Por Lima Barreto (1911)
— Não convinha alongar o debate — observou Gerpes.
— É... O Bastos quer mostrar que não são só os deputados do Estado dele que o defendem, mas o partido inteiro.
Abriu o Diário Mercantil e correu ligeiramente os olhos sobre a folha.
— Leste o artigo do Fuas Bandeira? — perguntou Gerpes.
— Li.
— Definiu-se.
— É um aviso seguro.
Nada mais disse, encolheu-se, pondo-se a ler o jornal que desdobrara. Martinho era uma das culminâncias da política republicana. Não era só a sua fama de talento e a grande reputação de clínico que lhe davam um grande prestígio; concorria também para isso a estranheza de suas vidas e dos seus gostos.
Alcandorado em um casarão, vivia sibaritamente isolado, cercado de livros, de curiosidades e de sapos. Tinha uma coleção de batráquios de todas as regiões do globo. sapos gigantes, sapos minúsculos, sapos com chifres, sapos com cauda, até um imenso e desmedido sapo, remanescente de uma idade morta, adquirido por alto preço a um paleontologista americano.
Em matéria de amor, era curioso. Não conquistava, não namorava, não flertava, não amava; comprava. Tal dama assim que desejasse, mandava dizer: dou tanto. Às vezes, era um encontro rápido, um cochicho; em outras, o capricho vinha e o caso se demorava meses.
Tinha em si o enfado de Tibério, mas sem ter a sua grandeza monstruosa. Faltavam-lhe o tempo e o sentimento artístico, para selar seus atos com uma exuberância impudica. Moço, trabalhara muito; e feio, vivera sempre à parte das mulheres. Chegando à grandeza, à riqueza, vingava-se, tratando a metade da espécie com mais desprezo que os sapos dos seus tanques.
Por vezes, sentia remorso do seu proceder e o arrependimento vinha todo carregado de ingênuas manifestações sentimentais. Foi talvez em uma dessas crises que, quando ministro, o fez determinar que o busto da República, mandado esculpir para o seu gabinete, tivesse a feição de uma das suas amantes mortas.
Gostava da fama de frio, de cético, de cruel, mas o que havia de mais exato era um cansaço, um esgotamento do seu forte sentir por muito tempo sopitado e nunca bem encaminhado.
Edgarda considerou um pouco aqueles dois homens. Martinho lia com a cabeça baixa, pescoço enterrado, jornal quase sobre os joelhos. Gerpes tinha o pescoço em pé e o pince-nez à altura dos olhos. Neste a audácia espontânea, naquele, o cálculo laborioso.
A esposa de Numa ainda olhava a cidade que a esperava lá em baixo. O bonde caminhava e agora era o esforço para detê-lo na descida que o fazia guinchar nos trilhos.
O acaso que traçou a cidade, parece ter deixado aqui e ali pequenas ruas, travessas, becos, próprios aos amores que não podem ser suspeitados.
Ao lado das ruas principais, ficam o seu sossego e discrição para asilar os amorosos, evitando-lhes grandes rodeios e afastando as suspeitas de quem os vê por elas.
Casas há ainda mais favoráveis aos que amam fora da lei; são as que tem duas ou mais entradas para ruas diferentes. Essas, porém, só são achadas nas ruas centrais, onde o temor de encontrar conhecidos não permite que os apaixonados prudentes as procurem.
Contudo, os mais afoitos e menos cautelosos não as desprezam; e, das ruas centrais, escolhem aquelas mais compridas, as que se alongam até o Campo de Santana, em cujas proximidades, então, armam seus ninhos amorosos.
Esses espécie de amorosos são os médios, aqueles que dispõem de pequenas fortuna ou razoáveis rendimentos; aqueles, porém, que têm maiores recursos fogem dos caminhos batidos, procuram asilos mais seguros e confortáveis.
Escolhem essas travessas mortas em ruas de pouco movimento e a pouca distância da cidade, e de onde, em dez minutos, possam voltar à rua do Ouvidor.
Há sempre uma velha ou um casal complacente, antigos fâmulos da casa, protegidos da senhora ou do amante, que simulam a vizinhança serem donos da casa e acolhem generosamente o amor clandestino.
A nossa população é bisbilhoteira; os nossos vizinhos estão sempre a saber o que fazemos e nós o que eles fazem, de modo que é preciso precauções de estrategista, planos de peles-vermelhas para despistar a vigilância gratuita dos curiosos e fazer calar as suspeitas de sua bisbilhotice idiota.
Quem visse D. Edgarda, após descer um pequeno trecho da ladeira de Santa Teresa, tomar um bonde do Rocio Pequeno, havia de julgar que ia apanhar condução que a levasse ao Rio Comprido ou à Tijuca, par fazer alguma visita. O seu ar natural, a sua atitude de inteira tranqüilidade davam a entender que continuava a cumprir os seus deveres sociais de grande senhora; entretanto, antes que o veículo começasse a trepar a ladeira que existe quase ao fim da velha azinhaga de MataCavalos, ela saltou muito naturalmente, apanhou a calçada, dobrou esta e aquela rua e entrou com segurança em uma casa modesta. muito pobre de aparência.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)BARRETO, Lima. Numa e a ninfa. Brasília, DF: Ministério da Educação, Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16822 . Acesso em: 29 abr. 2026.