Por Raul Pompéia (1880)
O padre Jorge depôs entristecido a cabeça do morto no soalho e dirigiu-se para Eustáquio, que, sem ver o que se passava na sala, estava abraçando comovido seu dedicado defensor. O marido de Branca, ao aproximar-se o padre Jorge, separou-se do paraense e prestou ouvidos a umas marteladas aterradoras que retumbavam pela casa. A porta da cozinha era atacada ainda pelos golpes de fouces dos malfeitores, que chegavam para terminar a obra começada pelos seus companheiros.
— Meus amigos, disse a meia voz Eustáquio, dirigindo-se ao padre Jorge e ao paraense, a nossa situação, não dissimulemos, é quase desesperada. Se algum socorro não nos chegar de S. João do Príncipe antes do arrombamento da porta da cozinha, só nos restará correr para o roseiral, atacar os sete bandidos que querem invadir-me a casa e morrer em suas mãos, deixando Branca, Rosalina e o meu filhinho entregues a Deus.
O marido de Branca parou como que fatigado pelo esforço que fizera para pronunciar aquelas palavras.
Depois prosseguiu, maquinalmente, deixando ver a preocupação do seu espírito:
— Esse socorro não virá sem que se o vá buscar... Eu vou ao povoado. Em breve estarei de volta, trazendo-vos... a salvação.
O padre Jorge e o paraense quiseram dizer alguma cousa.
— Não há nada a observar, meus amigos, ponderou Eustáquio, em tom firme. É talvez perigoso alguém se aventurar lá fora, mas eu espero que serei feliz...
Além do que, quando se trata de salvar a muitos, um pelo menos tem o dever de se arriscar... Eu parto... Até já!
E, antes que os seus amigos tivessem tido a idéia de o deter, Eustáquio encaminhou-se para a porta que dava para o roseiral. Quando suas mãos tocavam a chave da porta, ele ouviu uma voz murmurar-lhe ao ouvido, com a suavidade de um ósculo:
— Adeus!
Voltou-se... Ah! Branca jazia ensangüentada aos seus pés!
Uma detonação forte ressoara.
Enquanto o pobre marido se deixava cair sobre o corpo inanimado da mulher, o padre Jorge e o paraense, meio aturdidos pelo inesperado lance, olhavam com terror por uma janela para o roseiral. Lá fora, empoleirado sobre a cerca, avistava-se um negro. Um bacamarte fumegava-lhe nas mãos. O perverso ria-se do efeito do seu tiro.
Branca vira, da alcova, este miserável apontar uma arma para dentro da casa. Saíra ligeira do aposento e, verificando que Eustáquio era o alvo do bandido, possuída de um heroísmo de que ninguém a julgaria capaz, correra a defender com o seu o corpo do esposo. No momento em que este ouvia o seu doloroso adeus, a carga inteira do bacamarte lhe crivava as costas.
Passada a primeira impressão daquele desgraçado incidente, o padre Jorge e o paraense lembraram-se de fechar, por precaução, todas as janelas que se achavam abertas, deixando o interior da casa em uma meia escuridão, que o crepúsculo vinha aumentar. O infatigável engajado de Eustáquio arrastou um leito para a sala e nele deitou com todo o cuidado a infeliz Branca, que continuava desfalecida.
Inútil é dizer que Eustáquio esquecera a sua situação quase desesperada, o meio de salvação que ele resolvera tentar, tudo, só para entregar-se a sua dor. Quem o visse prostrado, com uma das mãos de Branca colada aos lábios, as feições alteradas pelo desespero, os olhos fechados, mas enxutos ainda, não reconheceria nele o enérgico homem que fora o subdelegado de S. João do Príncipe. Aos pés do leito soluçava Rosalina, orando de joelhos. Entretanto o padre Jorge examinara as feridas de Branca e as refrescava com água fria trazida pelo paraense, que nessa ocasião carregava algumas armas, olhando, ora tristemente para a jovem ferida, ora com ferocidade para o lado da cozinha, cuja porta via fender-se sob os golpes dos bandidos.
Branca deu um gemido quase imperceptível e abriu os olhos.
— Oh! gritou Eustáquio, levantando-se de um pulo e segurando o braço do padre Jorge. Está viva! Não morreu não! Deus não quis matá-la. Ah! se ela morresse eu seria um réprobo. Ela morreria por minha causa!... Padre Jorge, ela coitada queria fugir e eu... miserável!... me opus! Me opus!... ali está a minha obra!...
O pobre homem apontou para a esposa. Depois, inclinando-se para ela exclamou:
— Mas tu não morrerás, não, Branca! Deus não será tão cruel para mim!...
E dos seus olhos irromperam as lágrimas, que até então se tinham recusado a conceder-lhe alívio ao sofrimento.
Branca encarava-o com doçura, ao passo que trocava com Rosalina infinitos beijos. A menina já a considerava salva.
O padre Jorge, que conhecia o estado da ferida e se lembrava dos malfeitores, não teve forças para fingir que estava também satisfeito. Afastou-se do leito de Branca e o paraense pode perceber que ele se arredara para chorar.
Com os olhos cheios de lágrimas, que lhe foi impossível conter, o sacerdote entrou na alcova da sala e deu uma volta pelo aposento. De passagem viu no seu berço o filho de Eustáquio, dormindo tranqüilamente. As pancadas incessantes com que os bandidos abalavam a porta da cozinha não perturbavam o sono do inocente.
— Pobre anjinho! disse consigo mesmo.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. Uma tragédia no Amazonas. Rio de Janeiro: Typ. Cosmopolita, 1880. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17442 . Acesso em: 6 abr. 2026.