Por Coelho Neto (1890)
Havia enchente. O jardim fervilhava e era um rumor confuso de vozes altas, estrondosas gargalhadas, estouros de garrafas. Cocottes, às duas, às três, de braço dado, iam e vinham; na platéia e nas torrinhas, era um bater estrepitoso de pés e de bengalas. Na orquestra os músicos afinavam os instrumentos quando a campainha retiniu e houve como uma inundação de luz e um grande "oh!" encheu o teatro com a expansão de todas aquelas almas ansiosas.
Subiu o pano. Anselmo, junto à orquestra, entalado entre os curiosos, muito espichado, procurava descobrir Amélia, mas a atriz não havia ainda aparecido, o coro apenas vozeirava. Rompeu uma salva de palmas... Seria ela? esticou-se: não, era o Vasques, todo de amarelo, com um girassol à cabeça. Mas uma pancada metálica de gongo vibrou sonoramente, espiou e sorriu, com o coração à boca. Era Amélia, de fada, iluminada por um jorro de luz, num carro tirado por dois cisnes. Vestia túnica recamada de pedrarias, à cabeça o diadema encimado por uma estrela que cintilava, em punho a vara mágica, braços nus, as pernas no maiô muito justo, coturnos nos pés... Divina!
Ele esforçava-se por conseguir tomar a frente ao grupo para que ela o visse, mas não podendo vencer a barreira humana, resignou-se a ficar em pontas de pés, angustiado, suando, a ouvir, com delícia, as palavras proféticas que ela ia dizendo aos da corte do rei, um monarca pançudo e ridículo, que caminhava aos saltinhos agarrado aos ministros... E com outro estrondo metálico Amélia desapareceu.
Que mais tinha ele a fazer ali naquela espécie de lugar? Retirou-se, com a mão no bolso, apalpando o dinheiro, receoso de que algum gatuno astuto o levasse, deixando-o desprevenido para a ceia.
No jardim encontrou o Duarte, a rir, num grupo de mulheres. Chamou-o à parte e, narrando-lhe a aventura em que estava empenhado, pediu o seu auxílio, mas o poeta estava in albis, tinha apenas o níquel da passagem. Olharam-se; de repente, porém, o autor das Boêmias disse com segurança:
— Espera-me aqui. Vou ver uns casos. E foi-se. Anselmo, posto que ardesse em sede, não se atrevia a tocar no dinheiro que reservava avaramente para a ceia. Foi ao balcão e, não sem vexame, pediu um copo de água. Começava o terceiro ato. O estudante já estava resignado à sua fortuna módica, quando o Duarte reapareceu esbaforido:
— Ah! meu amigo, que trabalhão! — e passou-lhe um rolinho sorrateiramente, segredando: Tens aí dez. Mas não te metas mais em complicações aos domingos. O domingo é um dia impossível: as nossas carteiras não aparecem, ficam repousando nas chácaras, de paletó branco e chinelas. Faze tudo quanto quiseres da segunda-feira ao sábado e descansa ao domingo, porque o Senhor mandou e porque não há meio de arranjar-se um níquel. Suei para conseguir essa miséria: tive de ir à rua da Candelária recorrer a um amigo. Felizmente encontrei-o à porta tomando fresco.
— Achas que com vinte e cinco posso fazer alguma coisa? — perguntou Anselmo.
— Isso é uma fortuna, homem de Deus! Podes até mandar abrir meia garrafa de champanhe e comprar um maço de cigarros para mim. Vou contigo.
— Tu! — exclamou o estudante aterrado.
— Tens ciúme?
— Não, não é ciúme, mas a quantia... para três.
— Mas eu vou justamente para garantir-te. Fico a teu lado e, se vir aproximar-se alguém com cara de canja ou de grogue... porque eu, pela cara, sei o que os manos farejam, dou o brado, compreendes? Fico de guarda e, mesmo, sendo necessário, podes deixar-me como refém.
— Então sim.
— Olha, acabou. Efetivamente o povo saía em massa. O estudante respirou e foi postar-se junto ao botequim que os caixeiros fechavam. Apagaram-se todos os bicos de gás, o pano de boca subiu e o palco apareceu nu e sombrio. Começaram a sair os atores e Anselmo, sempre que via aparecer, ao longe, uma mulher, movia-se como para ir-lhe ao encontro, mas o Duarte detinha-o:
— Não! Não é. E, intimo dos artistas, dirigia cumprimentos a todos que passavam: "Adeus, Chico! Boa noite, Guilherme! Como vai isso, Lisboa? Bravos à comadre."
— Aí vem ela...! disse, por fim. Era Amélia, muito tesa, com o seu passo miúdo e sacudido. Encaminhou-se para o botequim e, com meiguice, roçando pelo estudante como uma gata amorosa, perguntou: "Se ele havia aturado aquela estopada...?"
— Por tua causa... murmurou ele apaixonadamente e ela, lânguida: — Hei de pagar-te o sacrifício.
O Duarte curvou-se dizendo em tom irônico:
— Muito boa noite, senhora duquesa!
— O Duarte! Estavas aí? Se fosses cobra.
— Não mordo, madame.
— Nem eu sou mordível, respondeu ela a rir e, tomando o braço de Anselmo, muito aconchegada, sussurrou:
— Fazes muito empenho em cear?
— Eu? Se quiseres. Estou por tudo.
— Então vamos para casa.
— Isso não! — exclamou o Duarte; vamos festejar o himeneu com uma Einbek gelada, já que não podemos regar o epitalâmio a champanhe.
— Pois vamos, disse Anselmo passivamente.
— Eu entendo que vocês devem tomar uns ovos quentes e um cálice de Porto. Eu cá sou assim: não embarco para Citera sem levar copiosas provisões. A viagem é longa e fatigante.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. A conquista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16594 . Acesso em: 6 abr. 2026.