Por Coelho Neto (1890)
— Pois vamos tomar uma garrafa de cerveja. Mas eu não como, jantei tarde, disse Amélia.
— Como vai o Moreira? — perguntou o Duarte.
— Não me fales nesse idiota! É um homem impossível: chora, vive sempre ajoelhado a meus pés, a beijar-me as mãos. Ridículo! Eu gosto de homem, homem...! De maricas não venhas! — exclamou em tom brejeiro. Entraram na Maison Moderne e Anselmo ainda insistiu por um pouco de foie gras, uma salada de arenques com vinho do Reno. Amélia fez um momo: "Aceitava apenas um copo de cerveja para não se fazer rogada."
Estavam os dois enlevados, enquanto o Duarte dava conta de um picadinho à baiana com farofa, quando uma voz rouca estrugiu:
— Correto!
— Olha o Neiva, disse Amélia voltando-se. Era efetivamente o boêmio. Vendo o grupo, dirigiu-se à mesa, e arrastando uma cadeira, pediu, num berro:
— Porto! Depois, muito terno, sorridente: Então que é isto? Que armação é esta? Temos amores?
— Já viste olhos mais ardentes do que os deste menino, Neiva? — perguntou Amélia.
— Não, nunca vi... Mas que tenho eu com isto? Pensa você que sou fiscal da iluminação do amor? Pôs-se de pé, ameaçador e trágico: Menina, cuidado! Este meu amigo é um Otelo de paletó saco!
— Mas eu não sou Desdêmona.
— Isso sei eu. Tu és como a Misericórdia: estás sempre de braços abertos. Honesta como fiel de balança. E, com os olhos imensos, a cabeça enterrada nos ombros, rugiu: Fazes muito bem! Saltou para o meio da sala repetindo: Fazes muito bem! E, chegando-se à atriz: O amor tem asas para voar... volúvel! Volúvel! Nada de ficar amarrada a este ou àquele sujeito. Amar é desejar; depois de saciado o desejo vem o tédio e, quando o tédio chega... só o divórcio.
— Pensam assim os inconstantes como tu, disse a atriz. O Duarte, cruzando o talher, tomou um sorvo de cerveja e, depois de limpar os beiços, suspirou:
— Só eu não sou amado! Se me impressiono por alguma menina, no dia seguinte é pedida em casamento. Eu sou o Himeneu. — Qual Himeneu. Jetabore é que és.
Ou isso. Comecei a amar uma viúva com todas as veras da alma, com todo o fogo do coração, pois...
— Vai casar, adiantou Anselmo sorrindo.
— Não, nasceu-lhe um filho.
— Como! — exclamaram os três.
— Ora, como! Vai perguntar ao marido.
— Então é um filho póstumo?
— É verdade! O homem antes de morrer... É assim, hei de sempre encontrar um tropeço no meu caminho.
— Por que não tiras privilégio dos teus namoros?
— Já pensei nisso. Garçom, mais cerveja! Anselmo lançou um olhar apavorado ao Duarte que, percebendo, disse calmamente:
— Descansa homem; estou aqui com o prumo. O Neiva, fazendo uma careta, repeliu o copo enjoado.
— Não bebes mais? — perguntou Amélia.
— Não, filha; aqui onde me vês estou saindo do dique. Ceei ontem em casa da Melanie e foi um estrupício! Só hoje, às duas da tarde, achei a minha cabeça. Ah! Vocês não imaginam: eram umas vinte mulheres e belas! Divinas! Encantadoras e estúpidas como a Vênus de Milo. Havia lá uma Hortênsia, de Guaratinguetá, deliciosa! Quando viu as alcachofras rompeu a rir, dizendo que aquilo nem parecia repolho e pediu queijo para os espargos tomando-os por macarrão. Um encanto!
— E as outras? — perguntou Anselmo.
— Tudo besta! Foi entre a ignorância e a beleza que passei a noite e estou cheio de solecismos e de pecados. Já li uma página purificadora e agora... Tomou um ar beato, espalmou a mão no peito, baixou a cabeça e murmurou: Pretendo amanhecer no Castelo para purificar-me no seio de um capuchinho. Depois da confissão atiro-me ao Gibert. Bem com Deus e com o Gabiso, este é o meu programa. Bramiu: A mitologia está errada! Vênus teve dois filhos gêmeos: Amor e Mercúrio. Estirou-se, amolecido:
— Estou morto! Mas logo, sungando o corpo, dirigiu-se a Anselmo:
— E você previna-se, meu amigo: saia dos braços dessa criatura e mergulhe num Jordão de iodureto.
— Não é preciso, disse Amélia erguendo-se irritada.
— Quê? Estás zangada? Neiva está brincando. Então Neiva não pode brincar...?
— Sim, mas eu não gosto de brincadeiras dessas..
— Está bem, rasgo a receita. Adeus! Vou dar um dedo de prosa ao Vasques. Até amanhã! Foi-se.
— Vamos? — convidou Amélia.
— Vamos.
— Eu fico, disse o Duarte. Sejam muito felizes. E, como o caixeiro apresentasse a nota, ele segredou ao estudante:
— Então? Viste como se manobra? Ainda podes almoçar e jantar amanhã, com vinho. Adeus!
— Boa noite! E os dois saíram aconchegados.
Anselmo propôs tomarem um carro. Amélia, porém, preferiu o bonde e foram, como um casal de noivos, muito juntos, extasiados, de mãos unidas, fazendo protestos de amor até a morte.
CAPÍTULO V
A casa estava em silêncio. A candeia, diante da escada, espichava uma chama comprida e fumarenta alumiando os primeiros degraus, o resto do lance perdia-se na escuridão e foi aí, nesse tenebroso e arriscado sítio, que o primeiro beijo longo selou o juramento passional feito no bonde. Ruy Vaz e Toledo dormiam a sono solto quando os dois atravessaram a sala em passos surdos, a caminho do quarto do misantropo. Anselmo ia riscando fósforos pelo corredor por onde os ratos fugiam atropeladamente.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. A conquista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16594 . Acesso em: 6 abr. 2026.