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#Sermões#Retórica

Sermão da Quarta-Feira de Cinza

Por Padre Antônio Vieira (1672)

Assim argüi amorosamente queixosa a devoção, mas tem fácil e mui inteira resposta a sua piedade. A um afeto amoroso da alma responde a razão com outro afeto mais amoroso de Cristo, e diz que maior amor é em Cristo o não se deixar ver, do que na devoção o desejar vê-lo. Ainda que Cristo se não deixa ver de nós, é certo que se deixou conosco, mas deixou-se de maneira que o não possamos ver, porque fiou mais seu amor de nossos desejos que de nossos olhos. O fim para que Cristo se deixou no Sacramento, foi para que os homens o amássemos. E sendo que o maior conhecimento é cousa do maior amor, amam os homens mais finamente a Cristo desejado por saudades, do que gozado por vista. Se eu me não engano, tenho bem imaginada a prova desta verdade. Saudoso S. Paulo de se ver com Cristo, dizia assim: Desiderium habens dissolvi et esse cum Christo34. Oh! quem me dera que a minha alma se desatara e desunira do corpo, para poder estar com Cristo! Tendo isto assim, se perguntarmos aos teólogos, se as almas que estão vendo a Cristo têm algum desejo, resolvem todos que sim, e que desejam unir-se com seus corpos. Pois, dificulto agora e parece que apertadamente, se as almas que estão vendo a Cristo desejam unirse a seus corpos, por que diz a alma de S. Paulo que desejara desatar-se de seu corpo para ir ver a Cristo: Desiderium habens dissolvi et esse cum Christo (Flp. 1, 23)? A razão é porque Cristo, em respeito das almas dos bem-aventurados, é gozado por vista, e em respeito da alma de S. Paulo, era desejado por saudades, e o amor de Cristo desejado por saudades é muito mais eficaz nesta parte, ou mais afetuoso, ou mais impaciente, que o mesmo amor de Cristo gozado por vista. Cristo gozado por vista, ainda deixa amor a uma alma para desejar unir-se a seu corpo; mas Cristo desejado por saudades, até a união de seu próprio corpo lhe faz aborrecível: Desiderium habens dissolvi et esse cum Christo. E como a Cristo lhe vai melhor com as nossas saudades que com os nossos olhos, por isso se quis deixar em disfarce de desejado, e não em trajos de visto. Descoberto para os olhos, não; encoberto sim para as saudades. Conheça logo a nossa devoção que é fineza, e não implicação do amor de Cristo, o deixar-se invisível naquele mistério, e confesse não só a nossa fé com os olhos fechados, senão o nosso amor com os olhos abertos, a verdade amorosa daquele Vere: Vere est cibus, vere est potus.

§ VIII

Sétimo inimigo: o político. Os políticos argumentam com a autoridade: Como é possível que o monarca ao universo se exponha assim a todos, cercado só de uns acidentes de pão! – Razão: Onde se conquisiam venerações, não se perde autoridade. A lançada da lado de Cristo e a Igreja. A construção da igreja de Santa Eustáquia, e os muros de Lisboa.

Ultimamente argumenta o político, e do mesmo caso que deu ocasião a esta solenidade infere não estar a pessoa soberana de Cristo naquela hóstia. Os príncipes de nenhuma coisa são nem devem ser mais zelosos que de sua autoridade. Já arriscar e expor a soberania da própria pessoa a perder vir às mãos de seus inimigos, antes perderá um príncipe a vida e mil vidas, que consentir tal afronta. E se não, lembre-se a fé do primeiro rei de Israel. Perdida a batalha dos montes de Gelboé contra os filisteus, achava-se Saul tão malferido, que nem se pedia retirar nem defender. E que resolução tomau neste caso? Tira-me por esta espada, disse ao seu pajem da lança, e mata-me: Ne forte veniant incircumsisi isti et interficiant illudentes mihi: Por que não venham estes infiéis, e me tirem a vida, perdendo o respeito (1 Rs. 31, 4). Pelo respeito e pela autoridade o havia, e não pela vida, pois se mandava matar: Não teve ânimo o criado para o executar, e lançando-se o mesmo Soul sobre a ponta da sua espada, caiu morto por não cair nas mãos de seus inimigos. Assim estimam os príncipes, e assim devem estimar mais a autoridade que a vida. Pois se tanto preço tem na estimação dos monarcas supremos a autoridade e soberania de suas pessoas, se antes quer um rei generoso tirar-se a vida por suas mãos, que poder vir às de seus inimigos, como é possível nem crível, que o príncipe da glória, Cristo, que o rei dos homens e dos anjos, que o monarca universal do céu e da terra, deixasse tão mal guardada sua autoridade, e tão pouco defendido seu respeito, como é força que o esteja, cercado só de uns acidentes de pão? Como é possível, nem crível, que deixasse tão arriscada e exposta a majestade divina de sua pessoa a cair nas mãos infiéis e sacrílegas de seus inimigos, como publicam as memórias deste dia, e a ocasião e o nome destes desagravos?

(continua...)

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