Por Lima Barreto (1911)
Nem preciso era que ela desconfiasse e tomasse precauções, porquanto a rua estava deserta e silenciosa, como sói sempre estar a qualquer hora do dia e da noite. Acresce mais que a casa era conhecida e os seus habitantes sabiam perfeitamente que lá residiam uma velha rapariga e uma filha que viviam de costuras, além do filho que trabalhava, como embarcadiço de um paquete.
A sala tinha uma pobre mobília e sobravam utensílios de costura. Havia máquinas, manequins. uma mesa para o corte, figurinos, e a mãe e a filha, uma na máquina e a outra à tesoura, trabalhavam distraídas.
Ambas não tiveram a menor surpresa ao ver Edgarda entrar. parecia que a esperavam e corresponderam com simplicidade ao cumprimento que lhes fez.
A moça costureira franziu um pouco a fisionomia, mas a velha tornou-se logo alegre e foi falar familiarmente com a mulher do deputado. Conhecera-a menina, criara-se na casa do avô, e sempre encontrara na moça uma amiga, uma protetora para os seus tristes dias de viúva pobre.
— Benevenuto já veio, Carola?
— Já, Edgarda. Está lá dentro.
— Você acabou aquela saia?
— Cortei, mas não sabia se você a queria com pressa mesmo.
A filha, que até ali se mantivera calda, acudiu:
— É aquela “salmon”, mamãe?
— É.
— Pode ser provada. A senhora quer?
Não teve tempo de responder, pois a velha lhe perguntava:
— Edgarda, que barulho vai haver?
— Barulho?
— Negócio de política. Não é, Lívia?
— Corre aí... Não sei...
— A candidatura do general?
— Sim; mas dizem que o “velho” deixa.
— Deixa? Quem disse isso a você?
— Benevenuto.
— Vou falar com ele. Com licença!
Edgarda atravessou o corredor e foi à sala de jantar. A casa era pequena, não tinha mais que duas salas e dois quartos, dando um destes para a sala de jantar. Havia de permeio aos aposentos uma área que iluminava mal, tanto um como o outro quarto. Mas, assim mesmo, a casa bastava para o destino que ela tinha merecido.
O primo já estava no interior, quando Edgarda lá entrou. Ao vê-la, ele se levantou e um instante beijaram-se, sem dizer palavra.
Parentes próximos, conhecidos deste meninos, o amor só brotou neles depois do casamento da prima. Nunca se haviam conhecido bem, nunca se tinham compreendido; e, nela, o matrimônio como que lhe deu um outro sentido, um antena que descobriu no primo o que lhe exigiram a imaginação e a inteligência.
Casada, um pouco das suas idéias de menina e de moça evoluiu; se os desejos de notoriedade do marido, não se foram também, é porque neles havia muito de seu amor próprio pessoal e o seu casamento fora determinado por esse mesmo sentimento.
Se o marido não quis em começo corresponder a esses desejos, era, entretanto, bastante plástico para ser modelado por eles; o primo, porém, com uma personalidade mais forte, em que sobravam tantas aptidões, não seria capaz de plasmá-los; e sempre mostrara pelos políticos uma indiferença, senão um desdém superior.
O ambiente familiar, as preocupações do pai, as suas conversas, o modo por que, aqui e ali, se referia a ele, fizeram com que a menina Cogominho concordasse, partilhasse essa forma de ver do pai e mesmo o tornasse incompreensível a seus olhos. Tudo isso afastou-a do primo, e do pai, esse sempre vivera afastado, mas sem ódio nem rancor.
Referia-se o senador ao primo afim com condescendência de pai de filho pródigo. Bom rapaz, dizia ele, mas boêmio e extravagante.
Nada mais dizia a respeito do parente e não parecia incomodar-se muito com as opiniões e ditos que proferia ou citava. Nunca se indignava, nunca o censurava e, se uma frase era mais atrevida, fechava a conversa com um — Ora! Você! — e emendava outro assunto. Certa vez não foi com ele mesmo, mas com um dos deputados, que Benevenuto dissera:
— Essa política é desonesta.
— Desonesta! Por quê?
— Por quê? Porque vocês se propõem a fazer a felicidade do país, coisa de que vocês estão convencidos que não fazem, nem tentam de modo algum fazer.
Essas e outras opiniões chocavam a moça, ameaçavam desmontar ou perturbar o seu sistema de idéias; e Edgarda evitou um pouco o primo, sem odiá-lo, sem aborrecê-lo, mas por temê-lo um pouco.
De volta de Sepotuba, esquecida ou já não tão dominada pelas suas primeiras concepções, acolheu o primo com grande efusão, admirou-o, apagando toda a ponta de diabolismo que encontrava nele e amaram-se sem saber como, sem determinar o começo, ora parecendo amor antigo, ora um recente capricho.
Encontravam-se há quase um ano naquela casa discreta, graças à complacência de uma velha conhecida, quase pessoa da família de sua mãe, que lhe prestava aquele serviço mais por dedicação do que por interesse de outra ordem.
Edgarda tirou o chapéu, foi se desabotoando com o auxílio do amante, — tudo muito vagarosamente, com preguiça e sem nenhum ardor; Benevenuto disselhe:
— Sabes, Edgarda, que o “velho” vai resignar?
— Não.
— Pois vai, se não resignou já.
— Quem te disse?
— O Inácio Costa... Ele anda sempre informado, vive nos bastidores — ele e o seu primo Salustiano.
— Salustiano? Que tem ele com essas coisas?
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)BARRETO, Lima. Numa e a ninfa. Brasília, DF: Ministério da Educação, Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16822 . Acesso em: 29 abr. 2026.