Por Coelho Neto (1898)
Era a velha mãe a lembrar ao filho a sua vida solitaria, os cabellos brancos da sua fronte veneravel, as rugas da sua face, os tremores do seu coração. Como haviam de sentir as ovelhas quando se achassem no monte com outro pastor tomado a salario que, por certo, não as estimando como dono, não havia de as regalar abeberando-as em fontes frescas ou escolhendo macios pastos e, já alquebrada, como havia ella de subir ás rampas para recolher na clareira a lenha necessaria ao lume caseiro quando os cortantes ventos de Dezembro começassem a zimbrar vergando e desfolhando os castanheiros e açulando os lobos famintos contra os redis. Ai! que magua a de o ver partir!
Outra dizia, com os braços em volta do pescoço do homem — que elle não veria, ao tornar, o campo como deixava porque não só de soes e de chuva carece a arvore senão tambem que d'ella cuidem abacellando-a com terra virgem ou ablaquecendo-a para que as suas raizes ganhem força á luz e ao ar, tratando-lhe o tronco e os ramos. Os trigos dourados ficariam em palha resequida, murchariam as vinhas sumarentas, as abelhas emigrariam não mel e os cortiços, calados e seccos, viriam abaixo e os ventos os levariam como levam as folhas murchas. Ella! pobre d'ella! sosinha e fraca e tendo um lume a guardar e um berço a embalar como havia de sair, com ferros, á campina e á encosta ? Deus a guardasse com vida e não faria pequena caridade.
Outra, chorosa e presaga, lembrava noites de luar e cantos de rouxinóes, juras feitas tremulamente entre roseiraes, á luz fraca das estrellas, emquanto as moças da herdade debulhavam e bailavam com descantes e musicas de doçainas.
Creanças, vendo as mães em pranto, agarravam-se-lhes ás saias chorando, não porque comprehendessem a razão d'aquella angustia, tão só por verem lagrimas e o anciar dos collos opprimidos. E, por entre as gentes lastimosas, iam e vinham lentos vendedores, uns que offereciam fructos em gigos de vime, outros que mostravam bufarinhas ou apregoavam reliquias "de muita virtude para os que se iam lançar a mercê do oceano".
O sol subia e já os pannos das naus trapeavam annunciando um bafejo da aragem e, constantemente, n'um desfilar sem pausa, vinha chegando povo e detinha-se maravilhado contemplando os garbosos navios que, ao roxo cair da tarde, andariam longe, afastados da terra, fechados e apparelhados para as surprezas do escarcéo e dos euros.
N'aquelle borborinho desusado ninguem dava por um grande velho que jazia, quieto e mudo, sobre uma pedra com o cajado entre os joelhos e um cão morrinhento aos pés. Os cabellos, alvos como o linho novo, desciamlhe até os hombros acurvados, a barba farta e branca enchia-lhe o peito largo, os olhos, que as palpebras abafavam, sumiam; já se lhe não distinguia a feição ancestral do rosto entre as rugas que lh'o sulcavam e tremulo, n'aquelle frio de velhice, o ancião fallava, não para que ouvissem o que dizia porque fallava para as suas recordações amarissimas.
"Que vades bem! Que vades bem! Outras frotas maiores tem o mar engolfado e mais numeroso exercito tem o infiel batido. Que vades bem ! Quem vos manda e a ambição, quem vos leva é a cubiça, essa mesma harpia que fez com que d'aqui se
fosse, arrastada pelo voluntarioso principe, a flôr da Patria fenecer nos areaes africanos. Que vos não castigue Deus com espectaculo sinistro como o que meus olhos tiveram n'essa terra abafada de mourisma. Por mais que possais ver nunca vereis horror como o dos dias tormentosos da catastrophe, nunca vereis Tanger com os seus eirados e os seus muros brancos, que eram como grandes ossadas seccando ao sol, e com a sua gente barbara fervilhando nas ruas immundas e tomadas de cães. Nunca tereis os olhos tão horrorisados como tiveram os que, sem bandeira e sem armas, por esmola houveram a vida apenas, e foi muito ! deixando em terra barbara, como penhor, o infante santo que, posto sobre uma azemola, com um canna nas mãos puras, apupado, apedrejado, cuspido pelo mouro lá seguio a caminho de Fez onde andou, de soffrimento em soffrimento, rolando pela immundicie, até que o acabaram expondo-o irrisoriamente nas ameias da cidade nú, pendurado pelos pés, ao sol e aos corvos.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)COELHO NETO, Henrique. A descoberta da Índia. Rio de Janeiro: Laemmert, 1898. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43340 . Acesso em: 30 abr. 2026.