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#Sermões#Retórica

Sermão da Primeira Dominga da Quaresma

Por Padre Antônio Vieira (1655)

60. Mostrou o demônio a Cristo todos os reinos do mundo e suas glórias; disse-lhe que tudo aquilo lhe daria de uma vez se lhe dobrasse o joelho. Parece que faz estremecer a grandeza desta tentação! Mas o demônio é o que havia de tremer dela. Desarmouse a si e armou-nos a nós. Tu, demônio, ofereces-me de um lanço todo o mundo, para que caia, para que peque, para que te dê a minha alma: logo a minha alma, por confissão tua, vale mais que todo o mundo. A minha alma vale mais que todo o mundo? Pois não te quero dar o que vale mais pelo que vale menos: Vade retro! Podenos o demônio dar ou prometer alguma coisa que não seja menos que o mundo? Claro está que não! Pois aqui se desarmou para sempre; nesta tentação perdeu todas, se nós não temos perdido o juízo. Ouvi a Salviano: Quis ergo furor est viles a nobis animas nostras haberi, quas etiam diabolus putat esse pretiosas: Homens loucos, homens furiosos, homens sem entendimento nem juízo, é possível que, sendo as nossas almas na estimação do mesmo demônio tão preciosas, no vosso conceito, e no vosso desprezo, hão de ser tão vis? O demônio, quando me quer roubar, quando me quer perder, quando me quer enganar, não pode deixar de confessar que a minha alma vale mais que todo o mundo; e eu, sendo essa alma minha, não há de haver no mundo coisa tão baixa, tão vã e tão vil, pelo qual a não dê sem nenhum reparo? Quis furor est? Que loucura, que demência, que furor é este nosso? Muito mais obrigada está a nossa alma ao demônio, muito mais lhe deve que a nós. Ele a honra, nós a afrontamos. Envergonhou-se o demônio, no primeiro lanço, de oferecer menos por uma alma que o mundo todo.

61. Caio César, como refere Sêneca, mandou de presente a Demétrio duzentos talentos de prata, que fazem hoje da nossa moeda mais de duzentos mil cruzados. Não creio que haveria na nossa corte quem não beijasse a mão real, e aceitasse com ambas as mãos a mercê. Era porém Demétrio filósofo estóico, como se disséssemos cristão daquele tempo. E que respondeu? Si tentare me constituerat toto illi fui experiundus imperio: Andai, levai os seus talentos ao imperador, e dizei-lhe, que se me queria tentar, que havia de ser com todo o seu império. É, e chama-se senhor de todo o mundo? Com todo o mundo me havia de tentar. Não nos fez assim o César, porque não conhecia a Demétrio, mas fê-lo assim o demônio: Princeps hujus mundi, porque sabe o que vale uma alma. Se vos tentar o demônio com menos que todo o mundo, dai-vos por afrontado, e se vos tentar com todo o mundo, fique vencido: Quid prodest homini, si universum mundum lucretur, animae vero suae detrimentum patiatur (Mt. 16,26)? Que aproveita ao homem ganhar todo o mundo, adquirir todo o mundo, senhorear e dominar todo o mundo, se há de perder a sua alma?Aut quam dabit homo commutationem pro anima sua? Ou que coisa pode haver de tanto peso, e de tanto preço, pela qual se haja de vender a alma, ou se haja de trocar? Este é o caso e a suposição em que estamos, nem mais, nem menos. Oferece-nos o demônio o mundo, e pede-nos a alma. Considere e pese bem cada um se lhe está bem este contrato, se lhe está bem esta venda, se lhe está bem esta troca. Mas nós trocamos e vendemos, porque não pesamos.

(continua...)

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