Por Raul Pompéia (1880)
Antes de deixar a alcova, deparou com uma cruz. Apoiou os cotovelos sobre o móvel em que ela se achava e estas palavras rebentaram-lhe do peito:
— Por que não os salvais, meu Deus?!
E depois:
— Otávio, então desapareceste?!
Ao aproximar-se de novo da mulher de Eustáquio, o padre Jorge teve uma visão desagradável.
Apenas as frestas das janelas davam a fraca claridade que havia no interior da casa. Uma destas frestas projetava no soalho uma zona branca de luz, que ia bater no semblante lívido do cadáver do bandido que o paraense trouxera do roseiral. Aquele rosto, com a boca arregaçada pela última contração da morte, parecia sorrir de escárnio ante as cenas que se passavam na sala!
Desviou os olhos daquilo e, vendo Branca mover apressadamente as pálpebras, o padre pensou que ela queria dizer alguma cousa e abaixou-se para ouvi-la.
— Meu padre, disse ela, eu vou morrer... quero me confessar.
Por mais baixa que fosse a voz de Branca ao dizer essas palavras não deixou de ser percebida por Eustáquio, nem pela sua protegida.
A declaração de Branca fez voltar-lhes o desespero do ânimo.
— Não chorem, pediu-lhes a moribunda, eu vou para Deus...
O padre foi à alcova buscar a cruz que lá vira. Quando ia voltar ouviu um estrondo assustador. A porta da cozinha desabara afinal. Os bandidos tinham aberto passagem. Os seus passos ressoaram no corredor central da casa.
— Oh! está tudo acabado, disse com tristeza o padre.
E, empunhando a cruz, precipitou-se na sala.
O paraense, com admirável presteza e grande risco, fechara a porta que havia na entrada do corredor, e, afrontando as balas dos malfeitores, levantara novo obstáculo diante deles.
Este obstáculo, porém, era insignificante. Em poucos momentos devia chegar o desenlace do drama.
Enquanto isto tinha lugar, junto do leito de Branca era doloroso o que se via.
A infeliz moça agonizava. Debruçados sobre ela, como se pretendessem abrigá-la dos golpes do anjo da morte, Eustáquio e Rosalina pediam a Branca que não morresse... Mas não era possível. A moribunda, por um esforço supremo, ergueu os braços, querendo enlaçar os que regavam de lágrimas ardentes as suas faces resfriadas... os braços caíram-lhe como se de um só golpe houvessem sido decepados...
Exalou um gemido prolongado, e, de envolta com o seu estertor extremo, balbuciou:
— Meu filho!
Nesse momento chegou o padre Jorge. Era já tarde. Eustáquio e Rosalina apenas abraçavam então um corpo que o frio da morte conquistava com rapidez.
O barulho da queda da porta arrombada pelos malfeitores acordara o filho de Eustáquio. Os vagidos da criança respondiam ao apelo derradeiro da sua mãe.
— E ele não recebeu o batismo! disse o padre Jorge lembrando-se de que o filhinho de Branca não fora ainda batizado.
Antes de correr à alcova para administrar ao menino o necessário sacramento, o sacerdote conheceu que se rachavam as tábuas da porta que o paraense opusera aos bandidos... Através de fendas, avistou o clarão de alguma vela que os malfeitores haviam achado e acendido. A porta ia desprender-se das dobradiças!
— Meu amigo, disse então a Eustáquio, encomenda a Deus a tua alma e... — Ah! ah! ah! ah!
Uma gargalhada horripilante de louco, que João Caetano não poderia repetir no palco, retroou na sala.
Através da escuridão que aí havia, o padre Jorge tentou distinguir quem a soltara. Acreditou que já estavam na sala os bandidos. Não era isto.
— Meu padre, continuava uma voz em que o padre Jorge reconheceu com indizível dor a do seu amigo, tu queres... que eu encomende?... E a tua?... A Deus? Ah! Ah! Ah! A Deus?... A minha... já está encomendada!... E Branca?!...
O acento selvagem destes vocábulos desconexos fez o sacerdote tremer.
— Meu Deus! Será castigo? exclamou ele, persignando-se com terror...
A porta do corredor desprendeu-se. O fim chegava.
A claridade de uma vela alumiou a sala. A essa luz, o padre Jorge conseguiu ver o seu malfadado amigo encolhido perto do sofá, como um animal espavorido; Rosalina desmaiada no chão; o paraense no meio de um bando de homens, combatendo como um leão furioso, e ainda a cara do cadáver, contemplando tudo com o escárnio que a morte estampara nela.
Imediatamente porém apagou-se a luz, e o padre pôde somente perceber depois que a sala era o teatro de um combate horrendo, de uma luta cega. Quis, rompendo as trevas, chegar ao berço do menino, cujo choro o rumor da luta abafara, mas não tinha avançado três passos, quando uma bala desviada do meio dos combatentes o fulminou...
Alguns minutos mais tarde, apenas dons homens andavam pela sala.
A vela que puderam reacender deixava ver que eram um negro e um dos bandidos espanhóis. O negro era o miserável José, que o leitor conhece, e o outro era o chefe da quadrilha dos inimigos de Eustáquio. Estes dous velhacos se tinham refugiado na cozinha durante o combate e apareciam depois de tudo acabado. Ao redor deles estavam estendidos numerosos cadáveres e Rosalina ainda desmaiada.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. Uma tragédia no Amazonas. Rio de Janeiro: Typ. Cosmopolita, 1880. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17442 . Acesso em: 6 abr. 2026.