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#Romances#Literatura Brasileira

Clara dos Anjos

Por Lima Barreto (1922)

— Tem, "Seu" Nascimento — afirmou Alípio. — Ele é esperto, "é manata escovado".

— Quem é, Alípio? — perguntou Nascimento, indo servir de açúcar a um pequeno.

Os fregueses continuavam a chegar; em geral, eram crianças e mulheres. As suas compras eram pobres: dois tostões disso, quatrocentos réis daquilo — compras de gente pobre, em que raramente se via nelas incluído meio quilo de carne-seca ou um de feijão. Tudo não excedia a tostões. Mesmo atendendo aos fregueses, sozinho, pois os caixeiros tinham ido correr a clientela fixa do armazém, "Seu" Nascimento não perdia o fio da conversa, e ela continuava naturalmente.

Alípio, habituado a isso, não suspendeu a narração e deu a resposta pedida.

— O protetor dele, agora, é um tal Capitão Barcelos, chefe político na estação de***. Tem influência e foi por saber disso que Cassi aderiu a ele. Já nessa última eleição para uma vaga de intendente, ele funcionou com o seu rancho ao lado de Barcelos. Não houve desordens, porque não apareceu outro candidato; mas ele queria fazer uma para ganhar prestígio. Assim e aos poucos, vai ganhando a confiança de Barcelos, a ponto do Freitas, que é o subcabo deste, sentir-se magoado e preterido.

— Quem é esse Barcelos? — fez Nascimento.

— É um português, já com seus cinqüenta anos, bom, bom mesmo; mas, tendo ido para a detenção, pronunciado que estava devido a uns tiros que dera em um sujeito, por lhe ter insultado a mulher, produzindo no meliante ferimentos graves, isto há vinte anos, ganhou lá o gosto pela política e lá aprendeu as primeiras noções dessa difícil ciência. Foi na detenção que...

— Ué! — exclamou Nascimento.

— Também você, Alípio... — fez duvidoso Meneses.

Alípio continuou:

— Lá, ele encontrou um político daqui da Capital, que estava na chácara, a responder processo, como mandante de um assassínio. O homem aproximou-se de Barcelos, e puseram-se a conversar. Não estavam no cubículo; estavam na enfermaria, ou na sala livre, ou em outro compartimento especial. Barcelos narrou sua vida, que, apesar daquele transtorno, não corria

— Mas, "Seu" Alípio, o senhor acredita que haja gente tão malvada, como esse Cassi?

— Há, e não pouca. Sei de tudo que contei de fonte limpa. É a pura verdade.

O doutor Meneses tinha ficado aborrecido com o tom da conversa. Tinha ido à venda, procurar Leonardo Flores, para um negócio particular; e encontrara o Alípio a par das suas relações com Cassi e inteirado da vida deste. Diabo! Estaria se comprometendo? Havia já tomado quatro copitos de parati; mas, quando se despediu, tomou um grande. Caminhando pôsse a pensar;

— Que devia fazer?

Pegou diversas hipóteses e concluiu:

— Ir até o fim.

A coisa não oferecia nenhum perigo para ele...

Isso não o contentou de todo. Procurou distrair-se.

CAPÍTULO VI

A recepção que tivera Cassi, na sua segunda visita, seca, hostil, quase sendo despedido à soleira da porta, ao contrário da primeira vez que fora à casa de Joaquim dos Anjos, fizera-o meditar e açulara-lhe o desejo de remover todos os obstáculos que se opunham à sua aproximação de Clara. Por exclusão, ele só viu duas pessoas capazes de lhe estarem atrasando seu "trabalho", começado com tanta rapidez e sem esforço. Quem eram? Só podiam ser Dona Margarida, por causa do "negócio" do Timbó; e o tal aleijado, que lhe lançara a indireta, em verso, de chamá-lo de burro.

Se na sedução, propriamente, ele não empregava absolutamente força, no que era o contrário dos conquistadores suburbanos, a ponto dos jornais noticiarem, de quando em quando, o desespero das vítimas que se fazem assassinas, para se defenderem de tão torpes sujeitos; Cassi, entretanto, quando no decorrer de suas conquistas, encontrava obstáculos, fosse mesmo da parte do próprio irmão da vítima em alvo, logo procurava empregar violência, para arredá-lo.

É bem de ver que ele sabia com quem se metia; mas, no caso, tratando-se de um quase inválido, a força a empregar seria mínima; e, no que toca a Dona Margarida, ele saberia enganá-la e embaí-la.

A sua força de valente e navalhista era mais fama do que realidade; mas tinha fama, e muitos se intimidavam. Dava-lhe isso um ascendente sobre os que, de boa fé e honestamente, podiam prevenir as moças que ele cobiçava, não as prevenindo, não as avisando, não o desmascarando totalmente. Cheios de temor, deixavam o caminho franco ao modinheiro.

A tal respeito, com o seu cinismo de sedutor de quinta ordem, tinha uma oportuna teoria, condensada numa sentença: "não se pode contrariar dois corações que se amam com sincera paixão."

(continua...)

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