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#Romances#Literatura Brasileira

O Turbilhão

Por Coelho Neto (1906)

— Que tem isso? Estuda e é inteligente, mas à primeira dificuldade, recua desanimado. Não, senhora — é para diante! Quem quer ser alguma coisa na vida queima as pestanas e firma-se numa idéia: é isto porque é! Ele não — é só orgulho! — e encheu as bochechas, bufando. — Ninguém tem o direito de lhe dizer uma palavra que logo se não espinhe. Se um professor faz uma observação, fica de trombas, não volta à escola, e há de viver assim: daqui para ali, sem firmar-se em uma carreira. Também já não é uma criança; com vinte anos há por aí muito pai de família.

— E ele, então, não trabalha, compadre?

— Trabalha, trabalha... mas é um mês aqui, um mês ali. A propósito: ainda está no jornal?

— Ainda.

— Pois olhe: admira. Que melhor emprego queria ele que o de amanuense na Secretaria do Interior? Não fez concurso? Não foi classificado?

— Diz que não tem jeito para emprego público.

— Ah! não tem jeito?! O que ele não tem é cabeça, como a irmã. Agora mesmo — no primeiro momento fez, aconteceu, andou por aí com chuva, mas já desanimou, nem se preocupa mais com o caso. Não é assim, comadre; não é assim. Quem quer alguma coisa, trabalha; sem persistência nada se faz; a senhora bem sabe, porque tem lutado para viver. Mas é preciso ter o juízo assente. Com a menina foi o mesmo: vontades, vontades, e aí está em que deram. Então, Violante não podia cuidar um pouco da casa, arrumar o seu quarto? coser a sua roupa? Eu nunca vim aqui que a encontrasse trabalhando — ou estava dormindo ou lendo, recostada na cadeira de balanço, como uma princesa. Nem os ticos vivem assim, comadre; nem os que têm... Enfim, não quero amofíná-la mais; vamos ver se ainda se pode fazer alguma coisa. É no que dão as condescendências. Quem quer belas flores e belos frutos poda as demasias da planta. É assim.

Levantou-se.

— Não quer uma xícara de café, compadre? — Nada, obrigado.

Apanhou o chapéu e o guarda-chuva.

— E a comadre não desconfia de algum dos tais tipos?

— Eu nem os conheço; vivia sempre lá para dentro, metida comigo, no meu trabalho.

— E ela, aqui esparrimada à janela, de prosa.

Deu d'ombros, afundando o chapéu na cabeça; e, d'olhos altos:

— Mas que loucura da rapariga!

E ficou um momento a olhar o teto, meneando com a cabeça:

— Bem, adeus, comadre. Pois eu vou por aí, e se conseguir saber alguma coisa, dou um pulo até cá.

— Nós vamos mudar-nos.

— Quando? — Amanhã.

— Para onde?

— Para o cais da Glória. Paulo achou lá uma casinha. O senhor compreende: não podemos ficar aqui — vem um, vem outro, perguntam...A gente tem vergonha.

— É natural, é. Pois é isso: faça o rapaz mover-se.

Caminhou até a porta e, voltando-se:

— Olhe, nós lá estamos... sem cerimônia. Para os de casa, como a comadre, há sempre lugar. Sem cerimônia. — Obrigada, compadre; eu sei.

O velho escancarou a porta e, já na rua, repetiu:

— Se conseguir saber alguma coisa dou um pulo até cá.

— Será favor.

— Adeus. E não se amofine.

— Lembranças a todos. — Obrigado.

E foi-se pigarreando.

CAPÍTULO VII

Com o rosto encostado à persiana, Dona Júlia deixou-se estar esquecida, o olhar perdido, pensando nas palavras do velho Fábio que, só então, depois de vinte e cinco anos de amizade, porque o marido levara, como um dote, aquele coração, cuja bondade vivia a apregoar — emitia a sua opinião sincera sobre "os pequenos" que, a bem dizer, lhe haviam crescido ao colo. Não estimava, então, a afilhada, tinha-a em má conta, achando-a indigna de conversar com Cristina, a inocente e triste Cristina, sempre chorosa e pressaga, com idéias de convento e de morte. E por que? que havia feito Violante para que assim a julgassem? Ah! infeliz de quem se vê ao desamparo! Se o marido fosse vivo o compadre não lhe diria, com certeza, aquelas duras palavras sobre os filhos; não, não lhas diria.

Ah! o bom tempo da ventura — ela moça e contente, caminhando na vida sem cuidado, à sombra do esposo, com os dois filhinhos à frente, de mãos dadas, rindo, gárrulos, e Fábio a gabá-los, achando-os lindos, carregando-os de brinquedos, empanturrando-os de doces. levando-os aos cavalinhos com a Cristina, sempre triste, doentinha, chorosa. Ah! o bom tempo!

Então era ele quem pedia as crianças, quem as levava para a sua casinha, não fazendo distinção entre elas e a filha, sempre abaetada, a tossir, com o corpinho abotoado em furúnculos. Mas com a morte do esposo todas as boas amizades haviam desertado, o próprio Fábio parecia querer abandoná-la justamente no momento mais doloroso. Pobre dela! Não houvesse ele arranjado a vida conseguindo comprar a chácara do Engenho Novo, que ele não era assim antes, isso não era.

(continua...)

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