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#Romances#Literatura Brasileira

O Ateneu

Por Raul Pompéia (1888)

A capela em trevas, de um negrume absoluto de merinó preto. A escuridão dava-lhe uma amplitude de subterrâneo, misteriosamente sentida no espaço. Não tive medo. Fui até ao altar. Tropecei no estrado. Ajoelhei-me no chão e descansei a testa nos braços a um dos ângulos do estrado do oratório. Rezei.

Na qualidade de mau estudante não sabia até ao fim nenhuma oração. Rogava por minha conta, improvisando súplicas, veementes, angustiosas, que deviam forçar a ombro a porta de São Pedro. Implorava de Deus diretamente, sem o intermediário empenho da minha padroeira. Até que, não posso dizer como, adormeci.

Uma palmada acordou-me. Era dia. Ergui-me vexado, de camisola, diante do Margal e de uma porção de colegas que miravam. “É sonâmbulo, é sonâmbulo”, explicavam.

Esta saída dispensava-me de dizer a que fora ali; encampei a explicação, concordando. “Que horas são?” perguntei. “Seis horas, responderam. Chegamos agora mesmo do banho.” Tinham os cabelos empastados sobre os olhos. “E os cacos?!” gritei espavorido. Examinei os pés dos companheiros. Nas chinelas com que desciam ao banho não via sangue! Esclarecia-se: houvera ordem de banhos de chuva no competente banheiro, alojado em um dos cômodos baixos do Ateneu, pelo motivo de ter servido seis vezes a água da natação. Graças ao Senhor! Vinha-me do céu esta solução de águas sujas, alcançada pela minha prece. Dilatou-se-me a alma em ditoso alívio.

À minha interjeição explosiva de cacos, os colegas supuseram tontura de sono. Não assim o inspetor, que me chamou a indagar. Nova mentira: durante a escapada dos sapotis, uma garrafa, que arremessei de mau jeito, fizera-se em cacos contra o muro, sobre o tanque. Providenciou-se. O criado encarregado de varrer o tanque, com o zelo da domesticidade, chamou atenção para o número dos fragmentos; tão extraordinária era a hipótese da intenção perversa que não pegou.

No mesmo dia estive com o Franco, durante os recreios, a completar a pena. Não me disse palavra acerca da decepção da sua vingança. Julgando-se comprometido, concentrava-se na insensibilidade de carapaça que o defendia, esperando tudo, a minha delação, uma trovoada de doestos, a cafua, um acréscimo ao déficit permanente da divida penal. Aborrecia-se, porém, da necessidade de ser punido por um fiasco de tentativa.

Quanto ao requinte da exposição no refeitório, mãos cheias de sapotis, não houve meio de obrigar-me Aristarco. Concordara em ficar de pé; não era pouco. Franco naturalmente submeteu-se e lá esteve, braços abertos, a fazer de fruteira no interesse do sistema das punições morais. Tanto melhor para o sistema.

À vista da relutância, calculou-se em páginas de escrita quanto podiam valer dois punhados de sapotis; redução difícil, que a justiça colegial alcançou matematicamente, pronunciando uma condenação que me daria que fazer até mais de meia-noite.

Este rasgo de vigor mentia ao meu religioso papel de submissão e sofrimento. Foi o repentino prenúncio de próxima reforma no interior espiritual. E, como as evoluções da vontade sabem extrair de qualquer fato a hermenêutica do determinismo, deu-se imediatamente uma ocorrência que ponderou muito na transformação.

De noite, novamente ao lado do Franco, a fatigar-me na tarefa das páginas, tive que ficar até tarde numa das salas do primeiro andar. Pelas dez e meia, o diretor, antes de sair para casa, veio ver-nos. “Ainda escrevem... estes peraltas?...” disse-nos de enorme altura, à guisa de boas-noites, e desapareceu confiando-nos ao amável João Numa, bácoro, inspetor das salas de cima. Na sua qualidade de gorducho, o João não era diligente. Apenas viu parar Aristarco, trancou a última porta do Ateneu e foi dormir.

Acabrunhado pela noitada anterior, estava eu de sono que mal podia erguer a cabeça. De uma vez que cedi ao cansaço fui despertado por sentir que me alisavam a mão. Adormecera sobre o braço direito contra a carteira, pousando o rosto na tinta do castigo, deixando cair o braço esquerdo para o banco. Um instante depois estava fora da sala, de um pulo, como se tivesse reconhecido em sonhos que o Franco era um monstro.

Ao dia imediato saí da cama como de uma metamorfose. Imaginei, generalizando errado, que a contemplação era um mal, que o misticismo andava traidoramente a degradar-me: a convivência fácil com o Franco era a prova. O Ateneu honrava-me, por esse tempo, com um conceito que só depois avaliei. Eu não me julgava assim tão apeado, mas supus-me diretamente a caminho de um mergulho. Se a alma tivesse cabelos, eu registraria neste ponto um fenômeno de horripilação moral.

Fiquei perplexo.

(continua...)

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