Por Raul Pompéia (1881)
Não se trata de um anacronismo superficial de fardamento. Como encenação de ridículo isto já é uma utilidade eficaz. Cristo, por exemplo, que nos entrasse agora pela cidade em figurino de cartilha a evangelizar as massas de cima do burrico de Betphage, de dentro de uma amostra das alfaiatarias da Galiléia. No batalhador manchego a caricatura é mais odiosa e mais profunda. O escritor o concebe em alma e vestuário na idade de ouro do cristianismo, ao tempo em que a espada era a força, mas o punho da espada era a cruz. E toda a memória sagrada daquelas eras vive pungente nos traços carregados do grotesco; e com as vaias de riso que envolvem o herói, roda de mistura todo aquele sonho sublime de virtude ultrajado pela nossa compaixão.
O livro é cruel. Não foi poupado ao pobre louco nem o suplício final da desilusão: fitar do leito de morte a vacuidade da sua existência de nulos combates e esforços vãos. Ele viu no terrível momento, que vivera enganado e triunfara sonâmbulo; que as palmas de Barcelona valiam antes o convulso alarido da populaça do Ecce Homo. Só então morreu, sob as lágrimas da sobrinha, sob o olhar sereno do cura, para reviver em espírito, da vitalidade invencível do Ideal, na pátria azul altíssima dos que sonham.
D. Quixote é o símbolo moderno do Bem. Todos os ideais vão passando. D. Quixote fica. Nesta idade de pessimismo e de ironia, vive; porque D. Quixote é o Ideal-sarcasmo. Sua filosofia ri, como se nascesse de Voltaire.
No fundo do cárcere a que o levara a ingratidão dos homens e a calúnia, Cervantes quis forçar às alegrias o honesto despeito de uma alma cruciada. Quis compor um poema de risos e produziu um libelo de vingança. Não há resistir à lei de unidade lógica dos cérebros. Outra não podia ser a resultante dos desesperos concentrados de uma vida inteira de heroísmos esquecidos e sacrifícios, outra a explosão do seu espírito soberano, gênio e bravura, acanhado nos melhores dias sob o favor de Mecenas que lhe impunha a gratidão como uma libré de casa nobre. Vítima do egoísmo e da prepotência, descrendo talvez, prelibara os desgostos de uma sociedade de um século por vir, em que não fosse mais possível o recolhimento e o amparo de uma instituição de caridade como ainda ele alcançou. O poema nasceu assim, saturado de fel, o molho das agonias, tão grato ao paladar moderno dos espíritos.
D. Quixote é nosso contemporâneo. E o simbolismo será tanto mais expressivo, tanto mais presente, quanto mais espessa for a atmosfera moral dos desânimos, quanto mais longe forem os tempos da vesânia generosa da humanidade.
No Vaticano, metrópole vastíssima e brilhante da Crença, onde se encontra também por toda a parte estampada a visão do Cristo na Cruz, vencido e agonizante, ou então feliz e transfigurado na glorificação fácil do colorido, exibe-se a mais bela memória de Hércules que nos deixou o passado. Lá está, respeitável ainda e temeroso, o Torso de Apolonius, o torso mutilado do Herói, vergando num desespero de musculatura, por arrancar-se à paralisia de pedra em que o esculpiram: sem pernas, sem braços, como o despacharam para a posteridade - o Leão mitológico da Justiça enjaulado na impotência da morte.
Triunfem as panacéias sociológicas, quando em remoto futuro, lavrada a superfície do globo pelo ferro de muitas civilizações, São Pedro e o Coliseu confundidos na fraternidade niveladora do acabamento - curioso há de ser a melancolia do investigador, comparando no Museu das Antiguidades, em meio dos destroços restos da velha Arte, o ideal de um tempo em que a Bondade era Hércules, o Torso, e o extenuado simbolismo do cavaleiro de Cervantes.
E a humanidade da época descerá, colhendo as asas de anjo da regeneração, a estudar nesse paralelo um terrível capítulo de história moral, e há de aprender quantas dores suaram os séculos para que perpetuamente não fosses, oh! criatura! ao lado das imagens dolentes da Suprema Bondade - a imprudência apaixonada de Dejanira, a vacilação covarde de Pilatos, a gana esfaimada do Pausa, trincando ao espeto a gorda vitualha de Camacho.
Raul Pompéia
A CLARINHA DAS PEDREIRAS
Capítulo X
A Flor Vermelha
Uma pedreira representa nada menos que esse bichinho vil da terra, como chamava o reiharpista do Velho Testamento, o átomo inteligente, arcando com a majestosa enormidade do granito. Diante daquela muralha vasta, branca a doer nos olhos, ligeiramente veiada de negro, sonha-se com os dias infernais, em que as erosões vulcânicas rasgavam a virgindade do solo do planeta em formação, encarreirando as serranias, como dentaduras arreganhadas para o céu; e se imagina depois que um pobre diabo de homem, com alguns punhados de pólvora na mão e uma simples agulha de ferro e uma caçamba d'água, sem ouvir os cânticos sangrentos da corneta, sem avistar os acenos eletrizantes das cores de uma bandeira, marcha tranqüilo a destruir a construção formidável dos cataclismos do passado...
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. 14 de julho na roça. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7632 . Acesso em: 6 abr. 2026.