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#Contos#Literatura Brasileira

As joias da Coroa

Por Raul Pompéia (1882)

— Eu e a Dindinha estamos muito velhos...

— Com quem vão me casar?

— Sua mãe vive tão prostrada... sempre naquela tristeza...

— Digam, digam quem vai ser meu marido... Olhem que eu quero um marido rico e bonito...

O vovô tossia uma risada tratante de quem não sabe o que há de dizer...

A Dindinha olhava por cima dos óculos para o marido, a ver como ele saía da alhada.

O velho achou um recurso. Meteu a mão no bolso do paletó de brim pardo e puxou um vasto lenço de rapé, com que assoou-se demoradamente...

— Ah! ainda não há noivo? Valha-me isso. Eu não tenho muito jeito para andar de braço com um maridinho... Gosto mais de pular corda... Vovô, uma moça casada pode pular na corda?... Dindinha pulava?

— Menina, não faça perguntas desaforadas à sua madrinha...

— Menina? Eu já não sou menina... Vovô já não está preparando meu casamento?

— Quem falou em casamento, Conceição? — perguntou o avô.

— Vovô mesmo!... Quem foi que disse, outro dia, que o melhor futuro de uma moça era um bom casamento?... Vovô não está tratando do meu futuro?

— Sim, do seu futuro, mas não é já de seu casamento... O sr. Manuel de Pavia disse-me que a mulher dele gostava muito de você e perguntou-nos por que não deixávamos você passar alguns dias com ela...

— Vovô deixa?

— Você quer?...

— Oh! se quero... também eu brinco tanto com a Claudina no parque... Não sei por que não poderei passar uns dias com a mãe dela...

— Pois disto é que eu falo... Se você alguma vez precisar... diga-me... não

será muito bom que um homem como o sr. Pavia... goste de você?...

— Mas para que estar pensando nessas coisas...

— É preciso pensar no futuro...

— Dindinha deixa-me?...

— Deixo, deixo... Por minha parte, não ponho dúvidas. Até se você quisesse morar lá...

— Isso não! Gertrudes, a minha licença não vai tão longe... Consinto só que Conceição passe lá alguns dias, para não contrariar a vontade da mulher do Pavia, que é tão boa senhora e tão amiga de beneficiar os que gostam dela...

— Então amanhã...— disse sorrindo engraçadamente Conceição — amanhã...

— Sim, menina, amanhã você pode ir visitar a sua amiga Claudina...

Conceição, que deixara o banquinho, aproximou-se da madrinha e, mostrando o seu trabalho de crochet, disse:

— Veja, Dindinha, quanto trabalhei hoje, depois do jantar...

— Sim, senhora, hoje sim!... Tem bastante direito de ir passear amanhã...

— E noite, Dindinha, que eu na casa do sr. Pavia hei de fazer crochet... não sou nenhuma preguiçosa...

— É assim que se deve ser... — falou sentenciosamente o marido de Gertrudes.

Terminado este diálogo, apareceu na sala uma mulher alta, de vestidos sujos, cara chupada, olhar doentio e triste. Era a nora dos dois velhos protegidos do duque de Bragantina. Fora casada com um dos numerosos homens do serviço do duque. Morrendo-lhe o marido, continuara na quinta, na residência que fora cedida ao marido. Era ela que provia as necessidades domésticas: cuidava atentamente de um filho, que lhe deixara o esposo, e de Conceição, pobre menina de origem suspeita que, havia muitos anos, fora confiada sem mais declarações àquele servidor do duque.

Naquela ocasião, a laboriosa mulher vinha convidar os sogros e Conceição para o chá que estava servindo.

Conceição, muito satisfeita pela permissão alcançada de passar dias fora de casa, correu diligentemente a fechar a janela e a porta da sala, indo em seguida oferecer o ombro para apoio do avô, que se erguia dificilmente da sua velha poltrona, ajudado pelos inválidos esforços da idosa Gertrudes e de uma veneranda bengala.

Instantes depois, estava toda a família instalada na pequena sala de jantar circulando a mesa de refeições.

Por esse tempo terminara o conciliábulo havido entre Inácio, criado do duque de Bragantina, e o interessante Manuel de Pavia.

O criado se fora da residência de Pavia, e este, um quarto de hora depois, saiu de casa também.

As noites escuras foram feitas para as empresas secretas. Pavia passeou um olhar em torno de si e sorriu. Aquela escuridão convinha extraordinariamente. Pena era que não se enfarruscasse o firmamento com os mais tempestuosos vapores e se fizesse mais absoluta a treva...

Mas aquilo já servia...

Encaminhou-se para a esquerda, olhando para o céu, como se contasse os astros. Soube-lhe gostosamente aquela contemplação. As profundidades siderais apareceram-lhe na imaginação como uma grande bolsa aberta para baixo a vazar tesouros.

As estrelas eram-lhe como uma chuva de pedras preciosas suspensas sobre a cabeça. Tudo aquilo, cintilante, prometedor, parecia destacar-se do infinito e cair para ele como a lúcida poeira das apoteoses.

E cada vez mais a imaginação fugia-lhe doida, para os espaços, ávida de brilhantes, sedenta de douradas orgias.

Assim meditando, chegou Pavia ao lugar onde se achavam acumuladas as habitações dos povoadores da quinta.

(continua...)

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