Por Raul Pompéia (1882)
Este sentimento começara pela gratidão de um coração profundamente, infantilmente terno. Fora recrudescendo com o tempo, e era então uma espécie de apaixonamento doentio. A vida que levava, fácil e passiva, concorrera muito para este estado de espírito. Desagradar ao duque era coisa que o horrorizava. Imaginese as torturas que esmagavam-lhe o coração, desde a notícia que recebera pela manhã. Pouco se lhe dava que o demitissem, que a falta de pão reduzisse-lhe a família à esmola; pouco lhe importava, mesmo, que o metessem num cárcere... Queria apenas que o amo não o ficasse odiando pela incúria que dera lugar ao crime...
Era preciso que o duque o perdoasse... Este pensamento lia-se-lhe nos traços dolorosos do rosto...
— Aí vem o mais culpado — disse o duque ao chefe de polícia, vendo aproximar-se o particular. — Não há mais perguntas a fazer, prenda-o e leve-o daqui.
O tom das palavras do senhor de Bragantina não admitia réplicas.
O dr. Louro Trigueiro desdobrou uma das costumadas zumbaias e marchou ao encontro do particular.
— Preso — disse-lhe. — O senhor está preso!
O velho quis falar, mas um violento soluço atravancou-lhe a voz. Pôde apenas dizer doloridamente:
— Preso!
E cobriu os olhos com as mãos.
Nesse momento o duque perguntava ao mordomo:
— Então quando se almoça hoje?
— Esperava apenas — respondeu o mordomo — que o interrogatório terminasse para anunciar a V.Exa. que o almoço está servido.
O chefe de polícia, apesar da rijeza de coração, peculiar aos instrumentos da justiça pública, sentiu-se comovido à vista do sofrimento do particular.
— Venha almoçar, dr. Louro... — disse-lhe o duque retirando-se para o interior do palácio.
O sofrimento daquele pobre ancião, incapaz de causar o menor dano, aquela voz ardente desfazendo-se no pranto que saía-lhe por entre os dedos ressequidos da mão com que cobria o rosto, as lágrimas pungentes daquela boa criança de sessenta anos, tudo era digno de uma delicadeza filial, mesmo da parte de um representante da Justiça. Mas o duque acabava de chamar-lhe para o almoço...
O dr. Louro Trigueiro teve pois de entregar ao seu delegado o novo preso como entregara Inácio.
O delegado retirou-se com os presos e foi encontrar o colega, que por essa ocasião voltava com Manuel de Pavia das despedidas que esse fora fazer.
Minutos depois, dois carros saíam pelo portão principal da quinta de Santo Cristo.
Um dele transportava Manuel de Pavia e Inácio, guardados por um dos delegados e um policial disfarçado; o outro levava o velho particular, vigiado, ou melhor, sustentado para não cair no tapete do veículo, pelo segundo delegado.
Iam para a casa de detenção.
Em caminho, Manuel de Pavia e Inácio trocaram olhares expressivos, enquanto os homens da polícia se distraíam vendo os basbaques que paravam nos passeios para espiar o interior do carro. Inácio, que sentira um violento susto ao ver que o ladrão das jóias fora preso, percebeu que aqueles olhares significavam que tudo ia bem. Tranqüilizou-se...
O carro do particular parecia mais rodar para um hospital com um doente do que para uma repartição de polícia com um criminoso.
CAPÍTULO XII
Sem novidade passou-se o dia. Depois dos interrogatórios, caiu a brisa do extraordinário e a vida do palácio voltou à calmaria podre da sua insipidez eterna.
Findo o almoço, o marquês d’Etu e o chefe de polícia, deixaram a morada do senhor de Bragantina.
— Deixo tudo nas poderosas mãos de V. Exa., — disse o chefe de polícia, ao despedir-se do duque. — Confesso a minha impotência neste emaranhado negócio. Diante de certas dificuldades, não há remédio senão confessar-se a gente obtuso... Juro-lhe que aquela corda do gancho lança-me num oceano de dúvidas e hipóteses que confundem-me toda a perspicácia... Mas o que para mim é um obstáculo, pode não sê-lo para a perspicácia de Vossa Excelência... Realmente entre nós, permitindo a familiaridade, entre nós há a distância que vai de soberbo carvalho para o débil trigo... Desde que Vossa Excelência deseja honrar a polícia, revestindo-se do caráter dela, nada mais tenho a fazer do que curvar-me à imerecida honraria e fico inteiramente sossegado. Há de fazer o carvalho o que não pôde o trigo...
Estes cumprimentos eram a conclusão e a conseqüência de uma conversa que houvera durante o almoço do duque.
Estavam dois carros na larga avenida de frente do palácio. Um deles pertencia ao marquês d’Etu, o outro esperava pelo chefe de polícia.
Antes de se separarem o marquês e o chefe, o príncipe dos cortiços, que não estava mais tranqüilizado, apesar da certeza que o duque lhe dera de que haviam de ser achadas as jóias, disse ao funcionário em despedida:
— Vejam lá!... Vejam lá!... a época não está boa... eu levanto os aluguéis...
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. As joias da coroa. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17439 . Acesso em: 6 abr. 2026.