta-mos para esse retiro... Eles terão um alegre sonho, o Martins, a dois passos da estação, poupará o dinheiro que reserva para o tílburi e nós outros veremos o rosto cor de rosa da aurora quando ela vier correr o reposteiro da noite diante do sol." Como não há prazer completo sem mulheres, arrancamos a Amélia às garras de um comendador lascivo lembrando-lhe os juramentos de fidelidade e mostrando-lhe o caminho do dever honesto e raptamos esta "sabina" pudica, que está em caminho do escritório do Silva Araújo. Viemos cantando e rindo e aqui estamos nesta bastilha feroz. Tenho dito.
Mal o Neiva terminou a sua oração, o Duarte pôs-se a desfazer os embrulhos e apareceram lascas de fiambre, fatias de mortadela, ostras e camarões recheados; pimentões rolaram sobre a mesa e um fornido roast-beef reluziu gorduroso, cercado de farofa, como uma pirâmide num areal revolto. Havia três copos, dois foram oferecidos às damas e o terceiro foi posto à sorte cabendo ao Lins. Mas onde estava ele? Roncos tremendos vinham da alcova da sala. O poeta, enrolado no robe de chambre, como uma múmia nas suas tiras, dormia com a bojuda garrafa aconchegada ao seio.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. A conquista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16594 . Acesso em: 6 abr. 2026.