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#Contos#Literatura Brasileira

Uma Tragédia no Amazonas

Por Raul Pompéia (1880)

A vista do roseiral era de aterrar. Uma fumaça escura se enovelava pelas roseiras, espalhando forte cheiro de pólvora. No chão estavam estendidos três mortos. Dois paraenses e Ruperto haviam já sucumbido. Um dos indivíduos ultimamente engajados jazia ferido junto de uma estaca. Dos outros defensores de Eustáquio um, paraense, desaparecera e os restantes combatiam.

Eustáquio e o padre Jorge, petrificados de espanto, viram sem compreender o verdadeiro* dos paraenses cercado por três homens, de catadura inflamada pela raiva brandindo fouces e punhais sobre ele, e nesses três homens reconheceram os novos engajados!

O paraense defendia-se valentemente a coronhadas, e os seus adversários recuavam para longe, a cada volta que ele descrevia com a sua espingarda segura pelo cano.

Uma palavra repetia ele com indignação:

— Traidores! Traidores!

— Padre Jorge, badrou Eustáquio, que tivera de súbito um pensamento, eles não são traidores!... Ainda há pouco ouvimos um sinal... Era para eles, que, apenas o ouviram, romperam a luta. Não são traidores! Fazem parte da quadrilha que me persegue! Conseguiram introduzir-se em minha casa e estão desempenhando um papel de que foram encarregados!

— Sim, meu amigo, sim! E sou eu quem tem a culpa desta desgraça... Perdoa-me! Um excesso de prudência me fez imprudente... Fui muito precipitado aconselhando-te engajamento de indivíduos que eu não conhecia... mas fui levado por um grande receio de que não fosse suficiente o pessoal que tinhas para tua defesa. Demais, as aparências dos malvados me iludiram!

— Oh! vão matar o paraense! exclamou Eustáquio, que, sem dar atenção ao padre Jorge, acompanhava os rápidos momentos do combate do roseiral.

O intrépido caboclo, que a princípio resistira com vantagem, começava a fraquear.

O marido de Branca levantou a pistola que tinha na mão e, através dos caixilhos, desfechou um tiro... Uma bala foi tocar o peito de um bandido, cuja mão chegara a garganta do paraense. O miserável sentiu afrouxarem-se-lhe os músculos. Ajoelhou-se e caiu de frente sobre o ferido que estava por terra.

Na mesma ocasião uma pancada formidável descarregada pelo caboclo esmagou o crânio de outro inimigo, cujo companheiro restante fugiu para o lado dos fundos da habitação.

Senhor do campo, o paraense arrancou tranqüilamente um pedaço da camisa, rasgada na luta, e com ele limpou o sangue de alguns ferimentos leves que recebera.

Em seguida aproximou-se da janela ocupada por Eustáquio e o seu amigo e pediu-lhes água:

— Entre para beber, disse-lhe Eustáquio.

— E traga aquele desgraçado, acrescentou o sacerdote, indicando o malfeitor ferido, que gemia esforçando-se por livrar-se do cadáver que caíra sobre ele.

Um minuto depois, era o ferido deitado a um canto da sala principal da habitação pelo paraense, que fechou a porta que dava para fora, e, havendo saciado a sede causada pelo combate terrível em que ele tomara parte, contou a Eustáquio o que se tinha passado.

Estavam os paraenses e Ruperto assustados por causa dos estranhos assobios no momento em que viram se transformar a fisionomia dos novos engajados, que eles reputavam seus verdadeiros companheiros. Antes que pudessem servir-se das suas armas, foram atacados violentamente. Um dos paraenses caiu logo morto pelas mãos dos engajados convertidos em inimigos. Ruperto e os outros paraenses, mais ou menos feridos, foram forçados a recuar do lado dos fundos da habitação, onde principiara a luta, até o lado do Iapurá. A retirada, porém, não foi apressada. Tiveram tempo os que a efetuavam de ver um indivíduo de cor branca e cinco negros transporem as paliçadas e, chegando à porta da cozinha, arremessarem-se a ela manejando fouces. Na frente da casa findou-se o combate, depois de sucessivamente rolarem por terra dous paraenses, Ruperto e dous inimigos, mortos, e outro destes feridos, e quando o último dos malfeitores fugiu, entregando com o campo a vitória ao último dos verdadeiros defensores de Eustáquio.

O padre Jorge chegara-se para o ferido. Abrindo-lhe o peito da camisa, descobriu um golpe profundo que lhe dera a faca do paraense. O desgraçado malfeitor estava perdido. Acreditando que o ferido desejava beber água, o padre Jorge, levantando-lhe com uma das mãos a cabeça, com a outra aproximou-lhe um copo da boca. O bandido moveu convulsamente as pálpebras e lançou ao sacerdote um olhar de rancor.

— Beba! insistiu o padre Jorge. O miserável fechou então os olhos e voltou bruscamente a cara. Quis vomitar alguma blasfêmia... Só pôde expelir uma onda de sangue e soltar um grunhido cavernoso, o seu último suspiro.

(continua...)

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