Por Raul Pompéia (1880)
— Sr. Dugarbon, muito mais tenho feito por outros peregrinos; o que o senhor me pede não é um favor, pois que tenho obrigação de o fazer.
"Eu mesma levá-lo-ei, depois que houver ceado, até a embocadura do caminho, que poucos passos separam daqui."
A graciosa Branca falava com a naturalidade franca de uma provinciana brasileira.
— Minha excelente senhora, no meu coração agradecido se perpetuará a lembrança do acolhimento que me dais.
— Ora, não lhe admire isto, senhor, o que faço qualquer outro o faria, venha portanto provar, como o seu Otávio, do que para vós mandei preparar.
Enquanto Branca, a orfãzinha e os dois franceses tomavam assento em volta da mesa de jantar, coberta com uma toalha de linho e alumiada por um lampião de querosene, pois já era noite, cujo abat-jour fazia cair a claridade sobre um assado de carneiro, Silvano, contente, celebrava a recepção de quatro camaradas, companheiros de viagem do francês.
Todos eles deviam se ir munir do necessário em S. João do Príncipe, para continuar a jornada.
Correu a refeição perfeitamente, versando a conversação sobre as maravilhas vistas pelos viajantes.
Otávio e Rosalina tinham travado inocente amizade e, sem que o pai visse, aquele presenteara a esta com um pedacinho de ouro grosseiro, recebendo da menina uma mãozinha de coral que ela costumava trazer ao pescoço.
Já se erguiam da mesa, quando um assobio demorado e forte feriu os ouvidos de todos.
Fez-se absoluto silêncio e cada um se interrogava mudamente.
Branca estava grandemente assustada e o francês aproximou-se, cheio de calma, da janela.
A noite era escura, mas a luz das constelações bastou-lhe para perceber três ou quatro vultos que se chegavam para o cercado.
— Há novidade por aqui, disse, mas nada têm que temer.
— Camaradas! gritou com voz máscula mas serena, fogo naquela direção!
Quatro balas partiram, porém nada lhes respondeu. Fechou-se a janela.
— Minha senhora, disse gravemente Dugarbon, ainda não tive a indiscrição de perguntar-vos se tendes pai ou marido que more convosco mas este incidente me obriga a fazê-lo.
— Correis perigo, esta gente não me parece bem intencionada.
— Aqueles homens que lobriguei são sem dúvida, continuou o francês, bandidos que vos espreitam.
— A mim não, interrompeu a esposa do subdelegado, mas a meu marido.
— Assim pois, sois casada, não?
— Sim senhor, com Eustáquio, subdelegado desta freguesia.
— Podeis dizer-me onde se acha ele, agora?
— Acha-se fora ocupado em investigações sobre um roubo de pouca valia, deve voltar amanhã, se o permitir o céu.
— Tenho, assim, minha senhora, o prazer de comunicar-vos que, antes da chegada do Sr. subdelegado, não deixarei esta casa, para vossa segurança.
Branca, que não encarava sem terror a idéia de uma agressão, aceitou contente.
— Obrigada, disse, do seu caráter não esperava outra cousa, todavia creio que a minha segurança não exige que não repousem o senhor e o seu filho das suas fadigas.
— Aquela alcova é dos viajantes e portanto do senhor. Falando assim apontava para uma porta de vidraças, cobertas com pequenas cortinas de cassa, que, meio-aberta, deixava entrever duas camas, comodamente paramentadas.
O oferecimento foi bem recebido e, desejando a Branca e Rosalina boa noite, os dois peregrinos entraram para o aposento indicado.
Silvano e os camaradas assentaram-se perto da entrada e aí adormeceram.
Com Rosalina recolheu-se a mulher de Eustáquio, não antes de amortecer a chama do lampião, que começou a espalhar pela sala essa luz escura que tanto agrada a Morfeu.
CAPÍTULO III
PRIMEIRAS DESGRAÇAS
No dia seguinte, mal principiava a aurora a derramar suas torrentes de ouro sobre o dorso sinuoso dos cirrus do nascente, já longe da cama estavam todos.
O café fora servido por Silvano, que foi, depois, abrir a porteira.
Quando voltava dois homens saíam da picada, dirigindo-se para a morada de Branca.
Era um Eustáquio, que volvia aos seus penates, e o outro Ruperto, seu escravo.
Depois da explosão de alegria que fez Branca pela volta do esposo foi o francês apresentado a este que não pôde deixar de o abraçar ao saber do interesse que por sua consorte havia mostrado.
Henrique Dugarbon olhou, então, para o oriente.
O sol vinha nascendo, de um aspecto imponente, e os seus raios purpurinos, de horizontalidade quase perfeita, iam desenhar, na parede da casa, a sombra do grupo formado pelos seus donos e hóspedes.
— Minha senhora, disse em tom solene, Sr. Eustáquio, a Providência, que me trouxe a vossa casa, onde fui acolhido como nunca o esperei, ela mesma me manda hoje deixar-vos.
"Vou prosseguir na minha tarefa. Talvez tenha de oferecer a minha vida em holocausto à ciência, mas se assim não for, eu vos juro, pelo criador daquele astro, que vos hei de pagar o que por mim tendes feito.
"Recebei os meus sinceros, ainda que insuficientes agradecimentos, que vos transmito por este adeus."
Eustáquio se declarou sentido pela rápida partida do francês, porém este, obstinado, afastou-se para o rio, depois de ardentes abraços e apertos de mão.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. Uma tragédia no Amazonas. Rio de Janeiro: Typ. Cosmopolita, 1880. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17442 . Acesso em: 6 abr. 2026.