Por Raul Pompéia (1880)
Entre os cadáveres via-se o do mísero inocente, filho de Branca, o de Eustáquio, que fora barbaramente morto sem tentar defender-se e o do paraense que caíra dilacerado por muitos golpes; mas depois de haver tirado a vida a cinco malvados.
Quando Rosalina voltou a si, achou-se ao ombro de um indivíduo, que a carregava brutalmente para as florestas. Fez um esforço enérgico para escapar das mãos que a prendiam. Foi debalde. Olhou em torno de si, procurando com os olhos o anjo de salvação que tantas vezes a socorrera.
Avistou então a alguma distância um outro indivíduo que a noute não deixava claramente perceber e diante dele uma sombra, que corria a agredi-lo.
Adivinhou logo quem era a sombra.
Quis gritar. A mão grosseira do seu carregador tapou-lhe a boca e ela sentiu que ele deitava a correr para a mata. Fez uma contorção desesperada, mas, exausta, deixou pender depois a cabeça para as costas do infame que a arrebatava...
A sombra que Rosalina avistara era Otávio Dugarbon; porém o bravo menino não chegava a tempo...
Passara grande parte do dia escondido nas ribas do Iapurá, a pouca distância da habitação de Eustáquio.
A demora dos malfeitores fê-lo crer que eles não apareceriam naquele dia. Deixando o seu posto, ele seguiu para S. João do Príncipe, onde demorou-se até cair a noute.
Voltou então para o lugar que ocupara de dia, indo pelo rio, embarcado em uma pequena canoa, para não ser apercebido.
Estava a meio caminho, quando alguns tiros longínquos chegaram-lhe aos ouvidos. Sem demora encostou à margem a sua embarcação, saltou em terra e, tirando da cintura uma faca, única arma que nessa ocasião levava, lançou-se de carreira para a habitação de Eustáquio. Quando lá chegou, apenas viu dous indivíduos, que, sem pressa, saíam de dentro do cercado daquela habitação. O fardo era Rosalina, desmaiada. Um outro homem corria na frente.
O bandido ouviu os passos... olhou para trás, e, com pavor, viu aquela sombrinha que o ia acometer. Como os gladiadores da antiga Roma, saltou para o lado, fez fincar-pé e ergueu acima da cabeça um punhal, que tirara do seio, para baixá-lo sobre o seu agressor.
Otávio, com felina agilidade, furta-se ao golpe da arma, que desce rasgando somente o ar Agacha-se. Ergue-se, cosendo-se ao corpo do malfeitor e, sem que este o espere, mergulha-lhe no peito toda a lâmina da sua faca.
O bandido não deu um só gemido... Caiu sobre a menina, que foi atirada ao chão pelo peso do corpo do seu adversário.
De súbito, Otávio sentiu nas costas uma dor aguda e soltou um grito involuntário. Antes de cair, o malfeitor apunhalara-o pelas costas. O menino levou a mão à ferida e arrancou a arma, que os dedos de um morto já não seguravam.
Em seguida, horrorizado pela idéia de ter sobre si um cadáver, moveu-se bruscamente e fez rolar para um lado o peso que o oprimia.
Nesse momento, um brado pungente veio perturbar o silêncio da noite. Uma voz de criança gritou ao longe:
— Otávio! Otávio!
— É ela! É ela! exclamou o menino em francês.
O chefe da quadrilha fugia pelo mato com Rosalina ás costas. Otávio quis levantar-se para socorrer a quem o chamava. O infeliz não teve forças. Erguendose, por um instante, caiu prostrado.
— Meu Deus!... disse, apenas, e rompeu em soluços.
— Otávio! Otávio! repetiu mais longe a voz de criança. — Ai! gemeu com desespero o menino.
Por um esforço inaudito, pôs-se de pé, mas não conseguiu dar um passo sequer... Caiu de novo... Ficou sem movimento no chão... Balbuciou:
— Meu pai, está satisfeito?
E morreu...
— Otávio! Otávio!
Estes gritos lancinantes partiram ainda uma vez do âmago das trevas, mas já fracos... imperceptíveis quase.
Depois, mais nada... a noute a ciciar um cântico sobre a hecatombe.
Alta noute, no mesmo teatro das cenas de sangue que acabamos de narrar, passou-se uma cousa indescritível.
Um homem apareceu correndo do meio da escuridão dos bosques. Trazia nos braços uma carga, que não parecia pesar-lhe.
Inesperadamente ele parou. Tropeçara em um objeto.
— Mais outro?! murmurou ele, em francês.
E abaixou-se para ver em que esbarrara.
Nessa ocasião o minguante da lua, levantando-se, mostrou-se no céu e difundiu alguma luz pelo campo.
Então, como se essa luz viesse queimá-lo, o desconhecido deixou partir dos seus lábios um som apenas comparável ao uivo derradeiro do cão a morrer.
— Morto! disse depois.
O objeto em que tropeçara era o cadáver de Otávio.
Depôs então o seu fardo em terra e ajoelhou-se ao lado do menino morto.
Aquele fardo era o corpo de Rosalina. O desconhecido o encontrara na floresta, despido e sacrilegamente maltratado, e o trouxera envolto no seu capote.
Com dous estertores pronunciou dous nomes e chorando debruçou-se para os cadáveres.
— Meus pobres filhos! exclamou ele.
Em tom de desespero acrescentou: — Meu Deus! Meu Deus! Ambos assassinados!
E, abatido pela dor, estirou-se ao lado dos dous cadáveres.
Fim
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. Uma tragédia no Amazonas. Rio de Janeiro: Typ. Cosmopolita, 1880. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17442 . Acesso em: 6 abr. 2026.