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#Sermões#Retórica

Sermão da Quarta-Feira de Cinza

Por Padre Antônio Vieira (1672)

Daqui se segue que neste mistério, nem o diabo pede ser tentador, nem o homem tentado. O diabo não pede ser tentador; porque se o diabo me quiser tentar na fé do mistério da Eucaristia, respondo-lhe eu assim: Quando tu, diabo, falaste a Eva, ou mentiste, ou disseste verdade. Se mentiste, não te devo crer, porque quem mentiu então, também mentirá agora. E se falaste verdade, também te não devo crer; porque se falaste verdade, pede Deus pôr divindade naquele pomo. Pois se Deus pede pôr divindade em um bocado, isso mesmo que tu concedes, é o que eu creio. Vai-te embora, ou na má hora. Também o homem não pode ser tentado porque, se o homem é pensamento de Ruperto; se o homem creu ao diabo quando lhe disse que comendo seria como Deus, como há de deixar de crer a Deus quando lhe diz o mesmo? Principalmente que o que o diabo dizia, não cabia na esfera da onipotência, e o que diz Cristo sim. A onipotência de Deus enquanto autor da natureza, tem menor esfera que a mesma onipotência de Deus enquanto autor da graça, porque a onipotência de Deus, enquanto autor da natureza, só pode produzir efeitos naturais, e por virtude natural não pedia estar a divindade em um pomo. A onipotência de Deus, enquanto autor da graça, pode produzir efeitos sobrenaturais, e por virtude sobrenatunal pode a divindade estar em um bocado. Pois se os homens foram tão inocentes que creram um impossível ao diabo, porque hão de ser tão irracionais, que neguem um possível a Deus? Desengane-se logo o demônio que neste mistério não só nos não pede vencer, mas nem ainda nos pode tentar, e confesse obrigado de sua mesma tentação a verdade daquele Vere, que como pai da mentira tem feito negar a tantos. Vere est cibus, vere est potus.

§VII

Sexto inimigo: o devoto. Mais por excesso de amor que por falta de fé, queixa-se o devoto dos acidentes que encobrem Cristo a seus olhos. Razão: os homens amam mais finamente a Cristo desejado por saudades do que gozado por vista. O desejo de S. Paulo.

O devoto, não por falta de fé, mas por excesso de amor, e mais queixoso dos acidentes que duvidoso da substância, por parte do seu afeto argüi assim com o mesmo Cristo: a minha fé com os olhos fechados crê firmemente, Senhor, que estais nesse Sacramento; mas o meu amor com os olhos abertos não pode entender, nem penetrar, como seja possível esta verdade. Se, partindo-vos da terra, quisestes ficar na terra, foi para satisfação do vosso amor e para alívio do nosso; para crédito de vossas finezas e para remédio de nossas saudades. Assim o disse aquele grande intérprete dos segredos de vosso coração neste mistério: De sua contristatis absen tia solatium singulare reliquit32. Pois se ficastes para nossa consolação, como vos encobris a nossos olhos? Se foi amor o ficar, como pode ser amor o ficar desse modo? Ficar, e ficar encoberto, antes é martírio do desejo que alívio da saudade. Por certo que não eram esses antigamente os estilos de vosso amor, nem da sua paciência. En ipse stat post parietem nostrum respiciens perfenestras; prospiciens per cancellos33. Havia sim, entre vós e a alma vossa querida, uma parede, mas com a parede ser sua, havia nela uma gelosia vossa por onde a víeis, e por onde vos via. Para não podermos ver vossa divindade, é nossa a parede deste corpo; mas para não vermos vossa humanidade, vossa é a parede desses acidentes. Pois, se os impedimentos e estorvos da vista são vossos, e vosso amor é onipotente, como quereis que creia o meu amor uma tão grande implicação do vosso, como é amar-me tanto e não vos deixardes ver? A fé o crê muito a seu pesar, mas o amor não o sofre nem o alcança, nem o pode deixar de ter por impossível.

(continua...)

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