Por Raul Pompéia (1880)
Estas cousas me foram referidas pelo meu pobre amigo ao fazer-me entrega desta mãozinha de coral. Agora, vê...
Ele chamava-se Antônio... eis aqui a letra A riscada no objeto que te deram. A sua filhinha chamava-se Rosalina... R é a letra que tem a lembrança que me deu o dedicado Antônio... Rosalina é também o nome da criança que vimos em casa do subdelegado!
— Sim, meu pai! Ela disse-me que se chamava Rosalina!
— Otávio, aquela criança é tua irmã!... Eu sou seu pai ante a minha consciência! O pobre Antônio, sacrificando-se por mim, confiou-ma sem o declarar. Eu devo ser agora seu pai.
Quando acabou de falar, Henrique Dugarbon, bastante comovido, pareceu refletir por um momento e, voltando-se para o amigo, que de parte assistira, sem entender, o diálogo dos dons estrangeiros, travado em francês, pediu-lhe em português, que desse informações acerca da mãe da protegida do subdelegado.
Soube que, havia bastante tempo, uma espécie de mendiga exalara o derradeiro suspiro nos braços da miséria, deixando ao desamparo uma filhinha, que Eustáquio de... acolhera. Contou então ao seu informante a história do fim trágico que levara o pai da orfãzinha.
— Se não fosse o Sr. Eustáquio, observou Otávio, a pobre menina estaria tão abandonada, coitadinha!...
Esta observação de Otávio atraiu o pensamento do viajante francês para as condições em que se achava Rosalina. Henrique estava pronto para consagrar àquela criança uma dedicação toda paternal... Rosalina encontrara generosos protetores, mas... quem sabe se não careceria ela alguma vez de proteção mais forte?... Os benfeitores da menina tinham um inimigo talvez terrível... Cumpria pois que ele, Henrique Dugarbon por amor de Rosalina se armasse para defendê-los. Ocorreu-lhe a idéia de suspender por algum tempo as suas excursões e entregar-se a essa defesa; a vida sedentária, porém, não convinha à sua natureza. Depois de haver obtido do amigo em cuja casa ia deixar o seu filho Otávio a promessa de que empregaria todos os meios ao seu alcance para afastar os perigos que ameaçassem a família do subdelegado Eustáquio. ele terminou as suas despedidas e. reunindo-se aos seus quatro camaradas, partiu para o norte.
No momento em que Henrique Dugarbon estreitava consigo a Otávio. o menino. elevando-se à altura de um homem, proferiu no íntimo d'alma um juramento solene.
Quem tivesse o dom de ouvir os pensamentos, teria percebido o seguinte:
"Juro-vos, meu Deus, pelo vosso nome e pela alma do desditoso sertanejo que morreu por meu pai, que a segurança de Rosalina será garantida!"
Tais foram os fatos referidos por Otávio na revelação que fez ao padre Jorge. Tais foram os fatos cuja narração o padre repetiu a Eustáquio, Branca e Rosalina.
As impressões que cada frase do sacerdote causara nos seus ouvintes não se descreve. A princípio uma curiosidade indomável, em seguida uma comoção que se traduzia por torrentes de lágrimas. Quando ouviu falar de seu pai afogado no rio Amazonas, Rosalina lançou-se ao colo de Branca, soluçando de modo a cortar o coração. Por várias vezes o padre Jorge, compungido diante da dor da menina, teve desejos de interromper a sua narrativa ela. porém. rogava-lhe que prosseguisse. porque queria saber a quem devia a salvação da sua existência. que duas vezes perigara, e quem velava pela tranqüilidade dos seus benfeitores. Ele continuava. Quando declarou que juramento Otávio fizera. um grito es capou-se dos lábios de Eustáquio...
— Oh! criança de heroísmo!
Branca e Rosalina puderam apenas exclamar.. Oh!
Mas esta exclamativa foi uni verdadeiro hino de admiração. entoado em honra de Otávio. Doces lágrimas de gratidão. desprendendo-se das pálpebras de Rosalina. Vieram minorar-lhe a mágoa causada pela história lúgubre da morte do seu pai...
Uma bonança relativa ganhou o ânimo encapelado dos ouvintes do padre Jorge, que, depois de longa pausa, pode terminar:
— Quando o jovem Otávio repetiu-me o seu juramento, quando contou-me, em seguida, que o amigo do seu pai esquecera a promessa feita e que ele sozinho ficara a braços com o cumprimento do que havia jurado, missão que, como me dissera no princípio, ele já desempenhara em parte, confesso-vos que senti por ele alguma cousa que se assemelhava ao respeito. Não tive ânimo de dar-lhe um só conselho. Com os olhos na Providência, conservei-me calado, apertando-o apenas em meus braços.
"Otávio também se calara. Julgava ter dito tudo, e dissera-o com efeito. A explicação de tudo quanto havia de obscuro e misterioso para mim e também para ti, Eustáquio, se podia facilmente depreender daquilo que ele tinha dito.
"Desprendendo-se dos meus braços, Otávio fitou-me com um sorriso que lhe dava uma fisionomia titânica.
"— Adivinhou já o que eu fazia ontem de noite fora da casa? perguntou-me ele. . . Está então satisfeito?
"— Inteiramente, respondi-lhe.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. Uma tragédia no Amazonas. Rio de Janeiro: Typ. Cosmopolita, 1880. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17442 . Acesso em: 6 abr. 2026.