Por Lima Barreto (1911)
Lucrécio não ouvia a mulher, mas estremecia com a lembrança dela e fazia fugir a má profecia com argumentos tirados dos jornais da situação. O russo não se entusiasmava; vivia e por viver foi que prometeu ir à manifestação que se fazia a Neves Cogominho naquela noite.
Inácio Costa, com quem travara conhecimento, era presidente da comissão e dissera:
— Doutor! Não deixe de ir! Precisamos acabar com os conselheiros, com o tartufismo deles... A sã política é filha da moral e da razão... Vá! Há bondes especiais.
Ele começava a conhecer as atividades políticas, os seus bastidores, as suas retortas de fantásticas transformações.
Essas presenças, essas atenções, enfim, esse ritual de salamaleques e falsas demonstrações de amizade influem no progresso da vida política. Como havíamos de subir, ou pelo menos de manter a posição conquistada, se não fossemos sempre às missas de sétimo dia dos parentes dos chefes, se não lhe mandássemos cartões nos dias de aniversário, se não estivéssemos presentes aos embarques e desembarques de figurões? Fora daqui as notícias desses atos têm grande repercussão e infinito alcance; e, de resto, às vezes, um bota-fora decidia uma reeleição. Vejam só o que aconteceu com o Batista. Estava nas boas graças do Carneiro; mas, no dia do embarque deste para Pernambuco deixou de ir. Carneiro notou e quando Bandeira quis incluí-lo de novo na chapa opôs-se tenazmente.
Os chefes não admitem independência, nem mesmo aos embarques. Os pequenos presentes mantêm as amizades; mas, na política, não são só os presentes que mantêm as relações; é preciso que os poderosos sintam que gravitamos em torno deles, que nenhum ato íntimo de sua existência nos é estranho, que o natalício dos filhos, o aniversário de casamento ou formatura se refletem no movimento e como que perturbam a órbita da nossa vida.
Numa, que sabia bem disso tudo, foi alma das muitas manifestações que se realizaram naquela época. Sempre tivera a visão nítida desse feitio da vida política; nunca a vira pelo lado épico ou lírico, e estava no seu elemento. Concebera a existência chãmente e, graças a essa concepção estava seguro na vida, rico pela fortuna da mulher e tratava de segurar-se quanto à parte de deputado.
Desde menino, sentira bem que era preciso não perder de vida a submissão aos grandes do dia, adquirir distinções rápidas, formaturas, cargos, títulos, de forma a ir se extremando bem etiquetado, doutor, sócio de qualquer instituto, acadêmico ou coisa que o valha, da massa anônima.
Era preciso ficar bem endossado, ceder sempre às idéias e aos preconceitos atuais. Esperar por uma distinção puramente pessoal ou individual era tolice! Se o Estado e a Sociedade marcavam meios de notoriedade, de fiança, de capacidade, para que trabalhar em obter outros mais difíceis, quando aqueles estavam à mão e se obtinham com muita submissão e um pouco de tenacidade?
Era preciso dominar e, na sua espessa mediocridade, esse desejo guiava todos os sentimentos e matava outra qualquer veleidade mais nobre.
Qual o alcance das manifestações com que os detentores da política contraminavam os ataques dos seus prováveis adversários, naquela hora de muitos enganos. Numa viu claro e organizou a que se fez ao sogro, com tal jeito, que ninguém suspeitaria da sua ação preponderante nela. Inácio Costa, aliado de Salustiano, sequioso de aparecer, de fazer gravar o seu nome na memória de Bentes, não trepidou em ir ao encontro das suas tenções; e, sem que o deputado lhe desse a mínima ordem, fez-se presidente da comissão organizadora, obteve os fundos num Ministério complacente e o público indispensável para as aclamações.
A homenagem a Neves Cogominho foi anunciada nas folhas com grande gasto de palavras campanudas. O Diário Mercantil, o jornal de Fuas Bandeira, publicou-lhe o retrato num “cliché” de cerca de página e um artigo de Quitério Barrado mostrava perfeitamente a paridade que havia ente o senador de Sepotuba e o Coronel da Guarda Nacional americana Heatgold, caçador de onças e celebridade do momento. Quitério tinha gostos de Plutarco, mas de Plutarco atual; e procurava sempre estudar a vida dos poderosos em evidência, pondo em paralelo a de outros poderosos também em evidência. Neves nunca houvera caçado onças, a não ser nos arredores de Petrópolis, quando tomou parte numa partida venatória do fidalgo Clube do Santo Humberto.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)BARRETO, Lima. Numa e a ninfa. Brasília, DF: Ministério da Educação, Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16822 . Acesso em: 29 abr. 2026.