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#Sermões#Retórica

Sermão de Santo Inácio

Por Padre Antônio Vieira (1669)

Para fazer outros santos, basta um só santo; para fazer um Santo Inácio, são necessários todos. Para ser Santo Enós, basta que seja semelhante a Set; para ser S. José, basta que seja semelhante a Jacó: para ser São Josué, basta que seja semelhante a Moisés; para ser Santo Tobias, basta que seja semelhante a Jó; para ser Santo Eliseu, basta que seja semelhante a Elias; para ser Santo Timóteo, basta que seja semelhante a Paulo; mas para Inácio ser santo tão grande e tão singular como Deus o queria fazer, não basta ser semelhante a um santo, não basta ser semelhante a muitos santos, é necessário ser semelhante a todos. Por isso lhe mete Cristo nas mãos, em um livro, as vidas e ações heróicas de todos os santos, para que os imite e se forme à semelhança de todos: Et vos similes hominibus.

Falando Deus de seu unigênito Filho por boca de Davi, diz que o gerou nos resplendores de todos os santos: In splendoribus sanctorum genui te (Sl. 109,3). Estas palavras, ou se podem entender da geração eterna do Verbo antes da Encarnação, ou da geração temporal do mesmo Verbo, enquanto encarnado. E neste segundo sentido as entendem Santo Agostinho, Tertuliano, Hesíquio, S. Justino, S. Próspero, S. Isidoro, e muitos outros. Diz pois o Eterno Padre, que quando mandou seu Filho ao mundo, o gerou nos resplendores de todos os santos, porque Cristo, como ensina a Teologia, não só foi a cousa meritória de toda a graça e santidade, mas também a cousa exemplar, e protótipo de todos os santos, enquanto todos foram santos à semelhança de Cristo, imitando nele e dele todas as virtudes e graças com que resplandeceram; e isto quer dizer: In splendoribus sanctorum. Assim como todos os astros recebem a luz do sol, e cada um deles é juntamente um espelho e retrato resplandecente do mesmo rei dos planetas, assim todos os santos recebem de Cristo a graça, e do mesmo Cristo retratam em si todos os dotes e resplendores da santidade com que se ilustram. Por isso o anjo, quando anunciou a Encarnação, não disse: Qui nascetur ex te sanctus, senão: Quod nascetur ex te sanctum,2 porque Cristo não só foi santo, mas o Santo dos santos. O Santo dos santos, como fonte de toda a santidade por origem, e o Santo dos santos, como exemplar de toda a santidade para a imitação.

Este é o modo universal com que Cristo faz a todos os santos. Mas a Santo Inácio, a quem quis fazer tão singular santo, fê-lo também por modo singular, podendo dizer dele em tão excelente sentido, como verdadeiro: In splendoribus sanctorum genui te. Cristo foi gerado nos resplendores de todos os santos, porque é o exemplar de todos os santos, e Inácio foi gerado nos resplendores de todos os santos, porque todos os santos foram o exemplar de Santo Inácio. Cristo não só santo, mas Santo dos santos, porque de sua imitação receberam todos os santos a santidade; e Inácio não só santo, mas santo dos santos, porque todos os santos concorreram a formar a santidade de Santo Inácio. Bem sei que é melhor exemplar Cristo só que todos os santos juntos, mas também sei que para ser santo, basta imitar um só santo que imitou a Cristo. Assim dizia S. Paulo a todos os que vieram depois dos apóstolos: Imitatores mei estote, sicut et ego Christi3. Mas Cristo, para formar a Santo Inácio, ajuntou as imitações de todos os santos, para que o imitasse ele só como todos.

(continua...)

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