Por Lima Barreto (1911)
Felicianinho... É Felicianinho para aqui, é Felicianinho para ali... Nem para Macieira, que é seu filho, nem para mim, nem para o Orestes, que é seu neto, ela tem os mimos que tem para o Felicianinho.
— Ora! Vocês foram felizes; tiveram pai e mãe e fortuna... Ele é órfão e pobre — não acha que faço bem, Edgarda? Neste mundo, a falta de amor, de carinho, faz mais mal do que a do dinheiro, não é?
— Não há dúvida que sim, mas, às vezes, também estraga — aduziu Edgarda.
— Isso é quando se trata desse amor por aí — fez a velha — mas o da mãe, nunca é demais.
Quando na rua, a mulher de Numa hesitou em se firmar na natureza do sentimento da velha D. Alice. Às vezes, parecia-lhe um simples amor de mulher; em outras, um grande amor de mãe; mas, afinal, concordou que havia as duas coisas juntas, misturadas de tal forma que não se podia saber qual dos dois sentimentos dominava.
O que mais a impressionou, não foi a certeza a que ela chegou de haver em D. Alice uma curiosa mistura ou combinação daqueles dois sentimentos tão diferentes; o que mais admirou foi a candura e a inocência que a velha revelava falando daquele jeito dos seus sentimentos pelo rapaz.
Sentia-se desculpada, perdoada, não porque o amasse como mulher, mas porque amava também o rapaz como mãe; seguia-lhe os estudos, socorria-o de todo o jeito, trazia-lhe sempre diante dos olhos o futuro e a glória.
D. Edgarda já estava no bonde que parou um pouco adiante para dar entrada a um senhor alto que todos os passageiros cumprimentaram. O senador Carlos Gerpes entrou no veículo com agilidade e desempeno. Olhou com aquele seu fino olhar os circunstantes, olhar sempre para frente, de quem beira precipícios. Não tardou em dar com Edgarda e veio colocar-se num banco, adiante, de modo que lhe pudesse falar.
— Já sei — disse ele — que o Numa, hoje ou amanhã falará sobre o orçamento do Exterior... Deve fazê-lo. É moço e convém aparecer... Hoje, a minha atividade está reduzida; mas, na idade dele, não perdia vasa... Foi ao Lírico?
— Ainda não. Numa não tem podido ir... O senhor sabe...
— Deve ir. Que propriedade, que naturalidade! Os papéis de amorosa então ela os faz muito bem... O amor moderno... Não há aquelas imprecações, aqueles estos antigos... Oh! É perfeito!
Quem o visse falar assim e mesmo na tribuna, não suporia que toda a sua educação e instrução se fizera nos comícios, clubes eleitorais e assembléias políticas; e fora neles que aprendera desde as boas maneiras até finanças, desde noções de aritmética até literatura — o bastante para ser uma notabilidade política, com influência e vencendo todos os obstáculos à manutenção de sua situação. D. Edgarda explicou melhor por que não tinha ido ver a famosa atriz:
— Numa anda muito atrapalhado... Muito trabalho!... Conferência com este e aquele... As coisas andam tão turvas...
— Turvas! Qual turvas, minha senhora!
Sentou-se melhor no banco e continuou com toda a simplicidade:
— A senhora quer saber de uma coisa... Olhe, minha senhora, vou lhe contar uma história antiga, mas que tem muito ensinamento.
— Para a política?
— Para tudo, minha senhora. Para tudo! Quer ouvi-la?
— Pois não, Senador!
— Um negociante voltava de longe, onde fora comerciar e trazia no navio em que estava embarcado toda a sua fortuna. De repente, arma-se uma tempestade; e, diante da ameaça do naufrágio, o negociante promete que se se salvar mandará rezar em todos os altares da primeira igreja que encontrar, missas em ação de graças aos santos respectivos, iluminado a igreja completamente. Feita a promessa a tempestade amainou e é salvo. Chegando em terra, cumpre a promessa. Vai assistir às missas e repara que um canto escuro da sacristia não tinha vela. Chama o sacristão e pergunta por que não acendera o círio ali. O homem responde que ali era o lugar do diabo. Acenda assim mesmo, ordena o negociante. Foi feita a coisa e ele continuou a sua viagem. No meio do caminho foi roubado pelos salteadores que o deixaram, por muito favor, prosseguir a viagem. Desanimado o pobre seguiu; em meio à jornada, porém, encontrou um cavaleiro que lhe perguntou o nome. Respondeu, e o desconhecido, sabendo que havia sido roubado disse: “Não se incomode, venha comigo.” Daí a pouco estava senhor de sua fortuna. O desconhecido indagou: “O senhor sabe quem sou eu?” “Não”, retrucou o negociante. “Sou o diabo”, disse o outro; e desapareceu.
— Compreendeu?
— Pois não, Senador — fez a moça entre um sorriso.
— Eu, minha senhora, não deixo nunca um canto sem vela; e creio que Cogominho faz o mesmo.
Gerpes não pode continuar a expor pitorescamente a sua filosofia política; outro prócer da República veio tomar o bonde ao lado do colega.
— Como vais, Gerpes?
— Como vais, Martinho? Não conheces D. Edgarda?
O novo passageiro pôs o pince-nez e olhou a senhora com um frio olhar perscrutador, olhar de médico, de médico de consultório freqüentado, e respondeu:
— Não tenho a honra...
— D. Edgarda, esposa do Deputado Numa.
— Ah! Bem!... Já sei que seu marido vai falar.
— É verdade — disse a moça.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)BARRETO, Lima. Numa e a ninfa. Brasília, DF: Ministério da Educação, Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16822 . Acesso em: 29 abr. 2026.