Por Raul Pompéia (1882)
Deste modo terminou a conversa particular do duque com o dr. Louro Trigueiro.
O marquês d’Etu estava frenético, porque o duque, apresentando-se na sala, não fora imediatamente consolá-lo da desventura de haver perdido um anel de brilhantes.
Consolou-se um pouco, vendo o duque em seguida à conversação que mantivera em voz baixa com o chefe de polícia, mandar chamar os quatro indivíduos a quem se atribuía a responsabilidade do roubo.
O primeiro que apareceu foi o criado fiel a quem tinham sido confiadas as jóias, em casa do marquês de ***.
O criado veio tranqüilo, como se o houvessem chamado para dar uma ordem. A sua fisionomia calma arredava toda a suspeita de que aquele homem fosse cúmplice de um ladrão.
— Sr. duque, sr. dr. chefe de polícia — disse ele gravemente, com uns gestos de homem de sociedade — quando me foram entregues as jóias, dirigi-me incontinenti para aqui. O meu cavalo veio depressa. Reparei bem que ninguém deu atenção à minha carga. Mesmo as ruas estavam quase ermas... Aqui chegando, procurei o sr. particular para dar-lhe o cofre. Não o encontrei. À vista disso tranquei por minha conta as jóias no armário e voltei imediatamente à casa do sr. marquês.
— E o que fez da chave do armário? — perguntou o dr. Trigueiro.
— Levei-a comigo e hoje, quando aqui cheguei, acompanhando o sr. duque, entreguei-a ao sr. mordomo.
O mordomo que estava presente afirmou a veracidade do fato.
— O que diz o sr. dr. chefe de polícia deste depoimento? — perguntou o duque, examinando o semblante do funcionário.
— O que diz V.Exa.?
— Digo que é a garantia da inocência deste homem em todo o negócio...
— Também o digo...
— E acrescento: que patenteia a culpabilidade do particular...
— Realmente... conquanto me pareça que o lacaio podia ter ido à casa do particular, parece-me também que este não devia faltar à hora do serviço...
— Sim, senhor! Houve incúria excessiva... Há motivo de grave suspeita... Ele há de ser preso.
— Será!... — reforçou o dr. Trigueiro fazendo salamaleques... — E será!...
— Agora, ouçamos aquele marmanjo — disse o duque, olhando para a porta da sala que dava para o interior.
Acabava de aparecer um criado de grande estatura; reforçado, figura de tambor de porta-machados. Era Inácio.
Parou diante do duque, com um estremecimento nervoso agitando-lhe os dedos. Estava impressionado.
O chefe de polícia, graças ao faro do ofício, começou a desconfiar daquele sujeito.
O duque tomou a palavra:
— Quem foi que ontem fez o fechamento do lance esquerdo do palácio?
O criado titubeou dois segundos e respondeu com uma voz trêmula:
— Eu...
— E por que deixou abertas as três janelas?
— As janelas estavam cerradas... supus que os trincos estivessem corridos.
— Supôs?... Devia ter verificado...
— Devia! — disse o chefe de polícia.
— Devia!... — gritou o marquês d’Etu, que acompanhava com grande interesse o interrogatório...
— Suspeito muito desse descuido... — falou o senhor de Bragantina.
— Eu também... — ajudou o chefe de polícia, como quem diz ora pro nobis.
— Também eu! — tornou a gritar o príncipe dos cortiços.
— Sr. dr. Louro — disse o duque —, este criado deve ser detido como suspeito...
— Assim me parece...
— Assim deve ser... — afirmou o marquês d’Etu. — Já disse ao sr. Trigueiro que desconfio de todos; desconfio muito particularmente deste senhor e do tal particular, que nem ânimo tem de apresentar-se.
Em seguida, o chefe de polícia ordenou a prisão de Inácio, confiando-o à guarda do delegado presente e disse que estava livre o primeiro criado interrogado.
Pouco depois de Inácio apresentara-se o criado Joaquim, encarregado como ele pelo fechamento do palácio. Como, porém, o serviço do lance esquerdo não correra por sua conta na véspera, foi inútil interrogá-lo.
Chegou a vez do particular.
O velho sexagenário entrou na sala. Tinha os olhos injetados ainda de choro. O seu andar era trôpego como se houvesse sofrido um acréscimo de dez anos de idade..
Todos os que se achavam no lugar sentiram no peito um pancada de compaixão.
Ser-se severo com aquele homem era uma crueldade!
O particular encaminhou-se trêmulo, cambaleante, para o duque.
Ia pedir perdão. Ia declarar-se culpado, mil vezes culpado, arremessar aos pés do amo toda a sua grande existência de atenções contínuas para com ele; fazer dos seus cabelos brancos tapete para todas as iras do fidalgo, rastejar no chão, chato como a humildade, não para que o não punissem, punissem-no duramente; mas, para que o duque de Bragantina perdoasse a ofensa que lhe fizera a sua incúria.
O particular tinha pelo amo uma veneração que tocava as raias do amor.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. As joias da coroa. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17439 . Acesso em: 6 abr. 2026.