Por Coelho Neto (1897)
Trazia-o um menino, guiando-o por entre as heras de aroma. Um lindo menino, tão alvo que não despedia sombra, como as naves que os raios de sol atravessam; tão louro que a sua cabeça alumiava.
Vinha a flauta soando em suaves acentos e atraídas, enlevadas na música, abelhas voavam em volta do pastorinho, que assim apascentava dois rebanhos; um pela terra verde, outro pelos ares claros.
Ergueu-se Maria e, sem dizer palavra, olhando os ubres apojados das ovelhas, deu a sentir o seu desejo.
Como devia saber aquele leite que era a metamorfose das flores dos silvados! Como devia recender na boca e aquecer a fartar!
Calou-se a flauta e o menino, fitando os olhos meigos do casal errante, como se de muito o conhecesse e amasse, deteve-se, e os animais pararam.
Ficou o rebanho unido, tão junto que não fazia mais que um velo e as abelhas, zumbindo, puseram-se a esvoaçar em torno dos lírios alvos.
José adiantou-se e, oferecendo um óbolo ao menino, pediu-lhe um pouco de leite.
Sorrindo, o pastorinho tomou o tarro que trazia ao flanco.
Logo, entre as ovelhas, houve um movimento ansioso. Balavam todas oferecendo as tetas refertas, atropelavam-se, saltavam querendo, cada qual, ser a escolhida e o pastorinho brandamente as afastava.
Foi à primeira, ordenhou-a. O leite esguichou em um fio; outra chegou, depois outra e a todas ele atendia para que nenhuma ficasse preterida.
Já a espuma fervia crescendo em flor, transbordando do vaso e as ovelhas festejavam-se contentes.
Sorrindo, aceitou Maria a oferta do zagal; bebeu a lentos goles, saboreando. E foi a vez de José.
Refeito, o patriarca insistiu na dádiva da moeda, mas o menino negou-se a recebê-la:
“Que era um gole de leite? Qualquer pastor faria o mesmo.”
Saudou-os, e, pondo-se à frente das ovelhas, levou a flauta aos lábios.
Os sons vibraram. Lento e manso o rebanho prosseguiu. Foi então que Maria viu que as abelhas, tantas que ocultavam os lírios, deixavam as flores voando à música de flauta.
- Lindo pastor! Lindo rebanho! Disse, enlevada, a Virgem. Mas logo, referindo-se às abelhas que fugiam, perguntou a José: Que terão elas buscado nas flores d’água? - O aroma e o néctar, explicou o patriarca.
Chegaram-se os dois às flores e viram, maravilhados, que estavam cheias de mel cristalino e louro como o âmbar precioso e tão perfumado como se contivesse toda a essência das flores.
Tomou José um dos lírios e deu-o a Maria; a Virgem ofereceu-lhe o outro. Depois, deliciados, contemplavam-se felizes. - A flauta já não soa, vai muito longe o pastor, disse Maria.
- Vai muito longe! Repetiu José contrito, levantando os olhos para o céu, como se procurasse nas nuvens o pastorinho louro e as ovelhinhas brancas.
A NUVEM
Sob a irradiação do sol a terra seca abrasava, exalando um bafio de rescaldo. Triste, flagelada Samária pagã!
Os deuses do Garizin, depois da destruição do templo, pareciam haver desertado o monte onde os homens subiam a temperar a fé, de onde manava a seiva que se infiltrava nos campos e mantinha vivas todas as fontes, entre rochas úmidas.
Ermo o sagrado monte, esquecido o santuário antigo, as lavouras mirravam e um sol mais árdego crestou as ervas, sorveu as águas outrora copiosas.
Nem as torrentes ligeiras, conseguiram, fugindo, escapar à inclemência e os leitos dos córregos, em lodo seco, estalavam, fendiam-se em gretas fundas. Um fio d’água rastejava nos lugares que, antigamente, rios largos alagavam.
Das fontes restavam apenas as pedras calvas sobre areias tórridas onde víboras esfuziavam, entaliscando-se. De ponto em ponto uma cisterna funda oferecia ao caminhante a sua água salobra.
Às vezes o terebinto forte sombreava-a ou figueiras e mimosas formavam-lhe em torno um bosque ameno.
Mas os trilhos, arenosos e pedrentos, eram apenas habitados pelo cardo que esgalhava os ramos espinhosos, abertos em feridas, feios, disformes como aleijões. Não se ouvia cantar um pássaro – só o gipaeto(1) atravessava o espaço fulgurante ou grandes águias hostis, pousadas nos cabeços das penhas, devassavam os arredores buscando o que prear.
Maria ofegava seguindo o esposo. A areia escaldava-lhe os pés mimosos, o sol abrasavalhe a cabeça.
Caminhavam como através de chamas, sem que os olhos avistassem um colmado, a grata ramagem duma árvore.
Ó terras férteis da Galiléias! Vales alfombrados e frescos de tanta beleza por onde correm numerosos ribeiros claros. Ó Galiéia.
Tudo era desolação na tristonha Samária e o sol do outono queimava como nos incendidos dias estivais.
Seria melhor esperarem a tarde, prosseguirem com a brandura do crepúsculo, mas a pressa que levavam não lhes permitia demora.
José mais robusto e afeito a rigores, resistia; a Virgem, porém, começava a sentir-se atordoava: faltava-lhe o ar, os olhos ardiam-lhe.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)COELHO NETO, Henrique Maximiano. A partida. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7527 . Acesso em: 7 abr. 2026.