Por Coelho Neto (1890)
A praia de Santo Cristo tem o aspecto sadio de uma varina, criada livremente, à fresca e salitrada aragem marinha, diante da vaga, sempre a coser os panos das velas, abrindo-as ao vento ou compondo as malhas das redes que um repelão mais forte do peixe, no mar fundo, rompera em noite farta. A sua linguagem é rude como o fragor da onda na rocha, o seu olhar é límpido e seguro como o do mareante; tresanda à maresia. A sua força é a do vagalhão. Calma, tem o encanto da água serena em noites de luar, mas quando se insurge alvoroçada, quando se põe de pé, brandindo facas agudas e croques, remos e velhas bancadas de canoas roídas pela onda, esquecidas junto às dunas, apodrecendo ao tempo, tem a fúria irreprimível do mar tempestuoso.
A rua Haddock Lobo, com o seu ar repousado e feliz de velha senhora abastada, que dormita à sombra de árvores, entre crianças gazis e flores recendentes, digerindo, em sossego beato, sem cuidados, sem achaques, é calma e transmite ao espírito suavíssima idéia de descanso espiritual e de corpo, no imperturbável silêncio das suas aléias no frescor das suas finas águas correntes.
A rua do Ouvidor é trêfega. Durante o dia toda ela é vida e atividade, faceirice e garbo; é hilare e gárrula; aqui, picante; além ponderosa; sussurra um galanteio e logo emite uma opinião sisuda, discute os figurinos e comenta os atos políticos, analisa o soneto do dia e disseca o último volume filosófico. Sabe tudo — é repórter, é lanceuse, é corretora, é crítica, é revolucionária. Espalha a notícia, impõe o gosto, eleva o câmbio, consagra o poeta, depõe os governos, decide as questões à palavra ou a murro, à tapona ou a tiro e, à noite, fatigada e sonolenta, quando as outras mais se agitam, adormece. Ouve-se apenas o rumor constante dos prelos nas oficinas dos jornais. É a rua que digere a sua formidável alimentação diária para, no dia seguinte, pela manhã, espalhar pelo país inteiro a substância que compõe a nutrição do grande corpo, cada parte para o seu destino. Para o cérebro: as idéias que são os incidentes políticos e literários e as descobertas científicas, essas ficam com a casta dos intelectuais; o sentimento para o coração, que é a mulher; essa tem o romance e a esmola, o lance dramático e a obra de misericórdia; o movimento dos portos e das gares para o ventre e para os braços do povo que devora e do comércio que abastece e o resíduo que rola, parte para os cemitérios, parte para os presídios mortos e condenados. Outros que analisem a carta completa da cidade, eu fico nesta exposição.
Anselmo seguiu pensando no encontro. No largo de S. Francisco todos os quiosques conservavam-se apagados. Tomou pela rua do Teatro, também escura. Os respiradouros do S. Pedro brilhavam, homens debruçados às janelas fumavam, passavam senhoras despindo capas. Num hotel ressoava a harpa de um pequeno italiano e a rabequinha da irmã desafinava dolorosamente como se, a custo, àquela hora da noite, depois de todo um dia de afã, de hotel em hotel, de esquina em esquina, arranhado insistentemente pelo arco, o instrumento, irritado, recusasse o som.
No largo do Rocio era grande o movimento. Os cafés regurgitavam — era o povo dos domingos: o operário, o caixeiro, o marujo, aproveitando, com ânsia, o dia de folga. Vinham do campo, chegavam dos subúrbios fartos, alegres; uns que haviam apostado, com felicidade, nas corridas; outros que se haviam banqueteado, num canto rústico de arrabalde, à sombra da latada verde e iam acabar a noite no teatro, aplaudindo atrizes, cobrindo o palco de flores, rindo, saciando um desejo refreado durante uma longa semana no quarto estreito do armazém ou no cubículo da oficina.
Rapazolas passavam em turmas com grandes ramos ao peito, chuchando imensos charutos, fazendo algazarra. E triste, encostado a uma esquina, com uma pequenita sonolenta ao lado e um cão estirado aos pés, um velho cego, de compridas barbas brancas, com um realejo suspenso ao pescoço, tendo sobre a tampa um pires, voltava maquinalmente a manivela, moendo a Marselhesa.
Anselmo parava à porta de todas as casas, espiava e via um povo diferente do que ali costumava aparecer nos dias comuns. Nem um só dos rapazes: era uma gente nova, desconhecida, como se houvesse chegado de longe, caminhando, logo ao pisar a terra, em grande necessidade de expansão e de movimento, para as casas de prazeres onde bebesse e, calmamente, seguramente, comentasse os perigos de que saíra, os sustos que havia sofrido, as privações por que havia passado.
O homem das empadinhas urrava desesperado: "Empadinhas de camarão...
estão quentes!" e, à porta do teatro, o povo apinhava-se, apertava-se, avançando arrastadamente, comprimido. Entrou.
O porteiro ruivo pediu-lhe o bilhete; ele, porém, lembrando-se do que lhe havia dito Ruy Vaz, atirou, com orgulho, o título de um jornal e passou.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. A conquista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16594 . Acesso em: 6 abr. 2026.