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#Romances#Literatura Brasileira

A Conquista

Por Coelho Neto (1890)

— Que vais fazer, desgraçado? A mulher tem razão. Pensas que é pela moralidade da casa toda essa cólera? Estás enganado — é pela decepção. Para Dona Ana, Amélia não é uma devassa: é uma rival da filha. Ela contava contigo para Vidinha e, como vê a rapariga entrar e sair, vocifera desesperada compreendendo que ela vai desviando um partido. Eu já tinha percebido as intenções da velha, calava-me porque entendo que nunca se deve matar uma ilusão, que é a matériaprima da esperança. Pensas que esses alguidares de arroz, esses pratarrazes de ensopado, esses assados, mais altos do que o Himalaia, e esses lagos de consomê e esses outonos que enchem as fruteiras e tudo mais que vem das cozinhas de Mme. Gargamela são por conta da minguada mensalidade que lhe damos? Engano: são engodos, são como presentes de núpcias, é a corbeille com batatas, é um trousseau de cebolada, é o enxoval do estômago, o morghengabe adiantado. Ela seduz o ventre, suborna a pança. A mulher quer prender-nos pela boca, é uma pescaria em regra. Vamos comendo a isca que é excelente em qualidade e em tempero e não nos preocupamos com o anzol. Compreendes: ela sabe dos meus amores com Elvira, já a viu entrar aqui mais de uma vez e a Elvira é mais tapageuse do que a Amélia; ela sabe que o Toledo só ama os pais e os ossos do seu esqueleto... contava contigo e, justamente quando temperava com mais ciência os escabeches e vestia com mais luxo a filha, eis que lhe surge o contratempo. É mesmo para uma mãe de família perder a cabeça, pensa bem. Que te custa fazer um sacrifício...?

— Casar com Vidinha! — exclamou o estudante aterrado.

— Eu matava-te! Nunca! Casar... nunca! Contemporizar... sempre. Namora...

que custa? Olha que estamos magnificamente instalados. Pensa no futuro! Não encontramos no Rio de Janeiro, pelo preço, casa como esta, apesar do Cranium... e dessa noiva de... Dâmocles. Pensa um pouco. A precipitação é má conselheira. Olha Safo: precipitou-se de um rochedo e foi o que sabes. Pensa.

Ouvindo os sábios conselhos de Ruy Vaz, Anselmo já se dispunha a recomeçar o flirt com Vidinha quando, uma madrugada, por volta das duas horas, a rua despertou ao rumor de tremenda matinada. Era um alarido atroador: cantavam a Marselhesa, levantavam vivas. Janelas entreabriam-se receosamente, vizinhos sonolentos espiavam intrigados.

Ruy Vaz, ouvindo da cama, deixou-se estar debaixo dos lençóis julgando, a princípio, que era alguma manifestação que se recolhia, mas subitamente saltou descalço, em camisa, assustado. Arrombavam a porta e, da rua, gritavam por eles numa fúria, como se houvesse incêndio no prédio. O estudante saltou também da cama e correram ambos à janela. Estavam à porta dois carros e um grupo de homens e de mulheres com velas em mangas de papel. Logo que os viram aparecer os da rua prorromperam em vivas! E atiravam-se à porta. Ruy Vaz murmurou:

— Estamos perdidos! Efetivamente... Dona Ana, descalça, com uma vela, entre Vidinha e Leonor, em fraldas de camisa as três, rompeu o alarido no patamar da escada:

— Súcia de vagabundos! Não abro! Vão bater no diabo que os carregue, pelintras! Isto aqui é uma casa de família. É porque não tenho um apito. Mas as pancadas na porta redobravam e o vozeirão enchia a rua:

Allons enfants de la Patrie,

Le jour de gloire est arrivé...

— Vai buscar um apito, João. Eu mostro a essa súcia. Corja!

— Ah! Mamãe, choramingou Vidinha, é melhor abrir... Eles estão furiosos, são capazes de fazer alguma coisa. Vai abrir, Leonor.

— Eu não! Pois eu hei de ir assim em fraldas de camisa para eles me agarrarem? Deus me livre! Começou um Zé pereira formidável à porta, que tremia ameaçando ceder, apesar da tranca. Dona Ana irrompeu falando para o segundo andar:

— Rua! Não quero um só aqui! Rua! Isto não é estalagem, seus vagabundos! Rua! Rua! Mas Ruy Vaz, o conciliador, desceu dois degraus. As mulheres, ouvindo os passos do romancista, fugiram espavoridas bradando — que estavam em camisa!

— Não faz mal, disse ele tranqüilamente, descendo: estamos em família.

Mas fecharam-se as três na sala de jantar e Dona Ana bramiu através da porta:

— Rua! Amanhã mesmo!

— Ouça, Dona Ana, disse o romancista, muito calmo.

— Não quero saber de histórias. Rua! Estou farta! Não dou mais comida!

Arranjem-se!

— Isso é natural, Dona Ana. Ouça-me.

— Qual natural! Entreabriu a porta e, mostrando pela fresta o seu imenso nariz, esgoelou: O senhor acha que uma pouca-vergonha como essa é natural? Que hão de dizer os vizinhos? Que isto aqui é uma casa de deboche e que eu e minha filha somos vagabundas como essas que estão aí. Não! Rua! Amanhã mesmo... Ponham os cacos lá fora! Não dou mais comida...! Quero alugar a minha casa a gente séria.

O rumor ia em crescendo formidável. Uma mulher pôs-se a berrar:

Minha bela Florentina Sol de amor que minh'alma ilumina...

— Mas ouça, Dona Ana... O romancista tentou abrir a porta, mas a viúva rugiu:

— Eu estou em menores... Saia para lá homem!

(continua...)

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