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#Contos#Literatura Brasileira

14 de Julho na roça

Por Raul Pompéia (1881)

No fim de dez minutos estava o moço à raiz das colossais muralhas de macacos, dispostos como os lances de cantaria de uma fortaleza respeitável. Concedeu dous olhares a essas pilhas de paralelepípedos, aqui e ali desmoronados pelas alvanias, e tomou a ladeira de saibro grosso o cangica que, pelo meio de duas carreiras de lajedos, servia para a subida de veículos até dous terços da elevação das pedreiras.

Por fim, sentou-se num dos lajedos e olhou em torno. Tudo estava deserto. Apenas sentiam-se ao longe as marteladas férreas de um picão.

No espaço encontravam-se as eletricidades, abraçando-se em trovões e se beijando em coriscos. Na planície, em Botafogo, havia poucos rumores e muita escuridão difusa. As negruras do firmamento vazavam na terra uma noite precoce.

De improviso, caiu a chuva.

Pingos grossos como cusparadas, que num momento multiplicaram-se fazendo um aguaceiro cerrado, abundante, torrencial.

Alexandre abriu o guarda-chuva e abrigou-se por baixo de um penhasco cavado. Ouviu então o ruído de um desmoronamento.

- Mau! Mau! Murmurou, vamo-nos embora que ainda a casa nos esmaga...

E saiu correndo do abrigo que escolhera. Desceu a ladeira até que avistou uma espécie de barraca, feita de esteiras, debaixo da qual havia alguém.

- Oh! Exclamou a pessoa que lá estava: o senhor anda aqui, por este tempo?! Deixe chover um pouco mais e verá como aí vem tudo pela pedreira abaixo... deixe encharcarem-se as cunhas...

O mancebo lembrou-se do desmoronamento que ouvira e do costume que têm os cavouqueiros de encher de cunhas de madeira as fendas da rocha, para se aproveitarem da chuva.

- Olhe! Gritou o homem da barraca, que pareceu ao moço ser o trabalhador de cuja ferramenta ouvira as marteladas antes da chuva. Olhe as cunhas já começam!...

Algumas pedra acabavam de rolar à distância.

A chuva foi aumentando.

Fortes esfuziados do vento foram obliquando os pingos d'água, de sorte que na barraca já não se estava a salvo de um banho.

- Aqui não estamos bem, disse a meia voz o cavouqueiro.

- Na verdade, vamos ficar pingando.

- Está vendo ali aquela casinha? É onde eu moro... Quer abrigar-se... Vamos...

O cavouqueiro apontava exatamente para o casebre, onde outrora o moço via cintilar a sua estrela.

Pela primeira vez, examinou Alexandre a pessoa de seu companheiro. Cabelos e cara formavam-lhe como que uma bola de estupidez. O queixo tinha barba, uma cousa inculta, esquálida, os olhos não tinham expressão, a boca não tinha sorrisos.

Mas parecia um estúpido bom.

Acabando de falar, enterrou a cabeça num enorme chapéu de feltro que apanhara no chão, cobriu os ombros com uma jaqueta grosseira e atirou-se precipitadamente à chuva, direito para o casebre.

Atrás foi Alexandre.

Dentro de um instante, viu-se o moço abrigado em casa do cavouqueiro, isto é, ali mesmo onde residira a deslumbrante criatura que tanta graça comunicava aos passeios doutro tempo.

O cavouqueiro, que entrara antes do moço, tinha desaparecido, este ficara só, num compartimento de tabuado que parecia servir ao mesmo tempo de sala de recepção e de jantar, com as suas quatro paredes forradas de espessas camadas de fumaça e com a sua mobília constante de caixões, velhos bancos, cadeiras negras de idade, tendo apenas no assento buracos barbados de fiapos de palhinha lastimáveis como bocas de mendigo, ferramentas amontoadas. Uma fumaceira de fazer espirrar. Por volta, abriam-se quatro portas; uma era a de entrada, outra dava para um buraco negro, fundo e fumegante, talvez uma cozinha; a terceira estava cerrada e a última deixava entrever uma alcovinha que pela posição devia ser a mesma a cuja janela costumava trabalhar a estrela d'alva. Parecia estar se vendo aí dous olhos negros e grandes, espiando para fora.

Nisso pensava Alexandre, quando moveu-se a porta cerrada para dar passagem a uma pessoa.

Era uma mulher; trazia na mão uma pequena candeia de pouca luz e muito fedor de azeite.

Deu boas noites ao moço e pendurou a candeia num ganchinho à parede.

- Permita-me que espere aqui pelo fim da chuva... Desculpe-me se incomodo...

- Ora, meu bom senhor, isto até dá alegria a gente... fazer-se uma boa obra... Olhe, eu já naminha terra ouvia do padre: dai pousada aos peregrinos... Então? É o que Nosso Senhor manda... e quem...

Como dava de língua aquela senhora magra e comprida! Era um achado para o moço. Ele esperava apenas que passasse o temporal, mas não quisera retirar-se sem levar boas notícias da costureira sumida.

Aquela mulher as daria necessariamente. Falava muito e parecia simpaticamente ingênua.

Enquanto tagarelava ia ela fechando as janelas, para resguardar do vento a luz da candeia. Quando por cima da casa rebentou um violento trovão, a velha rezou a Santa Bárbara e deixou de falar.

Ao trovão seguiu-se um estrondo assustador, sonoro como muitas descargas de mosquetaria simultâneas.

(continua...)

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