Por Raul Pompéia (1882)
— Ah!... a pobre Emília!... Está muito doente, minha boa senhora — respondeu a mulher de Januário. — Levantou-se hoje incomodada, melhorou um pouco durante o dia, mas à tarde recaiu.
— Quero vê-la — disse a duquesa.
— Com licença...
— Qual, não é preciso arrumar coisa alguma... Sabem que eu não reparo, mesmo porque, com os anos, vai-se ficando cega... Diga-me onde está a Emília...
E assim falando, a duquesa, que não se sentara ainda, foi-se dirigindo para o interior da casa. A mulher de Januário precedeu-a e foi mostrando o caminho, fechando portas, para ocultar os quartinhos mal arranjados.
Emília estava acondicionada em uma pequena alcova que dava para a sala de jantar. A escuridão do crepúsculo valia de noite na alcova.
— Acenda uma vela — disse baixinho a duquesa a Januário.
Com o brilho da luz, Emília moveu-se na cama onde jazia.
Estava com o rosto para a parede. O cuidado com que todos entraram no quarto fê-la crer que só entrara na alcova a sogra.
Vendo luz acesa, quis verificar quem era. De um olhar, reconheceu a duquesa...
— Senhora duquesa! — disse com visível espanto.
— Como vai a senhora? — perguntou docemente a fidalga penalizada de ver o estado da pobre mulher.
Emília tentou erguer-se para saudar a duquesa, mas o esforço perdeu-se-lhe pelo delgado colchão da enxerga...
— Não se incomode! não se incomode! — pediu a duquesa, dando a mão à doente.
Emília, com um movimento custoso, tomou aquela mão e cerrou-a contra os lábios. Uma pequena lágrima imperceptível nasceu no canto das pálpebras da duquesa...
A senhora de Bragantina sentiu que as mãos de Emília, secas como o pergaminho, queimavam como brasa, e os lábios estavam frios.
O quarto de Emília era um insignificante aposento atulhado de caixas e móveis, mais ou menos inválidos. Aqui uma cadeira sem encosto, ali um banco com três pernas, a um canto uma cômoda macróbia, pilhas de caixas e caixões recheados de quanto farrapo pode a miséria acumular... As paredes eram simplesmente caiadas; o tempo e a fumaça tinham-nas pintado de negro. Havia um asseio relativo no lugar. Por uma grande janela, cuja vidraça estava meio suspensa, calçada por uma garrafa vazia, entrava a viração da noite.
Por uma rápida inspeção a duquesa reconheceu que Emília estava mal. Depois de sentar-se numa cadeira que lhe haviam colocado ao pé da cama, a senhora de Bragantina conversou com a mulher de Januário sobre o incômodo que a doente sentira pela manhã.
— É necessário chamar um médico — disse no fim da conversa...
— Não, senhora — disse Emília — para que chamar médico?... Eu não sofro nada...
Depois acrescentou:
— É só esta fraqueza... esta fraqueza...
— É por causa desta fraqueza mesmo — disse a duquesa.
E fez um gesto a Januário para que fosse ver o médico.
— Chame-o em meu nome — disse.
Januário saiu e foi à casa de um médico que tinha grande clínica na quinta.
— Então? Não está-me parecendo que a tal minha nora bate a bota?! — disse ele em caminho — Tenho visto muita gente acabar assim...
— Desde quando sofre esta fraqueza? — perguntou a senhora de Bragantina a Emília.
— Ih!... é coisa velha — disse Emília com uma voz suspirosa e suave. — Há muitos anos que padeço este abatimento, esta perda progressiva de forças... Hoje, depois do acesso da madrugada, que me prostrou muito... hoje foi o dia que melhor tenho passado, de um certo tempo para cá... Passei mesmo muito bem hoje... Acreditei até que estava completamente boa... Não sei por que motivo... aí pela tarde adiante, comecei a sentir um cansaço... que não pude mais... Tanto que desejava conversar com a senhora duquesa...
— Comigo?... Sobre o quê?...
— Sobre coisas muito graves... — Graves...
À duquesa pareceu lobrigar uma pontinha erguida do segredo da melancolia de Emília.
— São gravíssimas... Eu pretendia dirigir-me a V.Exa., logo que soubesse da sua chegada de Anatópolis... Soube que não tinha partido hoje, mas não me foi possível sair... Deus quis que a caridade de V.Exa. a trouxesse ao nosso casebre...
— Vim passear...
— ... Não quero guardar comigo um segredo que pode causar uma desgraça terrível... A minha fraqueza me faz recear...
A duquesa, até então interessada por uma curiosidade simplesmente generosa, sentiu-se presa de uma necessidade imprescindível de conhecer o segredo de Emília...
A sua imaginação desprendida pôs-se a criar castelos de sangue, mistérios trágicos, crimes ocultos, coisas hediondas de que fora vítima, ou quem sabe? autora aquela mulher calada e sombria...
A duquesa teve medo; mas sentia ao mesmo tempo a vertigem da curiosidade, que arrastava-a para aquele segredo formidável... Além disso, que desgraça era esta que a doente temia?... Seria tudo aquilo delírio. Mas não! A enferma apresentava uma firmeza de idéias que não fazia supor que delirasse...
— A senhora revela o segredo... não é? — perguntou a duquesa, para ver se a resposta da doente destoava das suas primeiras palavras.
— Revelo, senhora duquesa — respondeu serenamente Emília — mas somente quando aqui não houver gente demais...
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. As joias da coroa. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17439 . Acesso em: 6 abr. 2026.