Por Camilo Castelo Branco (1869)
― A quem o precisava para não ser infeliz.
― Essa é boa! Então deste um conto e seiscentos e cinqüenta mil réis de esmola?
― Dei.
― Mas a quem? a quem? com dez milhões de...
― Não te posso dizer mais nada, Hermenegildo... A criada está inocente. Não a prendas. ― Há de ir presa até dizer a quem deste o dinheiro ― Ela morrerá sem o dizer.
― Pois há de morrer... – vociferou Barrosas saltando e batendo com os dois pés em cheio no soalho. – E tu... não sei o que será de ti...
― Mata-me que eu não tenho pena de deixar o mundo... – murmurou sossegadamente, mas debulhada em lágrimas, a pálida senhora.
Hermenegildo rolou a sua pessoa fumegante escadas a baixo. Entrou no escritório do administrador, chamou de parte a autoridade, e contou-lhe o ocorrido com a mulher, insinuando o magistrado a sacar da criada o segredo.
― O meu dever é aceitar as declarações voluntárias da criada – disse o administrador. – Não posso incutir-lhe terrores, nem devassar os segredos da vida doméstica de vossa senhoria. Se sua senhora diz que a criada está inocente, a confissão da ré não basta a destruir o depoimento da ama, sendo de mais a mais muito natural que os brilhantes se hajam vendido por consentimento de sua esposa; aliás, desde muito que ela teria dado pela falta. Enfim, sou obrigado a interrogar a ama e a crida, uma na presença da outra.
― Essa vergonha é que eu não quero! – obstou desabridamente o brasileiro.
― O interrogatório há de ser secreto: não há testemunhas que divulguem este ato impreterível de justiça – contraveio a autoridade. – Se sua senhora disser de modo convincente: “a criada cumpriu as minhas ordens”, é certo que a moça não pode ser pronunciada, visto que obedeceu a sua ama; e os desvios dos bens comuns feitos pela esposa não é roubo, nem a cumplicidade da criada é punível. Se sua esposa foi burlada por algum industrioso, e quiser declarar-se, o meu dever é seguir o fio do enredo; mas o que eu não posso é interrogá-la sobre segredos da sua vida íntima. Isso pertence a vossa senhoria mediante processo de outra natureza...
― Então... afinal diz-me vossa senhoria que... – interrompeu o brasileiro, zangado.
― Que vou mandar chamar sua senhora...
― Pois chame! – bradou ele. – Este negócio há de aclarar-se... Não se me importa a vergonha nem o diabo! Eu sou um homem de bem, Sr. Administrador!
― Quem o duvida?
― Ninhos atrás das orelhas não mos fazem!
― Com razão...
― O meu dinheiro quero saber que fim levou...
― Essas averiguações é que são delicadas, Sr. Fialho, - aconselhou a autoridade. - E parecia-me razoável e prudente que vossa senhoria as guardasse para o secreto da sua casa.
― Mas ela não o diz!
― Se o não diz a vossa senhoria, menos o dirá a mim ou ao juiz...
― Diz que deu um conto e seiscentos e cinqüenta mil réis de esmolas! O senhor acredita isto?
― Acredito;... porque não? Se ela repartisse por todos os infelizes do Porto essa grande quantia, estou em que não chegaria um pinto a cada pobre.
― Mas então a criada que diga a quem levava as esmolas. Dá-me vossa senhoria licença que eu pergunte? ― Sim, senhor – respondeu o administrador, e, tangendo uma campainha, disse o oficial de diligencias: ― Essa mulher que entre aqui sozinha.
Entrou Vitorina.
― Responda ali a seu amo – disse a autoridade à presa.
Hermenegildo assoou-se, fez duas upas na cadeira, roçou no pavimento as espaciosas plantas, e rompeu neste interrogatório:
― quem roubou os brilhantes?
― Fui eu, senhor.
― Mentes! Os brilhantes foi tua ama que tos mandou vender!
Vitorina estremeceu, fitou o administrador, e gaguejou palavras imperceptíveis.
― Foi sua ama que mandou vender os brilhantes? – interveio a autoridade.
― Não, senhor... Fui eu que os... furtei.
E as lágrimas derivavam-lhe pelas faces copiosamente.
“Esta mulher está inocente!” disse entre si o interrogador.
― Mentes, desavergonhada! – trovejou o Sr. Fialho, jogando com as catapultas dos braços à cara da criada.
― Levemos isto mais moderadamente, Sr. Barrosas, - admoestou o administrador. – ora diga-me, mulher, foi vossemecê mesma que vendeu os brilhantes?
Demorou-se Vitorina em responder:
― Fui, sim, meu senhor.
― A quem?
Repetiu-se a mesma tardança na resposta.
― A quem os vendeu? Aos ourives Mourões? – repetiu o funcionário.
― Sim, senhor. ― Todos?
― Sim, senhor.
― Está vossemecê mentindo. Os Mourões compraram três pedras a uma mulher, que provavelmente era vossemecê, e duas a um vizinho. Como explica vossemecê esta verdade com a sua mentira?
A mulher abafava com soluços.
― Seja verdadeira; vossemecê não roubou os brilhantes; vendeu-os por ordem de sua ama...
― Não, senhor – acudiu a criada com veemência.
― Não me desminta, que logo vai ser sua ama interrogada na sua presença, e ela mesma já disse ao Sr. Fialho que vossemecê não furtou a pulseira.
― O que eu quero – intermeteu-se o brasileiro – é saber a quem tua ama dava o dinheiro.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CASTELO BRANCO, Camilo. Os Brilhantes do Brasileiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1779 . Acesso em: 17 jun. 2026.