Por Padre Antônio Vieira (1672)
Os tempos parece que estão pedindo que se edifiquem antes muros e castelos, que templos, mas esse privilégio têm nomeadamente os templos do Santíssimo Sacramento, que são as melhores fortificações dos remos. Edificou a divina Sabedoria um templo: Sapientia aedificavit sibi domum (Prov. 9,1). Dedicou este templo ao Santíssimo Sacramento: Miscuit vinum, et proposuit mensam. E que se seguiu daqui? Misit ancillas suas ut vocarent ad arcem et ad moenia civitatis35. Os que serviam naquele templo, como os que servem neste, era com nome de escravos, e a esses escravos mandou o Senhor que chamassem para a fortaleza e para os muros da cidade. Pois como? O que se edificou era templo ao Santíssimo Sacramento, e o recado com que se convocava a gente para o templo dizia que viesse para os muros e para as fortalezas da cidade: Ad arcem et ad moenia civitatis? Sim; que os templos do Santíssimo Sacramento são os mais fortes muros, são as mais inexpugnáveis fortalezas das cidades e dos remos. Edifique-se, levese por diante esta fábrica, que ela será os mais fortes muros de Lisboa, ela será a mais inexpugnável fortaleza de Portugal. E acabará de conhecer o político a razão de estado de Deus, que quando se expõe a cair nas mãos de seus inimigos, é para mais nos defender dos nossos, e para fundar sobre suas injúrias o edifício de suas glórias, aprendendo e confessando na política deste altíssimo conselho de Cristo a verdade secretíssima e sacratíssima daquele Vere: Vere est cibus, vere est potus.
§IX
Súplica em favor dos inimigos da Eucaristia.
Diviníssimo Sacramento, real e verdadeiro corpo de Cristo, Deus encoberto debaixo de substância de carne, homem encoberto debaixo de acidentes de pão, o filósofo, o devoto, o político, corno cristãos e católicos, e com o filósofo toda a nossa ciência, e todas as ciências; com o devoto toda a nossa piedade e todos os nossos afetos; com o político toda a nossa conveniência e todos os nossos interesses, e todos os que estamos presentes com tudo o que sabemos, o que amamos e o que esperamos, obedientes à fé e guiados pela razão, às escuras, e com luz, com os olhos fechados, mas abertos, profundamente prostrados ante a majestade tremenda de vosso divino e humano acatamento, cremos, confessamos e adoramos a verdade infalível de vossa real presença debaixo da cortina sem substância desses acidentes visíveis. E com confiança, Senhor, da clemência com que nos sofre vosso amor, e da benignidade com que aceita a tibieza de nossos obséquios, nos oferecemos, nos dedicamos, nos entregamos todos a ele em perpétua obrigação de o servir como escravos, posto que indigníssimos, desse soberano Sacramento. Aumentai, Senhor, pela grandeza de vossa misericórdia, esta família vossa, e pois que o judeu obstinado, o herege cego, e o gentio ignorante não sabem, nem querem orar por si, nós oramos, e pedimos por eles a vós, soberano pastor, que de todos haveis de fazer um rebanho. Ensinai, Senhor, a ignorância do gentio, alumiai a cegueira do herege, abrandai a obstinação do judeu. E para que a maldade e astúcia do demônio tentador os não engane, chegue já a execução de vossa justiça e acabe o mundo de ver atada sua rebeldia naquelas cadeias e fechada naquele cárcere que há tantos anos lhe está ameaçado e prometido para que desta maneira, unidas todas as seitas do mundo na concórdia de uma só fé e religião36, se forme de todas essas seis vozes uma total consonância e perpétua harmonia, cantando todas em todas as quatro partes do mundo, até o fim dele, e confessando alternadamente a muitas vozes, e juntas em uma só voz, a sagrada e consagrada verdade daquele Vere: Vere est cibus, vere est potus.
Baixar texto completo (.txt)Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 13 ago. 2026.