Por Lima Barreto (1911)
Em corpete, colete descansando no toucador, ela sentara-se a uma cadeira, uma perna sobre a outra, e deixara um instante de desabotoar as botinas.
— Que tem?!
— Você é que não adivinhou. Tola — disse ele, beijando-a — ele quer é deslocar teu pai.
— Como?
— É muito simples. Quem dá prestígio a teu pai?
— O partido... Os eleitores...
— Que eleitores! É o governo federal! Que faz Salustiano? Adere a Bentes, desde já; blasona influência; Bentes fica amigo dele; faz-se presidente e transfere o apoio para Salustiano. Admiras que não tenhas visto isto logo!
— Desconfiava, mas...
— Pensavas que Bentes tinha que contar com seu pai?
— Era isso.
— Tinha, não há dúvida; mas não tem. Teria se fosse candidato normal, então trocariam favores; mas Bentes, de qualquer modo, sobe por uma revolução. Dispensa eleição, Congresso, etc. É o que diz o Inácio Costa e é o que se está passando.
A visão daquela insólita queda do pai pareceu-lhe uma desfeita, um insulto; e conquanto ele pudesse prescindir dos proventos do cargo, viu no fato uma humilhação à idade e à respeitabilidade do pai. Tirou uma das botinas e exclamou com raiva:
— É um desaforo!
— Precisa manha, meu amor. O que teu pai deve fazer e os outros também é fingirem grande dedicação a Bentes, fazê-lo prisioneiro, simular admiração pelos seus talentos, e convencê-lo de que é normal a sua ascensão. Mas, para isso devem exagerar, exagerar tudo, o prestígio que têm.
— Como?
— Com telegramas, retratos nos jornais, artigos, manifestações... Queres saber de uma coisa?
— Que é?
— Desde já vocês devem tratar de organizar uma manifestação a teu pai.
— Como?
— Fala ao Lucrécio, ao Inácio Costa...
— Inácio!
— Sim. Ele quer é por o nome em evidência... Fala a eles... Vamos tratar de outra coisa.
A moça já tinha desfeito a sua “toilette” quase inteiramente e o seu colo nascia por entre as maravilhosas ondas rendadas da camisa. A preocupação não a deixava.
— Deita-te.
— Mas...
— Não pensa mais nisto. O fim do mundo ainda não chegou.
Ela quis afastar a obsessão, a teimosa ansiedade; mas voltava-lhe à idéia o “tombo” na influência paterna, enchia-se um momento de indignação sobretudo contra o tal Salustiano, um seu parente! Tomaria o lugar do pai? Como havia de olhá-lo? Já não quisera ridicularizar o marido?
— Ah! É verdade! Lembrou-se ela.
— Que é, meu bem?
— Já fizeste aquilo?
— Ora! Não te esqueças...
— Não se fala em outra coisa. Ainda agora, no bonde de Santa Teresa...
— Onde foste?
— À casa de Macieira. Por sinal vi o Felicianinho... Está bonito!
— Casa-te com ele.
— Só quando eu tiver setenta anos.
Riram-se brevemente e Benevenuto perguntou:
— Quem encontraste no bonde?
— O Gerpes e o Martinho, que me falaram em Numa... Já fizeste?
— Edgarda, és muito egoísta!... Ainda não me beijaste e... — Perdoa, meu bem! Tu sabes... É...
E os dois se beijaram longa e fartamente.
CAPÍTULO V
Bogoloff vivia ainda na casa de Lucrécio Barba-de-Bode. Esperava este que o seu partido subisse para colocar convenientemente o doutor russo. A sua esperança era cega; tudo marchava para tal desenlace. O velho presidente resignara o poder e o seu substituto subira à presidência hipotecado aos partidários de Bentes. A população não podia compreender aquele desmoronar de castelo de cartas; não entendia que o governo, pelo seu mais poderoso representante, estivesse assim exposto a uma despedida tão ultrajante; não atinava com o motivo por que um dos seus ministros se pusera, de instante para outro, em franca rebeldia contra o presidente; e não atinava por que a explicação não podia ser achada senão com o exame vagaroso dos detalhes.
Com os novos governantes, o pavor do começo transformou-se em uma falsa alegria de encomenda. Os jornais pululavam; nasciam e morriam, com a publicação do retrato do herói; os ágapes, os banquetes eram diariamente anunciados, telegramas e cartas congratulatórias eram publicadas, e poliantéias e biografias. Pelino Guedes fazia discípulos e eram legião. Todos riam-se, mas riam falso. Um riso de prostitutas em orgia sesquipedal. Houve a indústria das manifestações e Lucrécio aproveitou muito com ela, enquanto os seus serviços não eram encaminhados mais eficazmente. Havia necessidade de fazer crer que o povo, que a opinião desejava ardentemente a emissão do Messias nas rédeas do Estado, e o povo faz-se, graças à necessidade, graças à ilusão do Estado e à simplicidade dos esmagados.
Bogoloff pode ganhar algum dinheiro, escrevendo artigos para jornais de pouca vida; meteu-se aos poucos no torvelinho dos que se agitavam à espera do reino dos céus que Bentes vinha realizar sobre a terra; e o populacho, as crianças e mulheres sobretudo, fossem de que condições fossem, viam a agitação daqueles possessos como mau agouro. Essa gente não quer coisa boa; parece que tem o tinhoso no corpo, diziam.
A mulher de Lucrécio não se cansava de dizer-lhe: “Toma cuidado, Lucrécio; esse homem não é bom. Olha o que ele fez com o “velho”...
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)BARRETO, Lima. Numa e a ninfa. Brasília, DF: Ministério da Educação, Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16822 . Acesso em: 29 abr. 2026.