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#Sermões#Retórica

Sermão da Terceira Quarta-Feira da Quaresma

Por Padre Antônio Vieira (1670)

93. Dos imperadores que precederam ao império de Trajano, diz o seu panegirista Plínio que desejavam muito ser rogados, e que todos lhes pedissem, só pelo gosto que tinham de dizer não: Priores principes a singulis rogari gestiebant, non tam praestandi animo, quam negandi. Mas como estes, que ele chama príncipes, verdadeiramente eram tiranos, e mais monstros da natureza humana que homens, excluído sem controvérsia este escândalo da razão e da humanidade, e começando a nossa questão pelas razões prováveis de duvidar; parece que não é conveniente nem decente à majestade e autoridade de um rei, que pronuncie de palavra ou firme com a pena um não. Ou o rei diz não porque não quer, ou porque não pode: se porque não quer, ofende o amor; se porque não pode, desacredita a grandeza. E se as petições e requerimentos são tais que se não devem conceder, entendam os pretendentes o não, mas não o ouçam; seja discurso seu, e não resposta ou resolução real. Mais decente negativa é para o governo, e menos descoberta desconsolação para os que requerem, que eles tomem por si o desengano. Desengane-os a dilação, desengane-os o tempo, e se de dia não cuidam, nem de noite sonham mais que no seu despacho, os mesmos dias e noites lhes digam o que se lhes não diz, e por elas saibam o que não querem entender. Sustentem-se na sua esperança, posto que falsa, e fique sempre inteiro ao príncipe o pundonor de que não negou. Se por este modo se estendem os requerimentos, e se entretêm e multiplicamos que vêm requerer, isso mesmo é um certo gênero de grandeza e autoridade haver muitos pretendentes. O que eles gastam e despendem sustenta a majestade da corte, e também as cortes dos que não são majestade. Já que pretendem sem merecimento, paguem as custas da sua ambição, e sirva-lhes a eles de castigo e aos mais de exemplo.

94. Contra o sofístico destas razões – que verdadeiramente tem muito da vaidade – parece que são mais sólidas as do ditame contrário. Tão vil é na mentira o sim, como honrado na verdade o não. A verdade – que por isso se pinta despida – não sabe encobrir, nem fingir, nem enfeitar, nem corar, e muito menos enganar; e a primeira virtude do trono, ou seja, da justiça ou da graça, é a verdade. Todo o artifício é coisa mecânica, e não nobre, quanto mais real. O sol abranda a cera e endurece o barro, porque obra conforme a disposição dos sujeitos; mas em todos, e com todos descobertamente: por isso o calor é inseparável da luz. Importa distinguir o bastão do cetro. Os estratagemas não são para o despacho: sejam embora para a campanha, mas não para a corte, para os inimigos, e não para os vassalos. Saibam os pretendentes se podem esperar ou não, para que no fim não desesperem. Quem diz que é arte de não desgostar, não diz nem cuida bem. Melhor é dar um desgosto que muitos. Queixem-se de que os não satisfizeram, mas não possam dizer justamente que os enganaram. Se é dura palavra um não, mais duras são as boas palavras que suspendem e encobrem o mesmo não, até que o descobre o efeito. Quem fez o não tão breve, não quis que se dilatasse.

(continua...)

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