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#Romances#Literatura Brasileira

Clara dos Anjos

Por Lima Barreto (1922)

— Bem. A mulher saiu mais o mais moço; foram a não sei que ladainha por ai. É um inferno! Estes padres têm invadido estes subúrbios com mais rapidez que os "turcos" de prestações. É dinheiro para esse santo, é dinheiro para as obras da igreja... Não posso mais! Edméia, porém, está lá no fundo do quintal. Quer tomar café, Senhor Cassi?

— É incômodo... Se a sua senhora estivesse, sim; mas...

— Não há incômodo algum. Edméia o aquece no espírito... Só se o Senhor Cassi não gosta aquecido?

— Gosto.

— Pois bem, vamos a ele — e gritou pela filha, com possante voz de homem são: — Edméia! Edméia!

Não tardou em aparecer a filha. Era uma gentil menina de doze anos, risonha, com uma fisionomia redonda de traços firmes e finos, cabelos tirando para o louro, cortados à inglesa. Entrando, exclamou logo:

— Oh! Estava aqui "Seu" Cassi. Que surpresa! Não sabia...

Falou ao rapaz e este lhe disse a esmo;

— Há muito que não a via.

— É verdade, desde o dia de anos de Clarinha... Tem ido lá?

— Não tenho podido.

— Por quê? Parece que lá não gostam do senhor... Principalmente aquele

"pé-pe"...

— Menina — ralhou-lhe o pai. — Não te metas a intrigar os outros... Vá aquecer o café e traze-nos duas xícaras. Vá.

Saindo a menina, Cassi julgou de bom alvitre, para preencher o fim

verdadeiro de sua visita, dizer;

— Podem não gostar de mim. Mas a implicância é sem motivo, Nunca... — Ora, Senhor Cassi, o senhor vai dar ouvido a crianças. Elas não sabem o que dizem.

— Agora, meu caro "Seu" Lafões, eu notei no dia da festa que o compadre do Senhor Joaquim dos Anjos não me tragava — disse Cassi.

— Isto se explica. Ele foi ou é poeta e tem em conta de coisa nenhuma os cantadores de modinhas. Lá na minha terra, os poetas fidalgos e das idalgas não tragam os fadistas do campo, aos quais chamam de rústicos e outras coisas piores. Em cada ofício, há sempre disso. O senhor não vê como os cocheiros desprezam os barbeiros? Cocheiro que não presta é barbeiro. Marramaque, velho, doente, não sabe disfarçar o seu mau juízo pelos que apreciam o violão e o tocam, cantando modinhas.

— Mas... o "Seu" Joaquim?

— É que eles são compadres e amigos, meu caro Senhor Cassi, Está explicado.

Vieram as xícaras de café e a conversa tomou outro rumo. Falaram sobre as festas próximas do centenário da Independência, sobre a crise financeira, mas Cassi em nada disso pensava. Pensava em Marramaque, o audacioso aleijado, que queria se intrometer no seu amor por Clara. Pagaria bem caro. Despediu-se em breve e, lentamente, deixou-se ir a pé subúrbios abaixo. Eram estranhos aquele ódio e aquela obstinação. Cassi não era absolutamente, nem mesmo de forma elementar, um amoroso. A atração por uma qualquer mulher não lhe desdobrava em sentimentos outros, às vezes contraditórios, em sonhos, em anseios e depressões desta ou daquela natureza. O seu sentimento ficava reduzido ao mais simples elemento do Amor — a posse. Obtida esta, bem cedo se enfarava, desprezava a vítima, com a qual não sentia ter mais nenhuma ligação especial; e procurava outra. A sua instrução era mais que rudimentar; mas, assim mesmo, talvez devido a uma necessidade íntima de desculpar-se, gostava de ler versos líricos, principalmente os de amor. Não lia jornais, nem coisa alguma; mas, num retalho apanhado aqui, num almanaque acolá, num livro que lhe ia ter às mãos, sem saber como, conseguia ler alguns e os entender pela metade. Deles, desses sonetos e mais poesias que, por acaso, iam parar em seu poder, ele concluía, com a sua estupidez congênita, com a sua perversidade inata, que tinha o direito de fazer o que fazia, porque os poetas proclamam o dever de amar e dão ao Amor todos os direitos, e estava acima de tudo a Paixão. Vê-se bem que ele não sentia nada do que, poetas medíocres que o guiavam nas suas torpezas, falavam; e, sem querer apelar para grandes ou pequenos poetas, percebia-se perfeitamente que nele não havia Amor de nenhuma natureza e em nenhum grau. Era concupiscência aliada à sórdida economia, com uma falta de senso moral digna de um criminoso nato — o que havia nele.

O verdadeiro estado amoroso supõe um estado de semiloucura correspondente, de obsessão, determinando uma desordem emocional que vai da mais intensa alegria até à mais cruciante dor, que dá entusiasmo e abatimento, que encoraja e entibia; que faz esperar e desesperar, isto tudo, quase a um tempo, sem que a causa mude de qualquer forma.

(continua...)

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