Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

A Conquista

Por Coelho Neto (1890)

Oh! Essa primeira noite, desde que um sopro extinguiu a luz! Ó ardentíssimo Bartriari. Ó pensador Babravia e tu, voluptuoso brâmane Vatsyayana, autor dos shastras fesceninos; e tu, Ovídio; e tu, Propércio, vós todos quantos cantastes o delírio erótico em estrofes mais estimulantes do que a decocção afrodisíaca da Uchala ou do que o mel do Hymeto, doce e rejuvenescedor, que admiráveis páginas daríeis se pudésseis, de um canto, velando, como velaram Anselmo e Amélia, ouvir as entrecortadas palavras trêmulas, ouvir os beijos alucinados e...

Se conhecêsseis a qüinquagésima estrofe do 8o canto do poema do Ariosto:

"Tutti le vie, tutti li modi tenta;

Ma quei pigro razzon non peró salta: Indarno li fren gil scuote e lo tormenta; E non puó far que tenga la testa alta.

Alfin presso alla donna s'addormenta.

..........................................................."

Imaginai o oposto dessa miseranda cena entre o eremita e Angélica, na praia; imaginai e tereis o que aquelas paredes graves da alcova ascética do triste não viram, mas ouviram, se, em verdade, as paredes têm ouvidos.

Depois dessa noite febril, Anselmo, como se houvesse perdido a noção do seu destino, esqueceu os livros à poeira e à traça, esqueceu sobre a mesa desordenada as primeiras tiras do romance, que tão interessadamente começara por uma larga descrição da vida rural com muita bucólica, sob um sol abrasado, entre cabanas e matas virgens, louros canaviais e águas fugitivas e os dias, ou passava-os molemente estirado na cama, a repousar da noite esperando a noite, ou ia gastá-los em casa de Amélia, muito lúbrico, enquanto Ruy Vaz, em excitada febre de trabalho, mal aparecia aos amigos e o Toledo, com todos os ossos do crânio na cabeça, passava à coluna raquidiana, passeando pelo corredor com vértebras na mão e vértebras nos bolsos.

Amélia mudava-se paulatinamente para a rua Formosa. Alta noite, um tílburi parava à porta e Toledo, o paciente anatomista, era despertado para ceder o quarto e, sem queixa, com os retratos respeitáveis e o seu lençol, transferia-se para a cama de Anselmo; e a atriz instalava-se. Já no mirante, ao sol, vestidos tufavam-se, meias de seda rolavam pela casa; nos cabides, juntamente com os paletós e as calças, havia camisas e saias rendadas, um chapéu, cercado de plumas, enfeitava, como um ornato extravagante, a mesa do autor de A Profecia e, nos róis de Anselmo apareciam, na promiscuidade das ceroulas e dos colarinhos, calças de senhora, saias brancas, camisas e outros panos adjacentes.

Pelas paredes eram sem conta os retratos da atriz em diferentes peças: ora de fada, ora de pajem, ora de escrevente. Aqui, com ares régios de soberana; ali, risonha, mostrando os dentes, numa garridice de soubrette e um, maior que todos, no qual era vista deitada sobre um divã, olhos semicerrados, fumando. Ruy Vaz achava aquilo imoral e o Toledo, para que os seus progenitores não aparecessem em companhia tão desbragada, trazia os dois retratos no bolso recatadamente.

Dona Ana, encontrando uma manhã Amélia no corredor, plantou-se de mãos à cinta no patamar trincando os beiços e, logo que a atriz desapareceu, esbravejou com todo o poder dos seus pulmões.

— Que não queria gente daquela laia na sua casa, aquilo não era zungu!

Que os sem-vergonha vissem que ela tinha uma filha solteira. E jurou que, se encontrasse outra vez a sirigaita, agarrava a pelo gasnete e atirava-a da escada abaixo. Anselmo, melindrado, quis descer para fazer calar a viúva, mas Ruy Vaz acalmou-o:

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...2627282930...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →