Por Raul Pompéia (1881)
No cercado havia couves e tinas d'água. Por cima das couves voavam reflexos de borboleta; no teto de zinco passarinhos cantavam, nos rombos do barro, aninhavam-se pombos. Não era exatamente a essas cousas que Alexandre dava atenção.
Era a um par de mãos níveas, pequenas, às voltas com uma costura, mimosas extremidades de braços modelados por... qualquer chapa de poeta lírico. Estes braços, nus como a inocência, até aos cotovelos, enfiavam-se timidamente pelas mangas curtas de um corpinho de musselina que em outro ponto comprimia com força duas resistências esféricas, de uma geometria provocante a mais não poder. Para cúmulo, rasgava-se, das resistências acima, um modesto decote, donde, fresca e jovial emergia, desabrochava uma cabecinha peregrina. Um camafeu delicado, róseo, transparente, rodeado de pequenos cachos negros em delicioso descuido, com muito sorriso na dobra dos lábios, muito fogo nos largos olhos e nas palpitantes narinas...
Era arrebatadora na sua janela, essa costureira! A estrela d'alva à sombra de um reles teto de zinco.
Alexandre variava. Chamava a sua estrela d'alva, só quando a via de manhã; pela tarde chamava-a de Vésper.
Uma vez, voltava o moço do seu habitual passeio quando teve de assistir a uma cena que espinhou-lhe a curiosidade.
Na ocasião em que passava pelo casebre de zinco, viu um molecote dos seus sete anos, vestido de riscado, cabeçudo como um feto, preto como o diabo, salientes os olhos, como se já não lhes houvesse lugar dentro do crânio. Sem se preocupar com Alexandre, o demônico, que levava na mão um objeto oculto, foi até à janelinha de peitoril, carcomido, onde, como era freqüente, cintilava a estrela Vésper e entregou-lhe... uma camélia vermelha.
Pouco lido na filologia das flores e em simbolismos de namoro o mancebo não adivinhou o sentido daquilo. Bem possível era que nada mais significasse do que simples oferta delicada de um galanteador, talvez mesmo de qualquer amiga da mocinha do casebre. Não sei que palpite o fazia pender para a primeira hipótese. Não havia dúvida! Com ou sem explicação gramatical, aquilo era uma frechada de Cupido!... Tinha notado que a mocinha se debruçara na janela, espiando para os pilares que abrem passagem do terreno pertencente às pedreiras para a rua da Assunção.
Aí devia encontrar a verificação da sua desconfiança. Enfrentou de repente com um rapagão alto, robusto, moreno, fisionomia farta de satisfações, tênues bigodes negros, lábios risonhos e grossos; tudo sob um pequeno chapéu de palha e acima de um peito largo, apertado casemiras. Trazia na mão um chicotinho com argola e corrente de prata ao cabo.
Alexandre ficou sombrio; e seguiu para sua residência, absorto em solilóquios mentais...
Três ou quatro dias depois, também à tardinha, de volta às pedreiras, Alexandre deparou outra vez com o tal rapagão, pouco distante do casebre da moça contemplando atentamente a muralha de granito.
- Que imensidade! Murmurava, quando Alexandre passou.
Implicante sujeito! Esse marmanjo era uma ameaça terrível para a costureirinha.
Alexandre pensou em intrometer-se no romance, tomar contas ao marmanjo. O nobre mancebo estava possesso de ciúme; mas o ciúme generoso que se sente, ao ver um garoto arrancando uma rosa ao pedúnculo para depois abandonar ao esgoto. Se era tão agradável apreciar-se a flor...
E bem garoto lhe parecia o marmanjo.
Desta ocasião em diante, o habitué dos pedreiros não tornou a ver, nem a sua Vésper, nem a sua estrela d'alva...
Isto causou desgosto a Alexandre. Os seus costumados passeios foram deixando de ser freqüentes. A vista daqueles lugares trazia-lhe à mente tristes recordações da rapariguinha do pardieiro de zinco, de quem Alexandre egoisticamente não se quisera lembrar.
Contudo, o moço de vez em quando lá ia...
Assim foi que, por um dia tempestuoso, ele se abalou de casa a visitar o sítio antigamente de sua predileção. Alexandre freqüentara a pedreira como quem freqüenta um jardim público, que não lhe fica longe de casa. Era um hábito adquirido, um hábito na verdade excelente como higiene.
O mancebo, porém, se desgostara um tanto com o seu hábito...
Eram cinco horas ou mais. O céu estava carrancudo como um homem perverso. Cúmulos enormes estampavam-se na abóbada. Moviam-se lento. Formavam monstruosos leões de escancaradas fauces que iam derramando pelo ar negras jubas de proporções fabulosas; formavam gigantes, que engordavam, avultavam a olhos vistos e dissolviam-se por fim em conglobamentos informes.
Ouviam-se uns estremecimentos sonoros, que chegavam das nuvens, como se lá em cima se afinassem os tambores da trovoada.
Apesar de tudo, Alexandre saiu a passeio. Se a tempestade desabasse, ele gozaria um espetáculo admirável nas pedreiras.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. 14 de julho na roça. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7632 . Acesso em: 6 abr. 2026.