Por Lima Barreto (1922)
Entretanto, queria antes resolver o caso de Clara, que, apesar de tudo, considerava em meio.
Deitou-se e dormiu regaladamente, até o alvorecer do dia. Logo que a luz do sol ganhou uma relativa nitidez, ele foi passar revista nas suas gaiolas de galos de briga. Estava tudo a postos, e foi lhes dando milho, tirado de uma lata que tinha em uma das mãos, e olhando todos aqueles bichos hediondos, com a ternura de um honesto criador, que revê o seu trabalho nas travessas pesquisas ou na doçura de olhar de seus cordeiros. Aos pintos, deu milho moído, triguilho, e só não deu ovo picado porque não era dia. O seu embevecimento por aquelas horrendas aves era sincero: elas lhe faziam ganhar dinheiro. Olhou-as e perguntou de si para si:
— Quanto valeriam ao todo?
Alguns já lhe haviam oferecido quinhentos mil-réis e ele estava disposto a vendê-las, por esse preço, depois que a "coisa" estivesse acabada...
Veio tomar café no "socavão", onde a velha Romualda lho trazia todas as manhãs. Era velha, e a sua velhice a defendia perfeitamente contra qualquer assalto de Cassi. Perguntou-lhe este:
— Meu tio ainda está aí?
— Quem é seu tio, nhonhô?
— Aquele moço que esteve ontem, à noite.
— Ah! Foi embora logo depois do chá.
Não trocaram mais palavras. Depois de servido o café e comido o pão com manteiga, a velha Romualda levou a bandeja com a xícara, e Cassi tratou de vestirse e sair.
Quase nunca parava em casa. Temia encontrar-se com o pai, que, por isto ou por aquilo, houvesse resolvido ficar no lar, e também por não poder suportar o desdém de suas irmãs. A casa era-lhe mais penosa do que os xadrezes, por onde passara dezenas de vezes.
Ia à procura de Arnaldo, que, morando na Estrada Real, vinha no bonde de Cascadura, para tomar o trem no Méier. Arnaldo não deixava de um só dia ir "lá embaixo". Esperava sempre fazer um biscate e, quando não o fizesse, arranjar algum "magote" no trem.
Não se enganara. Às nove e pouco, Arnaldo, com o seu nariz de tromba de tapir, os seus olhos arredios e catadores, chegara; Cassi disse-lhe que dele precisava, às cinco horas, ali; e pagou-lhe o café.
— Pois não, Cassi; nas ocasiões é que se vêem os amigos. Cá estarei.
Fazendo o sacrifício de perder uma tarde de colheita, Arnaldo chegou na hora marcada, ao ponto ajustado.
Cassi explicou-lhe então que devia ir, naquela tarde, à venda do Nascimento, cuja rua e cujo número lhe deu. Chegando lá, simularia ter ido procurar por "Seu" Meneses, que ele conhecia.
— Se ele não estiver? — indagou Arnaldo.
— Você diz que fica à espera e ouve o que se conversa lá. Nela, devem estar, entre outros, o aleijadinho que anda sempre fardado. Ele não conhece você, como os outros, conforme espero. O que você ouvir, guarda e me conte. Se Meneses aparecer, você diz que quero falar com ele, negócio de interesse dele.
Cassi deu-lhe dois mil-réis e ele se pôs a caminho, mas a pé, para poupar o tostão do bonde. Chegou à venda de "Seu" Nascimento, teve duas decepções. Encontrara dois sujeitos, que o conheciam perfeitamente: um era um engenheiro inglês, Mr. Persons, de quem "abafara" uma capa de borracha, e o outro era o Alípio, que até o sabia da roda de Cassi.
Não se deu por vencido e, atravessando por entre Alípio e o velho Marramaque, que conversavam, foi direto ao balcão e perguntou naturalmente:
— O senhor não conhece um velho dentista, por nome Meneses?
E acrescentou:
— Ele tem vindo aqui?
O taverneiro respondeu:
— Há dias que não — e, dirigindo-se aos circunstantes, por sua vez indagou: — vocês têm visto o doutor Meneses?
Todos, porém, responderam: não.
Arnaldo ia dizer obrigado, para retirar-se, quando Mr. Persons perguntou-lhe: — Sinhor, vem cá!
Arnaldo fez-se jovial.
— Oh! "Seu" mister como vai?
— Não diga "Seu" mister, é "error". Bem... Onde está mia capa?
— Trago por esses dias, tenho me esquecido.
— Já é duas vezes que "sinhor" diz isso. Eu precisa da capa.
— Não me esquecerei.
E saiu apressado. O negócio da capa fora simples. Persons não viera da cidade são de seu juízo e deixara a capa descansando no banco, ao lado, recostando-se na parede do carro. Pouco antes de certa estação, Arnaldo sentou-se a seu lado, no intento de carregar-lhe a capa. Ao pôr em prática o seu propósito, Persons despertou, mas só pôde dar com o furto, quando Arnaldo ia saindo do carro. Gritou: "minha capa". Um condutor ainda agarrou Arnaldo com a carga, mas, quando o Persons deu com o lugar em que estavam ambos, já o auxiliar o tinha largado e o trem se pusera em movimento. Guardara, porém, a fisionomia do gatuno; e, vindo a encontrar-se com ele, perguntara-lhe por essa peça de vestuário, e Arnaldo lhe dissera que a havia levado por engano.
Ele saiu corrido de vergonha; mas, vendo que ninguém vinha até às portas da venda, ele voltou e se pôs a ouvir o que diziam.
O mister já acabara de contar a história da capa, quando Alípio, em tom de comentário, dissera:
— Isto que saiu daí é uma peste. Não sabia dessa história de furtos nos trens; mas basta ele ser do bando do tal Cassi, para não prestar.
Marramaque acudiu:
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)BARRETO, Lima. Clara dos Anjos. Brasília, DF: Ministério da Educação, Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16815 . Acesso em: 29 abr. 2026.