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#Contos#Literatura Brasileira

Uma Tragédia no Amazonas

Por Raul Pompéia (1880)

"O menino retirou-se e foi prosseguir na admirável missão que encetara, havia tão longo tempo, salvando nesse mesmo dia a tua Rosalina e avisando-te depois do ataque que os teus inimigos tencionam dar hoje a esta casa.

"Assim, pois, é o valente Otávio Dugarbon o defensor que tantos serviços te há prestado, graças às suas excursões, em uma das quais eu o surpreendi, na noite de 13, que permitem-lhe conhecer os planos tenebrosos dos teus perseguidores.

"Uma cousa talvez te pareça ainda inexplicável: o incógnito de que o bravo Otávio se queria cercar...

— De modo nenhum, padre Jorge. Eu bem compreendo o procedimento do incomparável menino. Ele receava que, em atenção à sua pouca idade, tivésseis vontade de dissuadi-lo das suas resoluções. Por isso, apenas comunicou-vos o seu segredo depois de obter a promessa de que vós não oporíeis ao cumprimento do seu juramento. Não acreditou que me havíeis de dar a conhecer esse segredo e não vos impôs a condição de fazer o contrário, mas vós, dando-mo a conhecer, alcançastes de mim um compromisso que me imobiliza tanto quanto te imobilizou a palavra que deste ao menino. Nada mais do que vós eu posso fazer relativamente ao meu defensor.

— Nem devemos fazer cousa alguma, Eustáquio. A missão daquele rapazinho não vulgar me parece providencial. Deixemo-lo obrar livremente.

Alguns minutos depois que o padre Jorge calou-se, Eustáquio perguntou a Branca e à sua pequena protegida se desejavam ir para S. João do Príncipe, a fim de que não presenciassem o combate com os malfeitores, o qual não havia tardar.

Ambas responderam-lhe simultaneamente que não, porquanto, além de não nutrirem desejo de se apartar dele, não viam perigo algum em permanecer em um lugar tão bem defendido.

Eustáquio concordou com elas. O padre Jorge foi da mesma opinião.

— Deus não permitirá, disse este, que a boa causa sela vencida.

CAPÍTULO XIV

A TRAGÉDIA

Uma dessas tardes enfadonhas de céu cor de chumbo invadia a passos lentos a natureza. As últimas horas do dia pouco destoavam das primeiras. Aos golpes do vento que soprara pela manhã sucedera uma aragem úmida, que punha em agitação os ramúsculos tenros da crista das árvores, e o silêncio no mato se tornara quase absoluto.

Eustáquio e todos os que se achavam com ele sentiam o mal estar que lhes comunicava o tempo. Pelas janelas da casa abertas para o ocidente, podiam ver o sol, que baixava gradualmente para o horizonte, rodeado de nuvens, como gigantesca medalha de ouro envolta em flocos de algodão amarelado; mas as reflexões de cada um não nos deixavam atentar para esse espetáculo.

Depois das últimas palavras do padre Jorge ninguém mais falara. Ninguém se lembrava de que eram horas de jantar. Todos esperavam pelo ataque dos bandidos. Branca com algum medo, Rosalina com impaciência, porque queria ver logo seca a fonte das inquietações dos seus benfeitores. Eustáquio e o seu amigo, confiados nos defensores da casa, só contavam com a sua vitória e o extermínio dos malfeitores. Apesar disso, vagos receios vinham turvar-lhes a tranqüilidade.

Assim estavam quando da orla da mata virgem partiu um assovio estridente.

Eustáquio e o padre Jorge se olharam. Ambos tinham empalidecido. Quase tiveram medo.

Branca e a sua amiguinha os fitavam, esperando que eles exprimissem um juízo acerca do silvo.

— Um sinal! balbuciou o padre Jorge.

Ao pronunciar a última sílaba de "sinal", um outro assobio confundiu-se com a sua voz. A este silvo seguiu-se uma vozeria estrondosa. A algazarra era nos fundos da casa. Eustáquio tomou uma pistola e, passando pelo corredor central, chegou à cozinha. Nesse momento fortes pancadas fizeram tremer uma porta da cozinha que dava para o roseiral e que estava fechada, enquanto vários tiros estalavam da parte de fora.

Eustáquio ouviu também o ruído de estilhaços de vidro que caíram no chão da sala, donde acabava de sair.

— Oh! atacado por dous lados exclamou ele, engatilhando a pistola que empunhara.

A cousa vai mais rápida do que eu esperava, disse o padre Jorge, apresentando-se na cozinha.

— Vai! vai! repetiu Eustáquio em tom gutural. E depois, olhando espantado para o amigo, gritou:

— Estais ferido!

Pelo rosto do padre descia um fio vermelho.

— Isto não é nada!... Um fragmento de vidro tocou-me a testa.

— Que vidro, padre Jorge?...

— Uma das vidraças da sala foi despedaçada por algumas balas. Vem ver!

Eustáquio lançou um olhar à porta da cozinha e, vendo-a solidamente trancada, voltou com o amigo para a sala principal.

Branca, tendo ouvido chorar o seu filhinho, que os tiros tinham acordado, recolhera-se à alcova juntamente com Rosalina e fora acalentar a criança.

No roseiral repetiam-se detonações e gritos.

Uma luta terrível parecia ter lugar aí. Como dissera o padre Jorge, uma das vidraças da sala fora quebrada por alguns projéteis perdidos. Os dous amigos precipitaram-se para ela, que estava menos longe deles, e, sem receio de se cortarem, enfiaram a cabeça pelos caixilhos, que sustentavam ainda agudas pontas de vidro.

(continua...)

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