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#Contos#Literatura Brasileira

As joias da Coroa

Por Raul Pompéia (1882)

O duque errou durante algum tempo pelo parque, embebido em pensamentos que lhe traziam sorrisos à flor do rosto. Refletia na sua força que o fazia triunfar dos homens e das mulheres. Era como um rei: rei pelo dinheiro e rei pelo sangue. Não havia conta para aqueles que o rodeavam como miríades de satélites, cada qual mais empenhado em causar-lhe alegria. Tinha visto o curioso espetáculo de todas as coisas que o comum dos homens apelida sagradas prostituírem-se-lhe aos pés. Vira a justiça despedaçar a venda dos olhos para buscar a que seria agradável a ele; vira a honra entreguar-se-lhe como uma taverneira sem vergonha; vira a dignidade feita baixeza; a honestidade feita impudor; a virtude feita hipocrisia; a hipocrisia feita descaramento; o descaramento feito arma de vitória... Vira o mundo transformado em torno dele... tudo somente pelo poder do seu nome! Era bem forte!

Contava mais vitórias do que Napoleão. E somente havia uma diferença entre o conquistador e ele. É que Napoleão triunfara da força e o duque triunfara da fraqueza. Os principais feitos do general se haviam passado no campo das batalhas e os do duque no segredo das alcovas.

Apesar de seus brilhantes precedentes, o fidalgo não estava totalmente seguro dos resultados dos cometimento que ia levar a cabo.

O Manuel fizera-lhe saber que a caça era arisca; tinha uma inocência petulante e esquiva, capaz de frustar a mais juanesca estratégia...

Muitas vezes, é certo, havia encontrado a inocência no seu caminho, mas conseguira levá-la de vencida com palmadinhas e sorrisos, achando por fim como última resistência algumas lágrimas sem significação.

Desta vez, contudo, o caso afigurava-se-lhe um pouco mais árduo; a inocência vinha armada de brejeirice e sarcasmo; com certeza seria difícil. Há, porém, frutos pelos quais se dá de boa vontade o incômodo de trepar à árvore.

Quantas vezes não se fere a gente em espinhos para tirar uma rosa?

Impelido por esta idéia, o duque de Bragantina tomou resolutamente a direção da casa do seu íntimo Manuel de Pavia.

De longe, pelo ar, vinham notas de bronze, sonolentas como bocejos... Marcavam meia-noite...

CAPÍTULO XIII

Vejamos o que ia pela casa do velho Januário...

Por volta das duas horas da tarde, aparecera Claudina, a filha de Pavia e camarada de Conceição convidando a amiga a ir à casa dela. Januário exultou, vendo que Pavia por seu lado trabalhava para facilitar o negócio. Apressou-se em fazer Conceição sair, admirando-se muito de não ser impedido pela resistência de Emília, com que contava. A nora mudara de modo de pensar... Conceição, muito alegre por haver curado a boa Emília com seus carinhos, achou muito a propósito um passeio à casa da amiga Claudina...

Não se preocupou mais com a doença da nora de Januário.

E foi-se, rindo de prazer, de mãos dadas com Claudina, prelibando as agradáveis surpresas que reservava-lhe o passeio...

Pelo resto do dia, Emília não sentia-se tão boa como esperava. Começou a sentir uma debilidade que dizia-lhe que as melhoras experimentadas haviam sido fictícias... Não quis admitir. A fraqueza progredia e ela resistia-lhe com todas as energias. Não quis afastar-se do serviço em que auxiliava a velha sogra. Trabalhou. Mas a fraqueza continuava, cada vez mais profunda, Reagiu ainda; não pôde com a moléstia.

Ocultou, enquanto pôde, o mal que a prostrava. Afinal sucumbiu.

— Precisava estar boa por amor da minha Conceição! — murmurou ela, ao voltar para o leito...

Com a recaída de Emília, voltaram os cuidados da mulher de Januário em relação ao peso do serviço com que se ia ver atrapalhada, caso morresse a sirigaita...

Tranqüilizou-se, porém, com esta reflexão:

— A Conceição já foi... o dinheiro está seguro... Teremos quem nos sirva...

À tardinha, a caridosa duquesa, visitando os moradores da aldeia da quinta, foi bater à porta dos velhinhos do beco.

A mulher de Januário correu a buscar um xale novo e veio pressurosa abrir, enquanto o velho marido ia preparar uma fatiota mais asseada. A duquesa entrou sem repugnância no casebre dos velhos, respondendo com generosas palavras às cortesias que lhe dirigiam os moradores do pardieiro, que elevavam-na à categoria de santa...

— Onde está a senhora Emília? — perguntou logo que os cumprimentos acabaram.

A duquesa sempre se interessara pela pobre Emília. Conhecia-a de muito tempo e não se lembrava de tê-la visto sorrir, senão por triste cortesia, ou em resposta a qualquer coisa amável que se lhe dissesse. Adivinhava que aquela mulher sofrera muito e sofria ainda essa espécie de indiferença dolorida que fica depois dos longos padecimentos morais. Desejava conhecer o segredo daquela melancolia, para ver se podia consolar. Emília tinha, em compensação, uma profunda amizade à generosa fidalga. Sempre que a duquesa apresentava-se era ela a primeira a ir recebê-la e beijar-lhe as mãos.

A ausência de Emília foi que provocou a pergunta da senhora de Bragantina.

(continua...)

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