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#Sermões#Retórica

Sermão da Glória de Maria, Mãe de Deus

Por Padre Antônio Vieira (1644)

35. Comecemos pelos filósofos. Põe em questão Sêneca,3 e disputa sutilíssimamente, no livro terceiro dos cinco que intitulou De Beneficiis, se pode um filho vencer em algum benefício a seu pai. A razão de duvidar é porque o primeiro e maior benefício é o ser, e, havendo o pai dado o ser ao filho, o filho não pode dar o ser a seu pai. Mas esta diferença não tem lugar no nosso caso, porque falamos de um pai e de sua filha, em que o pai é justamente pai e filho da mesma mãe, e a mãe é justamente mãe e filha do mesmo Pai. Abstraindo porém deste impossível da natureza, que os filósofos gentios não conheceram, resolve o mesmo Sêneca, que bem pode um filho vencer no maior benefício a seu pai, e o prova com o exemplo de Enéias, o qual por meio das lanças dos gregos, e do incêndio e labaredas de Tróia, levando sobre os seus ombros ao velho Anquises, deu mais heroicamente a vida a seu pai, do que dele a recebera. À vista deste famoso espetáculo de valor e de piedade, não há dúvida que venceu o filho ao pai; mas qual foi então mais glorioso, o filho vencedor, ou o pai vencido? A este exemplo ajunta o mesmo filósofo o de Antígono, e de outros, que deram a seus pais mais ainda que o ser e a vida que lhes deviam, e conclui assim: Felices qui vicerint, felices qui vincentur: quid autem est felicius quam sic cedere?

Quando os filhos vencem os pais, e se ostentam maiores que eles, felizes são os que vencem, e felizes os vencidos, mas muito mais felizes os pais vencidos que os filhos vencedores, porque não pode haver maior gosto nem maior glória para um pai, que ver-se vencido de seu filho. Grande glória é do filho que vença ao pai que lhe deu o ser; mas muito maior glória é do mesmo pai ver que deu o ser a um tal filho, que o vença a ele.

36. Isto que disse Sêneca, falando dos benefícios, corre igualmente, e muito mais em todas as outras ações ou grandezas, em que os pais se vêem vencidos dos filhos. Ouçamos a outro filósofo que melhor ainda que Sêneca conheceu os afetos naturais, e não só em mais harmonioso estilo, mas com mais profunda especulação que todos, penetrou a anatomia do coração humano. Faz paralelo Ovídio entre os dois primeiros Césares, Júlio e Augusto, e aquele pai, e este filho, e depois de assentar que a maior obra de Júlio César foi ter um tal filho como Augusto: Nec enim de Caesaris actis ullum majus opus, quam quod pater extitit hujus – supõe, com a comum opinião de Roma, que um cometa, que na morte de Júlio César apareceu, era a alma do mesmo Júlio colocada entre os deuses, como um deles. E no meio daquela imaginada bemaventurança, qual vos parece que seria a maior glória de um homem, que nesta vida tinha logrado todas as que pode dar o mundo? Diz o mesmo Ovídio – tão falso na suposição como poeta, mas tão certo no discurso como filósofo – que o que fazia lá de cima Júlio César era olhar para seu filho Augusto, e que, considerando as grandezas do mesmo filho, e reconhecendo e confessando que eram maiores que as suas, o seu maior gosto e a sua maior glória era ver-se vencido dele: Natique videns benefacta, fatetur esse suis majora, et vinci gaudet ab illo. Ah! Virgem gloriosíssima; no céu estais verdadeiramente, como crê e adora a nossa fé; mas nas sombras escuras e falsas deste fabuloso pensamento, que consideração haverá, que não reconheça quais são lá os mais intensos afetos e as maiores glórias do vosso? Estais vendo e contemplando, como em um espelho claríssimo, o infinito ser, os infinitos atributos, a infinita e imensa majestade de vosso unigênito Filho; conheceis e confessais que as suas grandezas excedem e são também infinitamente maiores que as vossas: Fatetur esse suis majora; mas a mesma evidência de que vosso Filho vos vence e excede na glória é a melhor parte da mesma glória vossa, e a de que mais vós gozais e gozareis eternamente com ele: Et vinci gaudet ab illo. Quem pudera imaginar que Júlio César, vencedor de Cipião e de Pompeu, e de tantos outros capitães famosos, que junto a estes perdem o nome, triunfador da África, do Egito, das Gálias e das Espanhas, e da mesma Roma, aquele enfim de tão altivo coração, que ninguém sofreu lhe fosse superior ou igual no mundo, quem pudera imaginar, digo, que havia de gostar e gloriar-se de ser vencido de outro? Mas como Augusto, que o vencia, era filho seu, o ser vencido dele era a sua maior vitória, este o maior triunfo de seus triunfos, esta a maior glória de suas glórias: Et vinci gaudet ob illo.

(continua...)

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